domingo, 7 de fevereiro de 2016

ESPERANDO VOCÊ PARTICIPAR DO BOLÃO DO OSCAR

Eu queria que, com o prêmio do bolão, fosse possível comprar uma passagem para Marte

Falta pouco pra cerimônia do Oscar, que será no dia 28 deste mês. Mas as apostas pro meu tradicional bolão se encerram antes, na sexta, dia 26. E por enquanto pouquíssima gente participou. 
Então este é um lembrete ou apelo pra você entrar no jogo. 
Pra entrar no bolão grátis, basta fazer suas apostas aqui.
"Homenagem" que algum chan
fez pra mim. Dessa montagem
eu até gostei
Pra participar do bolão pago não é tão simples, mas nada parecido com uma missão pra outro planeta. Deposite R$ 20 na minha conta no Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760ou pague R$ 22,20 no PayPal. Depois é só mandar um email pra mim (lolaescreva@gmail.com) e pro Júlio César (jcaoalves@gmail.com), com cópia do comprovante, e fazer as apostas nesta tabela
Eu ia começar uma enquete aqui do lado perguntando por qual filme você está torcendo. Mas por algum motivo o Blogspot não está permitindo que eu finalize.
Até o Matt Damon está se cansando
de esperar
Sobre Perdido em Marte, não faz o meu gênero (mas o trailer é incrível). Sempre bate um soninho quando vejo essas produções espaciais (exceções são 2001, Uma Odisseia no EspaçoOs Eleitos - The Right Stuff, e Apollo 13). Eu sou do tipo que nunca consegui ver Alien, o 8o Passageiro (o primeiro, que sem dúvida é um clássico) porque não consigo passar das naves e equipamentos no início. 
O maridão viu Perdido em Marte aqui em casa e diz que gostou. Levou vários dias. Teve uma noite que entrei no quarto e tava tocando ABBA. Nessa hora eu entendi por que o filme foi indicado na categoria comédia ou musical no Golden Globes (mentira, não entendi não). 
Alinhe seu planetinha, entre em órbita e venha participar do bolão (ok, essa foi horrível, mas participe, tá?).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

GUEST POST: UM CASO POLÊMICO QUE MEXEU COM A FRANÇA

José Tarcísio Costa, doutorando em Física e Matemática Aplicada em Nice, já colaborou com ótimos guest posts aqui. Agora ele relata um caso que está dando o que falar na França:

Começo da história: no dia de 10 de setembro de 2012 em La-Selle-sur-le-Bied, uma cidadezinha com um pouco mais de mil habitantes no centro da França, uma mulher, Jacqueline Sauvage, de 62 anos, utiliza o fuzil da família pra matar o marido com três tiros. Quando ela é presa, ela explica que viveu 47 anos de violência conjugal. Ainda na delegacia, nesse mesmo dia, ela descobre um dos seus filhos tinha acabado de se suicidar por enforcamento. Mais tarde esse suicídio vai ser também atribuído à violência que toda família sofria nas mãos do marido abusivo. O casal tinha 4 filhos (3 mulheres e um homem).
Na época, depoimentos de vizinhos confirmaram que seu marido era um homem violento e intempestivo que criava tensão no bairro onde viviam. Um funcionário da pequena empresa do casal disse que ela era uma mulher submissa que ficava em silêncio cada vez que seu marido começava a subir o tom de voz.
O primeiro julgamento ocorreu em 14 de outubro de 2014 com um júri popular composto por 3 mulheres e 3 homens. Ela foi acusada de assassinato com premeditação. A conclusão do relatório psicológico estabeleceu que Jacqueline declarou não entender por que ela seria condenada quando seu marido agiu como um tirano por tantos anos. A defesa decidiu usar a lei de legítima defesa pra tentar a absolvição. 
Durante o julgamento, o depoimento das filhas confirmou que todas elas sofriam abusos (inclusive sexuais) na casa e que nunca denunciaram por medo de represálias da parte do pai. A promotoria insistiu nesse ponto: a ausência de denúncias contra o marido. 
Vale lembrar o contexto social e legal francês à época dos fatos: 200 mil mulheres eram vítimas de violências conjugais e só 10% dessas mulheres denunciaram os companheiros. Entre 2010 e 2014, o número de mulheres assassinadas pelos companheiros oscilava entre 118 e 146 por ano e o número de homens assassinados por suas companheiras, entre 23 e 28 por ano.
Voltando ao processo, o argumento de legítima defesa era problemático porque, seguindo estritamente a lei francesa, a legítima defesa só se aplica a casos em que que a reação é imediata e proporcional ao ataque sofrido. Outro problema era a ausência de marcas de violência. Jacqueline explicou que o marido a golpeava no couro cabeludo e que, quando ela tinha hematomas, ficava 15 dias sem sair de casa. Uma antiga namorada do filho confirmou que quando isso acontecia ela ia ao supermercado fazer as compras no lugar da sogra. 
Finalmente, depoimentos contraditórios de vizinhos e conhecidos complicaram a situação, visto que alguns diziam nunca ter presenciado traços violentos no marido, ao passo que outros diziam que esses traços eram evidentes.
No fim, depois de um processo de 3 dias, Jacqueline Sauvage foi condenada a 10 anos de prisão por assassinato sem premeditação (a premeditação foi descartada). Ela foi encarcerada diretamente após o veredito e entrou com recurso dois dias depois.
O julgamento do recurso começou no dia 1° de dezembro de 2015, e sua defesa foi feita por duas advogadas especialistas em violência conjugal. O júri popular foi composto por 5 mulheres e 4 homens (vale dizer que o júri sempre é formado por sorteio). 
As três filhas de Jacqueline Sauvage
O promotor declarou durante o processo: "Nós não negamos o comportamento violento. O Sr. Norbert Marot [o marido] é completamente responsável. Entretanto, existem reservas factuais dessas violências, visto que não há nenhum elemento material que as comprove. Existem testemunhas, mas muitos poucos elementos". 
No fim desse julgamento, a pena de 10 anos foi mantida, com um "período de segurança" (não conheço o termo jurídico preciso) de 5 anos. O que significa que Jacqueline Sauvage não poderia sair em liberdade condicional antes de 2018.
Após esse veredito, somente dois recursos são possíveis segundo a lei francesa: um que pode fazer variar a duração da pena, chamado "pourvoi en cassation", e o indulto presidencial que pode extingui-la ou eliminar o "período de segurança". Várias associações de defesa de vítimas de violências conjugais organizaram uma petição ("Jacqueline Sauvage: por um julgamento humano de uma mãe de família que sofreu 47 anos de violências conjugais"), que recolheu mais de 435 mil assinaturas. 
No dia 8 de dezembro de 2015, um pedido de indulto presidencial foi enviado ao presidente François Hollande pelas 3 filhas de Jacqueline. Elas falaram do alívio que sentiram ao ver o pai morto, considerando todas as violências que sofreram durante toda a vida. O presidente recebeu a família no Eliseu (palácio presidencial) no dia 29 de janeiro de 2016. Hollande pediu, então, dois dias de reflexão e anunciou finalmente o indulto no dia 31 de janeiro com o comunicado oficial:
"Este indulto lhe permite apresentar imediatamente um pedido de liberdade condicional. O presidente da república quis, diante de uma situação humana excepcional, permitir, o mais rápido possível, o retorno da Sra. Sauvage à sua família, no respeito da autoridade judiciária."
Com o indulto, a pena foi reduzida a 2 anos e quatro meses e o "período de segurança" foi retirado, o que permitiu a Jacqueline entrar imediatamente com o pedido de liberdade condicional.
Ao mesmo tempo, devido a este caso, a deputada Valérie Byer anunciou que ela prepara um projeto de lei visando estender a noção de legítima defesa. O projeto seria inspirado na lei canadense conhecida como "sindrome da mulher espancada", que reconhece o estado de dominação do qual as mulheres agredidas são vítimas e o estresse pós traumático que as impede de denunciar.
Como sempre, nem todo mundo concordou com o resultado. A verdade é que todo o processo foi um pouco controverso e gerou diversas reações na França, especialmente de uma advogada (Florence Rault) que denuncia o tratamento midiático do caso com o objetivo de "promover um feminismo vitimista e afirmar a impossibilidade de existir uma violência vinda das mulheres". 
"Sem justiça": palavras num muro
antes do indulto
O magistrado Philippe Bilger insiste em citar a falta de reação. Ele diz que "mesmo se os 47 anos de violências sofridas foram provados, ele não entende a ausência de denúncias. Ele acrescenta, ainda, que uma decisão de júri popular deveria sempre ser respeitada e que quando políticos se misturam a um caso que eles não seguiram, eles ridicularizam a autoridade da Justiça". 
Em tempo: em Nice, onde moro, recentemente aconteceu o seguinte: após estuprar sua "companheira",  um homem decidiu torturá-la psicologicamente botando fogo no gato dela e o atirando pela janela. Isso gerou uma grande indignação na região... pelo gato, muito mais pelo gato que pela mulher. Enfim, o homem foi julgado segunda-feira e condenado por violência conjugal e ato de crueldade contra animais.  

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

GUEST POST: A MORTE DE UMA TRANSFEMINISTA

Ontem Ana Carolina Brumano, funcionária pública da UFV e feminista convicta, me enviou um link para uma triste notícia: 
o suicídio da travesti e ativista transfeminista Kayla Lucas França, que dias antes havia participado da Caminhada pela Paz "Sou trans e quero dignidade e respeito".
Eu não conhecia Kayla, mas lamento muito sua morte. Pedi a Ana Carolina que escrevesse um guest post:

"Como desistir de quem você é? Isso não significa a própria morte? E quantas vezes nós morremos esse mês?"
Essa é uma parte de um depoimento postado em uma rede social pela militante transfeminista Kayla Lucas França.
Kayla era estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal de Viçosa. Na madrugada do dia 3 de fevereiro, Kayla se jogou do prédio onde morava em São Paulo, capital.
Apesar de não conhecer Kayla, que era colega de uma das minhas irmãs, fiquei bem comovida e triste por uma vida nova e atuante que perdemos. Estamos falando de uma vida perdida devido à pressão de uma sociedade machista, segregacionista, misógina, transfóbica, que não aceita as diferenças. Uma sociedade que julga e oprime, que não respeita e sufoca os sentimentos das pessoas. 
Uma homenagem de Vini a Kayla
Esse preconceito está ao nosso lado. Participei de muitas discussões a respeito dessa tragédia e de muitas pessoas ouvi que Kayla deveria ter algum problema, que só a questão de ser trans e negra não leva ninguém ao suicídio. Concordo que ser trans e negra realmente nunca deveria ser motivo para uma pessoa tirar a vida. As pessoas não entendem que o preconceito machuca e mata aos poucos. 
Eu nunca vou saber o que se passou na vida da Kayla, porque não sou trans ou negra. Nem vou passar pelas situações constrangedoras que ela deve ter passado por defender quem ela era. 
Sei que a morte da Kayla foi apenas mais uma. E pelo o que tenho pesquisado nem para estatística ela vai entrar, porque no Brasil não existe nenhum levantamento de suicídio de transexuais.
A morte dela não vai mudar a nossa sociedade. A morte de ninguém vai. É imaturo pensar o contrário.
Quando as pessoas vão entender sobre a efemeridade da vida? Tudo o que nós temos é esse instante e mais nada. Então, que diferença existe nas diferenças? Todos viraremos pó. E só.
Sugeri este post a Lola porque não podemos nos calar. Se nos calarmos, consentiremos com todo preconceito e marginalização que existe na sociedade. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

MASCUS, IDIOTAS QUE VIVEM NAS CAVERNAS

Pedi à querida Elis para traduzir um texto curto de Rupert Myers que saiu na revista CQ do Reino Unido no final de dezembro. 
Não é nada de novo. O texto fala de MRAs, os men's rights activists, ou ativistas pelos direitos dos homens, que aqui chamávamos de masculinistas, ou mascus, antes que eu, modéstia à parte, ajudei a tornar o termo tão pejorativo que hoje não há mais mascu no Brasil que tenha coragem de se assumir mascu (mas eles existem, óbvio).
Faz tempo que eu digo isso: o sonho dos mascus não é apenas voltar aos anos 1950. É voltar ao tempo das cavernas. Ou pelo menos à fantasia que eles fazem do que era o tempo das cavernas, quando (segundo eles) os homens podiam usar seus tacapes para nocautear mulheres e arrastá-las para suas cavernas. E lá as mulheres ficariam, cuidando da caverna e da prole, enquanto os machos iam caçar mamutes.
Desnecessário dizer que, se nossos antepassados cavernosos realmente tivessem sido assim machistas, nem eu nem você estaríamos aqui hoje. Nossa espécie simplesmente não teria sobrevivido.

Há um novo grupo global dedicado a retardar mudanças sociais significativas. Eles se escondem por trás da máscara de um avatar online e usam a tecnologia para assediar, ameaçar e silenciar seus alvos. Sua causa? Impedir a tomada de medidas rumo à igualdade entre homens e mulheres. São os "ativistas pelos direitos dos homens".
Cartum mascu: fêmeas não fazem
ideia de quanto sua vida é fácil
O movimento pelos direitos dos homens começa e termina no argumento de que não há desequilíbrio preexistente entre os direitos de homens e mulheres ou de que, se há alguma injustiça, trata-se de um desequilíbrio que prejudica os homens. Isso é travestido como uma série de preocupações, algumas das quais podem parecer muito sensatas, mas que, cumulativamente, acabam por compor um ativismo que é hostil às mulheres, Questões como os direitos dos pais em processos de justiça da família são usadas para promover a nostalgia por um tempo em que os homens tinham as coisas com mais facilidade: eles podiam ter acesso certo a trabalho, poder e status; um tempo anterior ao feminismo. 
A aura de vitimismo adotada por esses ativistas (chamados de MRAs) se estende a criticar o espaço dedicado a falar sobre a mutilação genital feminina em detrimento de uma discussão sobre a circuncisão masculina. Frequentemente, eles negam a existência do que muitas feministas chamam de cultura do estupro, sugerindo que as falhas nos processos relacionados à violência sexual são resultado de uma predominância de falsas acusações de estupro, e não das perspectivas que a sociedade adota com relação ao consentimento.
Quando o fundador do site de ativismo pelos direitos dos homens "A Voice For Men" Paul Elam escreveu um texto intitulado "Vítimas de Billl Cosby? Ou só um monte de vadias drogadas que transam com celebridades?", ele expressou a clara hostilidade contra as mulheres que caracteriza o movimento. Mais de 50 mulheres acusaram Bill Cosby de violência sexual. Ainda assim, Elam opta por defender Cosby. 
Quando Reggie Yates investigou esses homens que acham que o feminismo foi "longe demais" para um documentário da BBC, ele encontrou pessoas que defendiam a legalização do estupro em propriedades privadas, homofóbicos e racistas que defendiam os direitos dos homens, bem como um tsunami de ameaças de morte e estupro voltadas a feministas proeminentes. 
O consenso quase universal quanto aos maus tratos e a desigualdade que as mulheres sofrem vem de dados estatísticos que esses ativistas escolhem ignorar:
· Meninas e mulheres representam cerca de 70% das vítimas do tráfico de pessoas. 
· A ONU estima que 35% das mulheres do mundo inteiro foram vítimas de violência. 
· Menos de uma a cada 30 vítimas de estupro no Reino Unido vê seu agressor ser condenado. 
· Mulheres que trabalham em tempo integral ainda ganham cerca de apenas 77% do que suas contrapartes do sexo masculino. 
Nada disso parece importar aos MRAs, que estão mais preocupados com o que enxergam como o declínio dos homens em uma sociedade que está tentando, lentamente, promover a igualdade das mulheres. Em qualquer análise justa da desigualdade de gênero, os MRAs é que estão se prendendo a um vitimismo que não pode ser justificado. O longo canto da morte de um movimento nostálgico por um passado injusto resultou no abuso odioso de mulheres online e no mundo real. 
Exigimos ser levados a sério
Os negadores do argumento central do feminismo -- de que as mulheres recebem tratamento desigual -- vivem num mundo de negação. Os homens foram capazes de exercer sua dominação física sobre as mulheres, uma capacidade de matá-las e reprimi-las. E isso levou a séculos de desigualdade e opressão. Mas, lentamente, o arco está se inclinando na direção da justiça. Apenas um homem das cavernas, intimidado pelo conceito de igualdade, veria isso como algo ruim.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SÓ ENTRE NÓS

​- Você já soube da novidade?
- Não. Qual é?
- As apostas para o bolão da Lola foram abertas.

Gente, aceito guest post de quem viu Carol e amou. Porque eu vi e não entendi o estardalhaço todo. É um filme muito bom, mas... pra mim não marcou.
Bem, este post é só um lembrete para você participar do meu tradicional bolão do Oscar, que vai só até 26 de fevereiro. Pra participar do bolão grátis, é só fazer suas apostas aqui.
Pra entrar no bolão pago, também não é difícil. Deposite R$ 20 na minha conta no Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760ou pague R$ 22,20 no PayPal. Daí é só mandar um email pra mim (lolaescreva@gmail.com) e pro Júlio César (jcaoalves@gmail.com), com cópia do comprovante, e fazer as apostas nesta tabela
E nada impede que você participe das duas tabelas, claro!
Até agora, dos filmes que vi (e foram poucos), o que mais gostei desta safra do Oscar 2016 foi O Quarto de Jack. E você?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

GUEST POST: A HISTÓRIA DO MEU "CONSENTIMENTO"

A R. me enviou este relato ontem, mostrando como é tênue o "consentimento" de muitas adolescentes que namoram homens muito mais velhos, e como boa parte da sociedade aceita esses relacionamentos numa boa.

Durante a minha pré adolescência tive que lidar com muitos problemas familiares e psicológicos.  A minha depressão crônica (que hoje trato) teve início aos 11 anos; fiquei meus 11 e 12 anos praticamente sem levantar da cama, meus pais também sofriam do mesmo problema. Meu pai descontava no álcool, se transformava, ficava agressivo, agredia a minha mãe, desenvolvia  pensamentos paranoicos e me acusava de estar dando cobertura para minha mãe se encontrar com um amante imaginário. Minhas relações com a minha família eram praticamente inexistentes nessa época. Morava num sitio afastado, sem amigos por perto. Me sentia extremamente sozinha.
Meu único contato com pessoas se dava na escola, e praticamente não tinha amigos por causa da depressão. Havia um professor de quem eu gostava muito. Alguém que eu idealizava porque era culto, viajado, divertido, apresentava uma realidade diferente da minha. Esse mesmo professor sempre perguntava como eu estava e demonstrava se preocupar comigo. Eu era extremamente carente e logo me apaixonei por ele. 
Quando completei 14 anos e ele já não dava mais aula para minha turma, passou a conversar muito mais comigo. Até que ele disse que notou que eu era apaixonada por ele e que também estava apaixonado por mim. Mas disse que eu era muito nova e que não ia poder ficar comigo. Eu queria muito estar com ele, tinha depositado a salvação para toda ausência que marcava a minha vida numa única pessoa. Na minha mentalidade de 14 anos ele era minha alma gêmea, a pessoa que ia me salvar de toda a minha solidão como nos contos de fadas. Insisti que valia a pena a gente passar por cima de tudo pra ficar junto. E ele um dia marcou um encontro comigo.
No dia do encontro eu percebi que nunca tinha me imaginado ficando com ele, na verdade eu só queria muito ter alguém que me amasse e cuidasse de mim, só pensava nisso e esqueci o que namorar significava. Nunca tinha ficado com ninguém, minha única experiência amorosa foi com um namorado da minha idade que tive três anos antes e que eu tinha terminado indignada quando ele tentou me beijar. 
Meu ex-professor tinha 40 anos, era casado e tinha dois filhos. Pensei com muito nervosismo que eu poderia beijar ele, porque afinal eu o amava muito. Mas estava insegura porque não sabia nem fazer isso.
Chegando no lugar que ele marcou ele me beijou e já foi tirando o pau pra fora. Permiti, porque o amava e não seria capaz de impedi-lo de nada. E porque ele era um adulto e eu não era capaz de confrontá-lo. Se fosse um menino da minha idade, eu teria gritado e saído correndo. Mas ele não, ele era melhor que eu. 
Durante todos os nossos encontros deixei que ele transasse comigo, porque queria que ele me amasse. Mas nunca senti nenhum prazer, achava sexo algo muito estranho e desconfortável. Um desses sacrifícios que se faz por amor. Saí com ele escondido durante meses, ele dizia que estava esperando um momento propício para me assumir, queria que eu completasse pelo menos 15 anos.
Durante esse período eu menti muito para a minha família, tinha que inventar desculpas para encontrá-lo e isso era algo que me destruía. Nunca fui de mentir. Mas um homem de 40 anos achava muito normal fazer uma menina de 14 anos mentir para os pais e chorar todos os dias de remorso. Sexo sem camisinha, porque ele dizia que se acontecesse algo e eu engravidasse, ele pagaria o meu aborto.
Para ele era mais fácil que eu passasse pelo trauma de uma clínica clandestina e um aborto no início da adolescência do que ele transar com uma camisinha que poderia alterar um milímetro da sensibilidade dele durante o sexo depois fiquei sabendo que as duas ex-mulheres dele fizeram abortos).
Um dia não aguentei a pressão. Mais ou menos seis meses da gente se encontrando escondido e um mês depois do meu aniversario de 15 anos (no qual ele compareceu como amigo da família), desabei de chorar e contei tudo pra minha mãe.
Minha mãe foi conversar com ele e ele negou tudo. Depois, vendo que não tinha saída, que eu já tinha aberto o jogo, ele resolveu me assumir como namorada. Meu pai que era alcoólatra e tinha problemas psiquiátricos aceitou, minha mãe ficou contrariada mas sem forças pra lidar com a situação sozinha, e também não fez nada.
Assumiu aos 41 anos, já divorciado novamente, uma menina de 15 anos, ainda com histórico de problemas psiquiátricos e de fragilidade familiar, e muita gente achou normal. A escola que ele trabalhava não o despediu, os amigos e familiares não criticaram. 
Fiquei com ele anos numa relação doente e injusta pautada na minha fragilidade. Em achar que sexo era algo que se faz pra outra pessoa por amor e que a minha vontade não importava. De aceitar alguém que nunca participou da minha vida em nada, que fazia comentários nojentos sobre as minhas amigas e me acusava por cada homem pra que eu desse bom dia.
Ele foi o meu vínculo familiar suprido de forma torta e dolorosa. Inúmeras vezes eu fantasiava que ele era meu pai ou irmão e eu o teria por perto me dando atenção sem precisar transar em troca. Invejava todas as meninas que tinham atenção de adultos da família, porque elas não precisavam se prostituir por isso.  
Depois demorei muito pra conseguir romper definitivamente com ele por causa da dependência psicológica, era como se ele fosse tudo pra mim. Quando consegui ainda demorei pra ir assimilando essa merda toda, lembrando de coisas que bloqueei pra protegê-lo, de como eu me sentia durante o sexo, do quanto tudo aquilo foi agressivo e de como ele se aproveitou da minha fragilidade e da minha falta de estrutura familiar para realizar o fetiche de namorar uma adolescente manipulável.
Hoje sinto nojo extremo dele e muita mágoa de todos que achavam bonito quando ele estava comigo. Eu era uma adolescente com fobia social que mal conseguia conversar com as pessoas. Era tão óbvio o quanto aquela era uma relação injusta e escrota! 
Ele até hoje dá aula nas mesmas escolas e é um cara que muita gente adora, acham super gente boa. Agora tem 53 anos, namora uma menina de 19 anos (outra ex-aluna), e todo mundo acha lindo de novo.