quarta-feira, 27 de agosto de 2014

POBRE DE QUEM GANHA 20 MIL POR MÊS

Ontem um dos comentaristas menos inteligentes (pra ser gentil) deste blog deixou as seguintes mensagens:
"Radicalmente falando o Brasil é uma favela. Ninguém é rico no Brasil com exceção dos milionários. Não considero rico um juiz federal que ganha 20 mil por mês. 20 mil por mês é o preço da ração de um cachorro de um milionário. [...] Não dá nem pra comprar um carro popular no final do mês com este salário. Até o conceito de riqueza pro brasileiro é um conceito pobre".
Tudo bem, o comentarista em questão é o Danilo, um mascu e reaça (redundância) que, por definição, tem que falar muita besteira. Mas essa foi nova pra mim: rico é quem pode comprar um carro novo todo mês? Pra quê alguém vai querer um carro novo todo mês? E o meio ambiente, faz o quê com um cara que compra um carro novo todo mês?
Algumas pessoas falam como se o Brasil fosse um país miserável. Já foi, não é mais. Desculpem decepcioná-los. O Brasil mudou, e muita gente não acompanhou essas mudanças. O pessoal (mesmo os jovens) ainda acredita na lenda de que cada casal brasileiro tem em média seis filhos. Não é mais assim, e faz tempo -- desde que o país migrou do campo pra cidade. Uma década atrás, a média de filhos era de 2,36. Hoje, é de 1,9. Em 2020, calcula-se que cairá para 1,5. Isso não é necessariamente bom, porque um crescimento negativo vai se refletir num país com gente mais velha. E logo logo não ocuparemos mais a posição de quinto maior país do mundo em população.
Mas, sério: convém afinar o discurso com a realidade. O Brasil não é mais o que brasileiros preconceituosos pensam que é. Sabe, eu tenho alunos da África. Eles acham que o Brasil é um país rico. E eu moro no Nordeste -- que ainda é a região mais pobre do Brasil, mas uma sombra da miséria que já foi. Porém, algumas pessoas mal-informadas do Sul e Sudeste não compreendem essas mudanças. Uma aluna me contou que uma amiga veio visitá-la de SP. No Nordeste pela primeira vez, essa amiga surpreendeu-se: "Nossa, Fortaleza tem prédios!" (e depois a gente ri dos americanos que pensam que nos locomovemos através de cipós). 
Sobral by night
Uma amiga minha, uma senhora idosa, rica (não pros padrões do Danilo), que mora em SP e viaja pro exterior quase todo ano, não conhece o Nordeste. Ela nunca teve interesse de vir pra cá. Não que esse detalhe a impeça de tecer várias certezas sobre a região. Por exemplo, ela crê firmemente que em Sobral, quinta maior cidade cearense, com 200 mil habitantes, lava-se roupa no rio. Isso porque uma amiga paulista contou pra ela. 
Voltando ao comentário infeliz: é óbvio ululante que quem ganha R$ 20 mil no Brasil é rico. É a elite ínfima. Não sei se você acompanhou o escândalo do Santander enviar análise pros clientes fazendo terrorismo econômico caso a Dilma ganhe. O banco só enviou a tal análise pra clientes "select", os tops dos tops, la crème de la crème -- clientes que têm salário acima de 10 mil reais (não 20 mil, ok? Metade disso). Sabe quantos clientes se encaixam nesse perfil? 0,18%. De um banco particular!
Nos vários protestos "Occupy" (principalmente Occupy Wall Street, em 2011), o slogan que mais pegou foi o "We are the 99%". Nós somos os 99%. E, portanto, como a maioria absoluta, não dá pra aceitar que o 1% mande em tudo e governe só pra meia dúzia, ou que os 99% tenham que pagar pela irresponsabilidade do 1%. Só que 99% é um número altamente otimista. Nós não somos os 99%. Nós somos os 99,99%.
Tem um site muito bacana que calcula quão rico você é. É bacana porque nos põe no nosso lugar. Faz a gente se dar conta do nosso privilégio. Você vai, escolhe a moeda do país (o real aparece lá embaixo), e coloca quanto você ganha por ano. É, o pessoal de fora não se interessa muito por salário mensal ou por hora. Pra eles, o importante é a renda anual. Mas é fácil: é só multiplicar o valor mensal por treze (afinal, quem tem registro em carteira recebe 13o salário), mais um pouco das férias. Enfim, eu peguei os R$ 20 mil por mês, aquela migalhas que cobrem a ração de cachorro de milionário, e deu R$ 265 mil por ano. Que, pro meu leitor, não é rico porque com essa quantia irrisória, não pode comprar um carro novo todo mês. Aí o Globalrichlist calculou e deu esse resultado aqui:

E o site não está dizendo que quem ganha esse salário está entre os 0,06% mais ricos do Brasil. É do mundo mesmo.
No nosso mundo tão desigual, tão injusto, tão sem meritocracia -- ou você acha defensável que as 85 pessoas mais ricas do planeta (a maior parte homens e brancos) tenham o mesmo patrimônio de metade da população mundial? (inclusive, só pra você saber, os bilionários dobraram a riqueza deles de 2009 pra cá). Segundo o Globalrichlist, quem ganha 13 mil reais por ano (tipo, mil reais por mês) já está entre os 20% mais ricos do planeta. R$ 5 mil por ano, entre os 33% mais ricos. 2 mil por ano já te coloca mais ou menos no meio. 
Quem ganha cem mil reais por ano está entre os 0,24%. 200 mil por ano, entre os 0,08%. 
Tá difícil chegar ao 1%. Quem ganha um milhão de reais (não dólares) por ano está entre os 0,02% mais ricos do mundo. Quem ganha 2 milhões, está entre os 0,009% mais ricos. Por isso que a figura "We are the 99,99%" está bem mais próxima da realidade.
Não quer dizer que quem ganha R$ 13 mil por ano seja rico, só por estar no topo dos 20% do mundo. Mas quer dizer que sim, tudo é relativo, e que devemos ter noção de como somos privilegiados
Por exemplo, tem um mascu que se diz pobre (é até o nome do blog misógino dele), mas recebe mais de 5 mil reais por mês. Ele ganha mais que 99,3% do mundo. Porém, para ele e boa parte de seus leitores, ele está na miséria absoluta (principalmente sexual, mas isso é outra história).
Eu fui classe média minha vida toda, com exceção de alguns poucos meses de aperto na minha infância, quando ficamos sem ter onde morar. Esse tempinho serviu pra que eu repensasse meu relacionamento com dinheiro (virei pão-dura, ou, pra ser gentil, "economicamente responsável"). Mas hoje vejo que durante muitos anos o que meu pai ganhava nos colocava na classe média alta mesmo (ninguém se diz rico no Brasil, já notou? Higienópolis e Leblon são bairros de "classe média alta"). 
Hoje, com meu salário de professora universitária de federal, eu nem me considero mais classe média. Estatisticamente, estou na classe A. Quando morava em Joinville, era classe B. Eu não me considero rica (talvez, se eu ganhasse R$ 20 mil, o dobro do que ganho, eu me considerasse rica), mas sei muito bem que estou no topo da pirâmide. E tenho tudo que quero, e tudo que preciso.
Ontem um aluno adolescente disse pro meu marido, que é professor em escola particular e, portanto, ganha muito mal: "Eu vou arranjar um emprego que pague 8 mil, até que eu entre na faculdade e consiga um salário decente".
O mundo é bem maior que o nosso condomínio fechado. 

terça-feira, 26 de agosto de 2014

GUEST POST: PRA VOCÊS LEREM ANTES DE ACORDAR

Ano passado publiquei um guest post lindo de uma adolescente, Maria Clara, que relatava seus muitos problemas mas também mostrava sua força imensa. Por isso, fiquei radiante ao receber ontem este email dela:

"Não sei se você se lembra de mim, mas um tempo atrás você publicou um relato meu no blog, sobre a minha infância e meu relacionamento com o meu pai. Desde lá bastante coisa aconteceu, mas eu nunca deixei de acompanhar o blog. Eu tava pensando em como minha vida tinha mudado (pra melhor) desde o ano passado e, como você é uma eterna otimista, pensei em dar um oi e contar as novidades. 
Então, passei na UFMG. Estou firme e forte aqui no direito, amando, e participando de várias coisas. Sou parte do Grupo de Estudos sobre Sexismo e Homofobia e o Silêncio do Direito, coordenado pelo Prof. Dr. Marcelo Maciel Ramos, e estou prestes a apresentar meu primeiro artigo no 1° Congresso de Diversidade Sexual e de Gênero organizado pela faculdade de Direito da UFMG. E Dr. José Luiz Borges Horta, um professor querido que me deu aula no primeiro período, acabou de me oferecer uma bolsa de pesquisa com ele como meu orientador.
Academicamente, me encontrei. Me reconectei com a família do meu pai, principalmente minha avó e meu tio, que perceberam que tinham ficado do lado errado da briga toda, mas ainda não tenho contato com meu pai. Graças a Cheesus isso não faz diferença nenhuma na minha vida hoje em dia. Ah, e me juntei a vários coletivos feministas. Tô super feliz. 
A única coisa que me incomoda um pouco é ter saído do interior pra encontrar a mesma atitude racista/machista/ignorante na capital. 
Infelizmente a federal ainda é uma clausura da classe média, mesmo com as cotas, mas os grupos de esquerda formados por alunos ainda me dão esperança. Faço questão de participar de todos os debates a favor das minorias na faculdade e de arranjar muita treta com reaça. Professores e alunos." 

Maria Clara, que escreve tão bem, também enviou um texto aprofundando a questão sobre como pensam muitos de seus colegas:

Quando se fala em feminismo, muita gente jovem questiona o real impacto da tão falada opressão sobre a mulher pela sociedade. Afinal, mulher também faz faculdade. Forma-se médica. Tem seu próprio dinheiro, pode fazer tudo que um homem faz. Pega quem quiser. Como diz muita gente, não vivemos mais na década de 50. Pra esse pessoal, o feminismo não é necessário porque a mulher e o homem já são iguais perante a sociedade. 
Muita feminista tarimbada ignora completamente esse questionamento e já o classifica como ignorante ou absurdo, porque é o tipo de pensamento que vem de um lugar de muito privilégio. Mas eu acredito que seja necessária uma análise um pouco maior do tipo de pessoa que dissemina esse discurso, pra que possamos ver de onde essa hostilidade ao feminismo surge.
Geralmente são pessoas brancas que pensam assim. Brancas e de classe média, que frequentaram escolas particulares com mais ou menos o mesmo número de homens e mulheres nas salas, onde as meninas se dedicavam mais aos estudos enquanto os meninos preferiam sentar no famoso "fundão" pra conversar sobre futebol ou algum outro assunto "de homem". Não havia muitos negros na sala, e os que havia normalmente eram bolsistas. Mas ninguém tinha preconceito, e até gostavam desse negro, pois ele também ria de piada racista, e sabia que ali ninguém pensava aquilo de verdade.
A mãe desse pessoal geralmente trabalha em um cargo bom e reclama do valor alto do salário da empregada doméstica que cuida da casa (geralmente negra, sempre pobre, "praticamente da família"), enquanto o pai trabalha duro e chega em casa toda noite esperando o jantar. Na mesa todos conversam sobre a novela e como o país está indo pro beleléu com esse bando de vagabundo na rua que a polícia tinha que matar, e pior ainda: com alguns desses vagabundos nas universidades graças às cotas, que são racistas. E aos políticos, que são corruptos. O pai desse pessoal geralmente sonega impostos. 
No final de semana esses jovens se encontram nas mesmas baladas, todos com mais ou menos o mesmo visual, e os caras tentam pegar o maior número de meninas possível enquanto as meninas tentam arranjar um cara legal pra namorar. Algumas não estão a fim de namorar, querem curtir mesmo, e assumem um papel mais parecido com o dos rapazes. Eles aceitam e até curtem, porque o que querem mesmo é pegar mina na balada, mas no outro dia quando se juntam com os amigos, comentam que esse tipo de mulher não dá pra namorar, só pra comer, porque é rodada. As amigas dessa menina também falam pelas costas que ela devia parar com esse comportamento, porque a reputação dela já está manchando a do grupo inteiro.
A maioria desse pessoal vai para a universidade após a conclusão do ensino médio. Tanto homens quanto mulheres. Os mais inteligentes para as federais, os outros para as particulares. Ninguém precisa de PROUNI, já que os pais são capazes de pagar R$ 2 mil de mensalidade sem que isso afete o orçamento familiar, e eles odeiam as cotas porque não é justo um negro da favela roubar a vaga dele só porque ele nasceu com um tom de pele mais escuro. Esses jovens acreditam na meritocracia.
Ao chegar nas universidades, esse pessoal vai perceber alguns padrões. Os cursos de exatas são dominados por homens. As mulheres geralmente escolhem as humanas ou biológicas. Letras e pedagogia são cursos de mulher, mas ironicamente a maioria dos professores da faculdade são homens. Mas isso não é machismo, é tudo predisposição natural. Mulher não gosta de matemática. 
Esse pessoal vê os coletivos feministas e os debates sobre racismo e vira os olhos. Pra eles faculdade tem que ser lugar de aprendizado, não de politicagem. Aliás, eles detestam politica igual ao pai, mas votam no partido que o pai recomenda, porque o PT está acabando com esse país. Repetem o papo de que a inflação está matando nossa economia, mesmo não tendo ideia do que é viver a inflação na casa dos dois dígitos. E acham que o Bolsa Família é roubo e programa eleitoreiro que tem que acabar, mas quando alguém da esquerda elogia o programa insiste que quem o criou foi o PSDB. Dizem que a Dilma é mal-comida, e que não importa se é nossa presidente, ou se pegou em armas contra a ditadura, ela é feia pra cacete, então não merece respeito.
Esse pessoal, por incrível que pareça, não percebe que o sexismo, o racismo e o elitismo são partes inerentes de sua vida. Que estruturalmente eles são beneficiados por esses sistemas de opressão constantemente. Mas nunca bateram em um negro na rua, ou botaram fogo em mendigo, então se colocam em um pedestal moral de onde se permitem criticar quem quer que lute contra sua visão ingênua do que é o mundo real, e que os incomode ao jogar na sua cara a realidade vivida por quem não nasceu em uma posição tão privilegiada. 
Pra vocês meus amigos, minhas amigas, com quem eu frequentei ensino médio e com quem eu atualmente frequento a universidade, tudo que eu tenho a dizer é: acordem.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

CRÍTICA: NOÉ / Ninguém afunda essa arca

Noé, aos 550 anos de idade

Eu vi Noé ontem. O mais incrível é que seja do Darren Aronofsky, um diretor de filmes bem alternativos e sombrios (e excepcionais) como Réquiem para um Sonho (também com Jennifer Connelly), O Lutador e Cisne Negro. A última pessoa que eu pensaria pra fazer uma superprodução bíblica seria ele. Mas assim, o filme não é ruim. Ele prende a atenção. Até porque a lenda da arca de Noé em si é instigante. 
Russell Crowe parece bem mais jovem que os 600 anos que Noé tinha na bíblia quando veio o dilúvio. E Jennifer não envelhece nunca (ela e Russell já fizeram um casal antes). Outro dia passou um filme na Sessão da Tarde que eu tive que ver (quatro horas numa clínica esperando pra fazer um exame), e lá estava a Jennifer jovem, quase igual a hoje. 
Noé não era exatamente um adolescente quando seu pai foi assassinado. Ele já tinha 595 anos. Pra alguém que viveu quase mil, digamos que ele estava na meia idade, tipo eu. Todas as personagens femininas do filme mal aparecem na bíblia. A esposa de Noé não tem nem nome. Ila (Emma Watson), então, esposa de Sem, pode esquecer. A história de Noé é contada sem detalhes no livro sagrado. Compreensível que um filme épico baseado nessa trama tenha que inventar algumas coisas (ahn, quase tudo). 
Se eu fosse cristã (sou ateia, obrigada), acharia Noé o máximo. Taí um filme de Hollywood que fala do criador, de pecado, livre escolha, julgamento final. 
Na guerra entre evolucionistas e criacionistas que tem nos EUA, Noé evidentemente serve como propaganda religiosa. Não vi blasfêmia nenhuma. 
Mas, como sempre, teve cristão que não aprovou. Um criacionista indignado disse que se trata de um "filme não bíblico e pagão desde o começo". Outro fez um documentário de meia hora (eu vi!) sobre como a história de Noé é similar à do fim dos tempos (que, como todos sabemos, está próximo). Ah, vai, se você pode ver uma superprodução de mais de duas horas, você pode ver um documentário de meia horinha tentando te convencer a não ver a superprodução. 
No doc, as entrevistas com pessoas na rua são muito interessantes. O fanático pergunta a um barbudão onde ele, o barbudão, irá depois de morrer, e ele responde: "O mais longe possível do seu deus". De resto, é aquele blablablá de "o fim está próximo", e de como o dilúvio e a arca de Noé aconteceram literalmente. 
Sabe, como encaixar 6.5 milhões de espécies dentro de um barquinho? (mais ou menos como o desafio do Fusca). Bom, primeiro que não era um barquinho, era um barcão (maior que um campo de futebol).
Segundo que só foi necessário um casal de cada tipo, juram os criacionistas. Ou seja, Noé não teve que hospedar pares de dálmatas, pinschers, pastores alemães e outras 350 raças caninas. Só um cachorrinho e cadelinha genérico já dava conta de tudo. Portanto, a arca não precisou abrigar milhões de espécies, apenas centenas de milhares de animais. Aí você pode perguntar: como alojar centenas de milhares de animais num campo de futebol, sem que eles devorem uns aos outros? Isso a galera religiosa não responde.
Ah, antes de continuar: o melhor quadrinho sobre a evolução, o criacionismo, e a tentativa frustrada dos cristãos provarem que humanos e dinossauros conviveram numa boa é este, ao lado. Dois dinos observam a arca de Noé e um pergunta pro outro: "Putz, que droga? Era hoje?". E foi assim que os dinossauros foram varridos da face de Terra. 
Outra coisa que a direita cristã não gostou de Noé é que ele tem uma agenda ambientalista. O patriarca e sua família são pintados como vegetarianos (ou veganos; não os vemos nem tomando leite). 
Apenas os vilões da história -- todos os seres humanos que não fazem parte da família de Noé -- matam animais e comem carne. 
E o consumo de carne está ligado à masculinidade. O principal malvadão da trama (interpretado por Ray Winstone, de Beowulf), descendente direto de Caim, afirma a Cam, filho de Noé, "Agora você é um homem", depois do rapaz engolir um pedaço de carne (lá se foi uma das espécies animais a povoar a Terra). Pelo jeito, é só depois do dilúvio que o ser humano se torna especista.
Ham, ou Cam, em português, foi um dos filhos de Noé, que o patriarca teve quando ainda era jovem (só 500 anos). Cam fez algo feio e não muito bem explicado no livro de Gênesis: ele viu seu velho pai nu, quando Noé estava caindo de bêbado, e ou não desviou o olhar ou o castrou ou fez sexo com a mãe ou até chegou a estuprar Noé, dependendo da interpretação. 
Fato é que Noé não gostou e amaldiçoou Cam. Ou melhor, amaldiçoou Canãa, um dos filhos de Cam -- disse que ele e todos seus descendentes seriam serventes, ou "escravos dos escravos" de Sem e Jafé, primogênito e caçula de Noé. E ninguém entende por que Noé amaldiçoa Canãa, e não Cam (mas, sei lá, Noé tava bêbado). 
Parece uma maldiçãozinha à toa, mas não é. Esse maldizer mal-explicado serviu de base religiosa para que os cristãos brancos dos EUA justificassem a escravidão dos negros durante séculos. Mas o que Cam tem a ver com os negros? É que os filhos de Cam, em especial Canãa, são vistos como quem populou toda a África. Logo, estaria na bíblia que os negros seriam escravos para todo o sempre. 
Quem prestou atenção nos protestos contra Marco Feliciano no ano passado viu que ele estava sendo acusado de racista (e homofóbico, e machista), por uma das interpretações arcaicas que faz da bíblia. Justamente essa sobre a maldição de Noé a Cam.

Eu li e estudei superficialmente a bíblia no colégio católico, mas nunca tinha ouvido falar nessa maldição. 
Só fiquei sabendo dela em anos recentes, ao lecionar sobre obras de escritoras negras dos EUA e constatar que praticamente todas mencionam "The curse of Ham". Aí tive que ir atrás, e é uma história fascinante, não só pra servir de desculpa dos brancos pra escravizar os negros, mas também pra afetar a autoestima dos negros. 
Porque olha só que instrumento de dominação legal: grande parte dos afro-americanos é cristã. Na religião que eles seguem, deus é um velhinho branco barbudo, e Jesus é loiro de olhos azuis. Nada mal ensinar isso pra crianças negras desde a mais tenra infância. Alice Walker, Maya Angelou, Toni Morrison -- todas elas criticam essa narrativa racista da religião. Pra falar a verdade, só assisti Noé pra ver como o filme trataria a narrativa espinhosa da maldição de Cam.
E o jeito do filme tratar isso é... excluindo essa parte. [Spoiler] Em Noé, o patriarca não amaldiçoa Cam. Cam simplesmente vai embora, não se sabe pra onde, e nem como ele vai fazer para se alimentar ou se reproduzir por lá. Ok, seria bizarro um Noé bêbado amaldiçoar Canãa, que nem existe no filme. Cam não tem nem mulher, muito menos um pimpolho. Ainda assim, Cam é pintado na superprodução como o pior dos filhos: traiçoeiro, desobediente, teimoso.
Algumas pessoas criticam Noé por ele parecer ter sido feito no tempo dos Dez Mandamentos (o filme com Charlton Heston, de 1956), quando só haviam pessoas brancas nos épicos bíblicos de Hollywood. Acontece que hoje existe toda uma preocupação com representatividade, e sugerir que só gente branca foi salva é bem chato. 
Noé tem uma sequência de três minutos contando a criação do universo em sete dias que vai se tornar um arrasa-quarteirão entre adeptos do homeschooling (e a maior parte das crianças americanas que são lecionadas em casa não frequentam à escola por questões religiosas -- imagina que horror ir pra essas escolinhas laicas que ensinam a evolução?!). Só essa sequência já vale o filme. 
Pra terminar, minha crítica mais séria: Noé é muito vago no que se refere aos animais que entram na arca (como assim, não tem um casal de girafas nem de elefantes? Vocês estão destruindo a minha infância!), mas o patriarca insiste que todas as coisas que rastejam sobre a Terra devem ser salvas. Tá de brinks, hein, deus? Acabar com a humanidade tudo bem, mas exterminar as baratas, nem pensar?!