quinta-feira, 26 de março de 2015

GUEST POST: "MEU PAI ACHA QUE NÃO ME DOU O RESPEITO"

A C. me enviou este email:

Não sei se você lembra de mim. Te escrevi no outro semestre, sobre uma situação triste que rolou comigo. O ex-namorado que terminou e começou a namorar uma amiga minha, todos colegas de trabalho, uma verdadeira novela mexicana com requintes de machismo dos outros, que queriam ver o sangue da menina, e não o dele. Lembro que na época você disse que publicaria meu relato no blog quando eu já estivesse com um novo amor. 
Naquele dia eu dei risada, porque achava que isso não ia rolar tão cedo. Mas cá estou eu há quase três meses feliz da vida, namorando um cara ótimo, maravilhoso e feminista. 
Hoje eu queria falar sobre algo que aconteceu comigo ontem. E olhando pra esse fato, tudo aquilo que rolou com o ex-namorado parece minúsculo.
Sendo mulher, já passei por situações vexatórias. Nunca sofri abuso sexual, ou pelo menos nunca fui forçada a fazer sexo. Mas o "básico" acontece com todas nós, né? Olhares, palavras chulas no meio da rua, mãos bobas no ônibus quando ainda nem se tem idade pra entender o que aquele toque significa, mãos bobas no ônibus quando já se tem idade pra entender o que aquele toque significa. O de sempre. Mas nada, nada, nada disso se compara a o que eu tive que ouvir ontem.
Explico: uma grande amiga minha se formou, e me convidou para ir ao baile com ela, na minha cidade natal, onde não moro mais. Como não quis criar qualquer problema em casa, fiquei com o meu namorado em um hotel. No domingo, no almoço em família, na frente da minha mãe e do meu irmão, meu pai começou um discurso que eu tenho até dificuldade de entender:
"Você dormiu de ontem pra hoje com o seu namorado? Então, se vocês estão dormindo juntos, vocês são casados? Ele é seu marido? Ele é meu genro? Porque para permitir que vocês tenham esse convívio é preciso ser marido e mulher. Eu sei que você faz o que bem entender porque é dona do seu nariz, mas eu sinto que, como seu pai, devo falar."
Senso comum machista
em ação
Tenho 25 anos. Passei em primeiro lugar numa das melhores universidades do país, fui uma das melhores alunas da turma, comecei a trabalhar no dia em que apresentei minha monografia pra banca. Sou fluente em dois idiomas estrangeiros e já fiz dois intercâmbios. Me sustento sozinha e, talvez por ter iniciado minha vida sexual na faculdade, longe de casa, nunca precisei ter esse tipo de papo com meus pais. Também nunca tive DSTs, nem suspeitei que estivesse grávida. E ainda assim, acredito que mesmo se eu tivesse sido a adolescente problema e tido uma vida universitária completamente desregrada, não é papel dele meter o bedelho na minha vida sexual, tampouco julgar o meu caráter pelo meu comportamento sexual.
Eu não quis argumentar, porque sei que meu pai é muito conservador (é médico, ateu, e contra o aborto, o que eu nunca entendi). Eu só disse que não gostaria que ele se referisse ao meu namorado como meu marido, porque quem estabelece o que nós somos um do outro somos nós dois, e não ele, que está de fora.
E aí minha mãe tentou colocar panos quentes, e meu irmão disse que isso não tinha que ser conversado. Meu pai quis voltar ao assunto que tanto o incomoda: "Já falei com o seu irmão que é uma falta de respeito ele dormir com a namorada dele. Se ele a ama tanto, se quer mesmo se casar com ela, ele tem que respeitá-la. E com você é a mesma coisa: você precisa se dar o respeito".
Sabe, Lola, eu sou uma feminista tranquila e esperançosa.
Eu acho que se a gente conversar, as coisas podem ir mudando pouco a pouco. É claro que machismo me revolta, mas sou que nem você: acredito que as pessoas geralmente têm salvação. E foi o que eu argumentei com ele: eu não acredito nisso de se dar o respeito, acredito que sou dona do meu corpo e das minhas decisões, que eu respeito as opiniões dele, mas que eu não sou dele para ele decidir o que é certo ou errado pra mim. E ainda disse que nunca, nunca havia sido tão desrespeitada na vida quanto naquele momento, e que ele não deveria, nunca mais, tocar naquele assunto comigo.
"Você está retirando minha liberdade de pai. Você viu que errou e agora está me atacando para abafar o seu erro."
"Qual foi o meu erro?"
"Quer que eu repita? Você não se deu o respeito."
Nisso meu irmão e minha mãe já tinham se levantado da mesa, revoltados. Eu também saí, porque não vi solução. Meu pai é muito complicado. Na família dele, é assim: você ofende uma pessoa no dia e se senta à mesa com ela no outro, tira fotos e manda pro grupo, como se nada tivesse acontecido. Vai acabar que nem a mãe dele, que de tanto ofender e magoar os filhos, morrerá sozinha. Ele não se vê fazendo isso, e, pouco a pouco, afasta o meu irmão e eu.
É muito difícil amar uma pessoa que fala tanta bobagem. Dá vontade de gritar: cala a boca, eu te amo, cala a boca! E o mais louco é que eu não tenho um pingo de remorso por todos os homens que já beijei e transei. Não tenho remorso por ter transado com meu namorado na primeira noite. Tomei todas essas decisões consciente e feliz porque eu estava mandando no meu corpo. É muito bom ser livre. Toda a argumentação do você-não-se-dá-o-respeito me parece apenas patética.
Fico preocupada com a minha mãe, que fica desnorteada, começa a falar em divórcio. Não sei se é essa a solução. Não sei nem se tem solução. Acho que é só medo de ser a catalisadora desse processo.
Pra mim, essa situação é razoavelmente simples, porque moro sozinha e porque tenho plena consciência de que a loucura, a falta de limites e o machismo são dele. Eu não tenho nada com isso, e acho que de agora pra frente essas coisas devem entrar por um ouvido e sair pelo outro. Fico pensando nas inúmeras mulheres que já te escreveram, contando relações de abuso muito mais sérias do que essa. Acho que tive muita sorte nessa vida, Lolinha. Sorte que todas nós merecemos e, infelizmente, poucas temos.

quarta-feira, 25 de março de 2015

REAÇA REVELA QUEM É O VERDADEIRO NESSAHAN

Emerson, provavelmente rindo da cara de Luciano

Dois meses atrás, um reaça qualquer chamado Luciano escreveu um post sobre a minha pessoinha (sorry, sem links pra sites de ódio. Por favor, não coloque links para esses blogs nos comentários, ou não serão publicados). 
Opinião de quem conhece melhor Luci
(clique para ampliar)
Luciano é um sujeito que chama feministas de "prostitutas ideológicas dos burocratas do estado inchado" (obviamente, estado inchado pra eles é estado que proporciona saúde, educação e segurança pública, entre outros). É um rapaz que, anos atrás, pelo pouco que sei, foi escorraçado das comunidades ateias, ridicularizado aos extremos, definido como um mero troll dos mais ignorantes, e se reconstruiu como um liberal sério. Coisas da série "só na internet!". Só na net um astrólogo vira filósofo com legião de reaças que o veem como um gênio incompreendido que fala um palavrão a cada três palavras.
Luci in hell with mascus
A demência é tamanha que Luciano relaciona casos de mulheres que cortaram o pênis do parceiro com... feminismo. Sim, porque feminismo -- pra reaças -- é a castração psicológica do homem. Assim, quando uma mulher que não tem nada a ver com o feminismo, que nunca se disse feminista, castra literalmente um homem, pra eles é a glória. É a prova de que, olha só, feminista é castradora mesmo!
Num dos posts que publicou sobre mim, Luciano me chamou de "monstro moral". Isso baseado em dois textos meus: um, em que narro a falta de caráter de Danilo Gentili, que em janeiro divulgou uma montagem falsa feita por mascus com uma foto minha para seus milhões de seguidores; outro, em que critico a Globo por ter escalado Adrilles, um stalker comprovado, para o BBB 15. Pois é, é essa gente que reaças defendem: reaças como eles. Adrilles, além de stalker, é um olavete. Assim como Gentili.
Um dos mascus que ataquei
violentamente
Luciano diz não saber muito sobre masculinismo (apesar de ter lido "algumas coisas interessantes" -- ele cita um livro que comprou e não leu), mas afirma que eu aponto "o dedo na direção de garotos que postam em fóruns, ridicularizando-os, especialmente pelo uso de táticas de violência psicológica". Pausa pra muitas risadas. Ahauahuah, pobres garotos de 25 anos, em média, que postam anonimamente com avatares de superheróis e que vivem de ameaçar e xingar mulheres em geral e feministas em particular! Eu sou muito violenta com eles!
Para Luciano, compartilhar uma foto de uma pessoa real, sem sua autorização, e fazer montagens em cima dessa imagem, não é crime (só é crime quando eu ridicularizo o avatar de superherói de um mascu anônimo). Quem divulga uma imagem sua, segundo ele, "devia aprender a viver com as consequências". Ele defende Gentili em todos os casos, inclusive naquele em que atacou Michelle, a maior doadora de leite do Brasil (e que o está processando; vai demorar, mas não resta dúvida que ela vai ganhar). Quem mandou ela se tornar uma figura pública?
"Vadias interesseiras", pressuposto
inspirado nesta imagem
da Barbie 
Acho que Luciano e outros babacas ficaram muito frustrados porque ignorei totalmente o post. Só estou respondendo agora, e não tenho a menor intenção de dar holofotes ou debater com reaças. Reaças são ridículos, insignificantes, e nada do que dizem faz qualquer sentido. Debater com eles seria tão proveitoso como se o movimento negro debatesse com a Ku Klux Klan. Se você se senta na mesma mesa com quem faz discurso de ódio, com quem parte de pressupostos totalmente falsos, eles ganham. Eles ganham o debate antes mesmo de começar, não por terem argumentos, mas justamente por não terem. Porque, se um sujeito começa com um resumo do pensamento mascu -- "mulheres são todas vadias imprestáveis e hipergâmicas que só querem tirar proveito dos homens, as verdadeiras vítimas da sociedade" --, qual parte você rebate primeiro? 
Emerson na época do orkut, ensinando a estuprar novinhas
Bom, Luciano agora decidiu sair em defesa de Emerson Rodrigues. 
Para quem não sabe, Emerson é um "garoto" de 37 anos que é mascu há tempos, ainda na era do orkut (e bem antes de eu começar meu blog ou saber da existência de mascus). Emerson, que é seu nome verdadeiro, era amigo e leitor de um dos gurus mascus, Silvio Koerich, não seu nome verdadeiro, e vivia escrevendo as coisas mais misóginas e racistas contra uma ex-namorada, Rafaela. Em um de seus relatos, Emerson contou que Rafaela queria fazê-lo beber sua urina durante o sexo. Por conta disso, ganhou o apelido de Engenheiro Mijão, e é assim que os mascus o chamam até hoje. 
Emerson, preso em Curitiba, 2012
Detalhe: Emerson, apesar de ser apenas técnico, vende seus serviços como engenheiro. Mas, pra essa turminha, se pra ser filósofo basta ter sido astrólogo sem o segundo grau completo, pra ser engenheiro tampouco é necessário um diploma em engenharia (eu vi um podcast recentemente em que uma olavete antifeminista, estudante de mestrado, foi chamada de doutora. Porque "pra gente, ela é doutora", justificou o entrevistador). 
Um dos vídeos de Emerson
Por ser extremista demais até entre misóginos como os mascus, Emerson acabou sendo expulso da caixa de comentários de Silvio Koerich. Mas seguiu fazendo vídeos cheios de discursos de ódio. Num deles, gravado na Índia, Emerson diz que o "estado inerente da mulher é a prostituição, e o estado inerente do preto é a sujeira", e "todas as loiras miscigenadoras vão trepar um dia com um macaco e não vai ter mais brancos que nem eu". Não vou mencionar tudo que Emerson aprontou, pois nem sabia que ele existia antes de 2011.
2011 foi o ano em que Wellington Menezes, um mascu, entrou numa escola em Realengo, RJ, e matou doze meninas e dois meninos. No dia seguinte ao massacre, Silvio Koerich sumiu do mapa. Outros blogs mascus também fecharam, com medo das investigações da Polícia Federal, porque era óbvio que Wellington era frequentador assíduo de sites de ódio. Koerich só voltou meses depois, já no segundo semestre de 2011, para anunciar que seu blog estava encerrado. Nenhuma explicação, nenhum adeus a seus seguidores. Corajoso como todos os mascus.
Pouco depois o blog voltou, com o mesmo nome, só que ainda mais preconceituoso. Agora defendia a legalização do estupro e da pedofilia, o estupro corretivo para lésbicas, a tortura e o assassinato bárbaro de mulheres, negros e homossexuais, entre mil e uma atrocidades. Também ameaçava desafetos, principalmente o deputado Jean Wyllys e euzinha. E prometia um atentado no prédio de Ciências Sociais da UnB, para matar "vadias e esquerdistas". 
Marcelo, preso em Curitiba, 2012
Por causa de informações dos Anonymous, eu suspeitava que os autores do site eram Emerson (muita da linguagem do site era igual ao que ele falava em seus vídeos) e Marcelo Valle Silveira Mello, velho conhecido de chans, onde se apresentava como Psyclon. O site foi denunciado à exaustão, e finalmente, em março de 2012, Emerson e Marcelo foram presos, em Curitiba, pela "Operação Intolerância". 
Muita gente achava que eles deixariam a prisão em poucos dias, mas não foi o que aconteceu. Eles permaneceram na cadeia até maio de 2013. Nesse período, foram julgados e condenados a 6,7 anos de prisão. Durante o julgamento, eles não foram os valentões que pretendiam ser na net. 
Marcelo na Campus Party, 2012
Assim que saíram, ambos me enviaram emails dizendo que iriam me processar. Marcelo rapidamente voltou a fazer tudo que fazia antes: bolar sites de ódio, ameaçar e se exibir para meia dúzia de desajustados sociais (os mascus sanctos) que o veem como herói nerd. É dele e dessa tchurminha que vem as ameaças mais pesadas que recebo. Fiz BO contra ele e outro neonazista, Gustavo Guerra, em dezembro.
Já Emerson parecia ter sossegado um pouco, porque estava casado e tinha uma filha bebê. Não ouvi falar nele por bastante tempo (o que é um bom sinal), até que fiquei sabendo que ele estava usando o livro Assassinato de Reputações, de mais um reaça, Tuma Jr, para evidenciar o que tínhamos (eu inclusa) feito com ele. Foi tudo uma conspiração para acabar com sua reputação!
Para tentar justificar por que feministas e a esquerda em geral teriam qualquer interesse em incriminar um homem que ninguém fora os mascus conhecia, Emerson inventou que ele é Nessahan Alita. Nessahan quem?, você pode perguntar. Pois é. Nessahan foi um guru mascu que escreveu alguns livros (publicados apenas online) sobre o lado obscuro da mulher. Quando ele surgiu, cerca de dez anos atrás, sua misoginia atraiu homens inseguros que se revoltavam por não atrair mulheres. 
Nessahan, vulgo Cléber
Com o tempo, Nessahan suavizou algumas de suas frases (não esperem muito: continuou maluco) e os próprios mascus se distanciaram dele (algum tempo mais tarde, voltaram a reverenciá-lo). Ele sumiu, mas todos sabem quem é. Seu nome real é Cléber, um "garoto" de 44 anos que interrompeu a graduação em psicologia na PUC e hoje é professor de geografia no interior de SP. Em novembro de 2012, publiquei uma foto dele, enviada por uma leitora que o conhece
Tirando o Luciano, ninguém mais no mundo acredita que Emerson seja Nessahan. Poucos duvidam que Cléber foi Nessahan. No entanto, há quem jure que "Silvio Koerich vive" e tem hoje um blog misógino de finanças pessoais que publica coisas como:

E depois feministas e demais ativistas sociais é que são vitimistas!
BO de ex-esposa de Emerson por
violência doméstica, em 2009
Sinceramente, pra mim pouco importa quem é quem, porque considero todos os mascus, sem exceção, uns lunáticos misóginos que mal sabem escrever. Mas o que salta aos olhos é que Emerson diga ser alguém que todos os mascus sabem quem é (e sua "prova" de que ele é Nessahan é "prove que não sou!"), e que Luciano acredite. Mas mascus e reaças sempre andaram juntos (não conheço um só mascu que não seja de direita), e vale tudo pra atacar feministas, principalmente inventar historinhas mentirosas
Claro que é muito perverso Emerson declarar que eu esteja encenando uma briga virtual com Marcelo, Guerra e outros que fazem planos para matar meu marido e eu. 
Emerson foi brigar num comício
pró-Dilma em Curitiba, em outubro
de 2014. Conseguiu chamar a
atenção
Mas Emerson já disse em outra entrevista que eu (euzinha, autora de um blog feminista!) enviei ameaças de estupro para a filha dele. Sim, mascus ameaçam estuprar meninas de dois anos, e a culpa é das feministas! (eu já deveria estar acostumada: fui acusada por mascus de ser autora do site de ódio do Koerich). 
O fato é que onde houver extrema direita que lhe dê atenção, Emerson estará lá. Ano passado, ele chegou a ser moderador de uma página do Olavão, até que o ex-astrólogo foi informado que, opa, você sabe quem é esse Emerson aí? Emerson foi expulso, e hoje é inimigo também dos olavetes. 
Mas, pelo jeito, o "engenheiro" ainda serve pra alguma coisa: pra desmascarar a suprema ignorância de libertotários como Luciano (devido à "polêmica" -- isto é, todo mundo chamando Luciano de idiota e Emerson de mentiroso --, Luci acabou de tirar a entrevista do seu blog). 

terça-feira, 24 de março de 2015

GUEST POST: DISCRIMINADA POR SER MULHER, EM RESTAURANTE EM BRASÍLIA

A advogada Simone me enviou o seu relato:

Anteontem, no domingo, fui almoçar no restaurante natural A Tribo, aqui em Brasília, e sofri discriminação machista muito clara e grosseira de um fulano que se apresentou como "dono" do negócio.
Eu e uma amiga lá almoçamos e ocupamos uma mesa coletiva, de seis lugares. Quando chegamos, já havia duas pessoas na mesa, pedimos licença e nos sentamos, como de costume em mesas coletivas de self services. 
Daí, enquanto almoçávamos, as outras pessoas terminaram de comer e foram embora. Quando eu e minha amiga terminamos de comer, continuamos lá, conversando, como estava ocorrendo nas demais mesas, pois àquela hora já havia pouco movimento. Então um cara que estava trabalhando no restaurante, sem uniforme, ao recolher os pratos, já foi virando para a minha amiga e dizendo assim: eu vou reservar esta mesa. Dá para tirar essa bolsa da cadeira (ele apontou pra minha bolsa, que já foi tocando)? 
Minha amiga respondeu, já estamos de saída, mas não dá para tirar esta bolsa porque ela é da minha amiga (eu), que está no toalete. O cara: mas eu já vou reservar a mesa. Assim que desci, peguei a bolsa, e, a caminho do caixa, minha amiga me contou que o cara tinha "pedido" a mesa para ela. Aí observei que realmente havia muitas outras mesas ocupadas com pessoas que já tinham terminado de almoçar e estavam conversando. 
O cara que tinha exigido a mesa estava no caixa. Perguntei para ele por que escolhera "pedir" a nossa mesa, já que na maioria das demais mesas as pessoas tinham terminado de almoçar e estavam conversando (detalhe: nas outras mesas nessa situação, havia famílias e casais). Ele, num tom ríspido, respondeu, "Você está totalmente errada, eu não escolhi a sua mesa, eu tinha seis pessoas em pé para acomodar". Repliquei: aqui todo mundo espera quando não tem lugar, tem outras mesas em que as pessoas estão só conversando, mas você tinha que pedir justo a única mesa só com duas mulheres.
Aí ele engrossou, disse que eu estava errada e que o restaurante era dele e lá ele mandava, que o problema estava na minha cabeça. Fui ao ponto e devolvi: se eu estivesse errada, você não reagiria com tanta agressividade; você, em primeiro lugar, pediria desculpas, calmamente diria que foi um mal-entendido e se explicaria, com respeito. Mas você já reagiu falando rispidamente, como se, só por ser homem, pudesse ralhar com uma mulher. 
Daí veio a pior parte. Ele levantou o queixo e me disse assim: o seu problema é que você não gosta de homem. Respondi um pouco do que ele merecia ouvir, e não reproduzirei aqui. E falei em alto e bom som, para os presentes no restaurante: esse cara aqui me discriminou por ser mulher. Dei as costas e saí. O sujeito, para mostrar o "poder " que ele não tem, gritou, "Você não entra mais aqui". E ouviu de mim: não entro porque tenho asco, porque aspirante a homem nenhum manda em mim.
Chamar a polícia: não adiantaria.  O fato -- discriminação de gênero -- não é crime, daí o PLC 122/2006 tentar corrigir a lacuna da Lei 7716/1989, que define os crimes de discriminação resultante de preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional.

Meu comentário: Em posts como este, sempre aparecem os arautos do Estado Mínimo pra afirmar que o dono do lugar é deus e tem o poder de agir como bem entender. Falei sobre isso num post recente:
"Há diferença entre preconceito e discriminação. Se o tal amigo se negar a dar uma vaga de trabalho para um gay apenas por ele ser gay, isso é discriminação -- e é proibido por lei, não é uma questão de opinião. Se ele tiver um estabelecimento comercial, um bar, por exemplo, e um casal gay for jantar lá e, no meio do jantar, eles se dão um beijinho (como fazem os casais hétero), e o dono do bar se recusar a atendê-los ou expulsá-los, isso é discriminação, também proibido. Não tem essa de 'o bar é meu, faço o que eu quiser'. O bar está assentado num lugar chamado mundo."
Só pra poupar tempo. Agora fiquemos com os comentários habituais do tipo "Vocês só ficam de mimimi, isso não foi discriminação!"