quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SOBRE O SENTIMENTO DE MERECIMENTO DOS HOMENS

Recentemente publiquei um texto sobre a minha descoberta de que 1984, um clássico da distopia escrito por George Orwell, é bem machista. Teve comentários excelentes no texto. 
Mas vi uma única parte do livro em que o protagonista Winston questiona o seu "entitlement" -- seu sentimento de que ele merecia muitas coisas boas na vida simplesmente por ter nascido homem. É esta, quando ele se lembra da sua infância, em que ele, sua mãe e irmã pequena passavam fome (a tradução é minha, porque só tenho o livro em inglês):

"Ele perguntava pra sua mãe, insistentemente, por que não havia mais comida; ele gritava com ela, ou ele tentava acrescentar um pouco de doença em seus esforços para ganhar mais que a sua parte. Sua mãe estava pronta para dar-lhe mais que a sua parte. Para ela era natural que ele, 'o menino', deveria ganhar a maior porção, mas independente de quanto a mais ela lhe dava, ele invariavelmente exigia mais. Em toda refeição ela lhe dizia para não ser egoísta e para lembrar que sua irmãzinha estava doente e também precisava comer, mas não adiantava. Ele chorava de ódio quando ela parava de servir, ele tentava tirar a panela e colher de suas mãos, ele pegava pedaços do prato de sua irmã. Ele sabia que estava deixando as duas famintas, mas ele não podia evitar; ele até achava que tinha um direito para fazê-lo".

Achei uma descrição incrível desse sentimento que tantos homens aprendem desde bebês. E me lembrou muito o que uma professora da PUC-Goiás contou numa mesa-redonda de que participei. 
Ela conheceu uma mulher humilde no campo que estava começando a descobrir que tinha direitos. 
Essa mulher reparou, por si mesma, que sempre que matava uma galinha, dava automaticamente as melhores partes para o marido e os filhos homens, sem nem pensar. Ela e as filhas ficavam com os restos, o pescoço, os pés, o que sobrava.
Vc tem o q chamamos de um senso
irracional de merecimento. Não vai
te matar, mas vai fazer que vc creia
que merece coisas por não fazer nada
E ninguém falava nada, pois era visto como totalmente natural. Mas lógico que não é natural. Desde muito cedo o mundo nos ensina que a vida de um homem vale mais. Os homens aprendem isso. Winston aprendeu bem.
Parte do ódio que alguns homens têm das mulheres acontece quando essa sensação de entitlement não se concretiza. Apesar de todos os privilégios, nem sempre um cara vai conseguir conquistar tudo que ele acha que merece por direito divino.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

JUDITH BUTLER: "NÃO É UMA IDEOLOGIA"

Dia tranquilo em Tucanistão

Reproduzo aqui no blog o excelente artigo que Judith Butler escreveu para a Folha de S. Paulo, com tradução de Clara Allain. 
(E olha que maravilha: a filósofa disponibilizou todos os seus livros para baixar. Aqui).

Desde o começo, a oposição à minha presença no Brasil esteve envolta em uma fantasia. Um abaixo-assinado pedia ao Sesc Pompeia que cancelasse uma palestra que eu nunca iria ministrar. A palestra imaginária, ao que parece, seria sobre "gênero", embora o seminário planejado fosse dedicado ao tema "Os fins da democracia" ("The ends of democracy").
Ou seja, havia desde o início uma palestra imaginada ao invés de um seminário real, e a ideia de que eu faria uma apresentação, embora eu estivesse na realidade organizando um evento internacional sobre populismo, autoritarismo e a atual preocupação de que a democracia esteja sob ataque.
Não sei ao certo que poder foi conferido à palestra sobre gênero que se imaginou que eu daria. Deve ter sido uma palestra muito poderosa, já que, aparentemente, ela ameaçou a família, a moral e até mesmo a nação.
Para aqueles que se opuseram à minha presença no Brasil, "Judith Butler" significava apenas a proponente de uma ideologia de gênero, a suposta fundadora desse ponto de vista absurdo e nefasto, alguém — aparentemente — que não acredita em restrições sexuais, cuja teoria destrói ensinamentos bíblicos e contesta fatos científicos.
Como tudo isso aconteceu e o que isso significa?
A TEORIA
Consideremos o que eu de fato escrevi e no que de fato acredito e comparemos isso com a ficção interessante e nociva que deixou tanta gente alarmada.
No final de 1989, quase 30 anos atrás, publiquei um livro intitulado "Gender Trouble" (lançado em português em 2003 como "Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade", Civilização Brasileira), no qual propus uma descrição do caráter performativo do gênero. O que isso significa?
A cada um de nós é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas maneiras.
Às vezes, com a atribuição do gênero, um conjunto de expectativas é transmitido: esta é uma menina, então ela vai, quando crescer, assumir o papel tradicional da mulher na família e no trabalho; este é um menino, então ele assumirá uma posição previsível na sociedade como homem.
No entanto, muitas pessoas sofrem dificuldades com sua atribuição —são pessoas que não querem atender aquelas expectativas, e a percepção que têm de si próprias difere da atribuição social que lhes foi dada.
A dúvida que surge com essa situação é a seguinte: em que medida jovens e adultos são livres para construir o significado de sua atribuição de gênero?
Eles nascem na sociedade, mas também são atores sociais e podem trabalhar dentro das normas sociais para moldar suas vidas de maneira que sejam mais vivíveis.
E instituições sociais, incluindo instituições religiosas, escolas e serviços sociais e psicológicos, também deveriam ter capacidade de apoiar essas pessoas em seu processo de descobrir como viver melhor com seu corpo, buscar realizar seus desejos e criar relações que lhes sejam proveitosas.
Algumas pessoas vivem em paz com o gênero que lhes foi atribuído, mas outras sofrem quando são obrigadas a se conformar com normas sociais que anulam o senso mais profundo de quem são e quem desejam ser. Para essas pessoas é uma necessidade urgente criar as condições para uma vida possível de viver.
LIBERDADE E NATUREZA
Assim, em primeiro lugar e acima de tudo, "Problemas de Gênero" buscou afirmar a complexidade de nossos desejos e identificações de gênero e se juntar àqueles integrantes do movimento LGBTQ moderno que acreditavam que uma das liberdades fundamentais que precisam ser respeitadas é a liberdade de expressão de gênero.
O livro negou a existência de uma diferença natural entre os sexos? De maneira nenhuma, embora destaque a existência de paradigmas científicos divergentes para determinar as diferenças entre os sexos e observe que alguns corpos possuem atributos mistos que dificultam sua classificação.
Também afirmei que a sexualidade humana assume formas diferentes e que não devemos presumir que o fato de sabermos o gênero de uma pessoa nos dá qualquer pista sobre sua orientação sexual. Um homem masculino pode ser heterossexual ou gay, e o mesmo raciocínio se aplica a uma mulher masculina.
Nossas ideias de masculino e feminino variam de acordo com a cultura, e esses termos não possuem significados fixos. Eles são dimensões culturais de nossas vidas que assumem formas diferentes e renovadas no decorrer da história e, como atores históricos, nós temos alguma liberdade para determinar esses significados.
Mas o objetivo dessa teoria era gerar mais liberdade e aceitação para a gama ampla de identificações de gênero e desejos que constitui nossa complexidade como seres humanos.
Esse trabalho, e muito do que desenvolvi depois, também foi dedicado à crítica e à condenação da violação e da violência corporais.
Além disso, a liberdade de buscar uma expressão de gênero ou de viver como lésbica, gay, bissexual, trans ou queer (essa lista não é exaustiva) só pode ser garantida em uma sociedade que se recusa a aceitar a violência contra mulheres e pessoas trans, que se recusa a aceitar a discriminação com base no gênero e que se recusa a transformar em doentes e aviltar as pessoas que abraçaram essas categorias no intuito de viverem uma vida mais vivível, com mais dignidade, alegria e liberdade.
Meu compromisso é me opor às ofensas que diminuam as chances de alguém viver com alegria e dignidade. Assim, sou inequivocamente contra o estupro, o assédio e a violência sexual e contra todas as formas de exploração de crianças.
Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre —ela se torna uma ação lesiva.
VIOLÊNCIA DE GÊNERO
De fato, algo que me preocupa é a frequência com que pessoas que não se enquadram nas normas de gênero e nas expectativas heterossexuais são assediadas, agredidas e assassinadas.
As estatísticas sobre feminicídio ilustram o ponto. Mulheres que não são suficientemente subservientes são obrigadas a pagar por isso com a vida.
Pessoas trans e travestis que desejam apenas a liberdade de movimentar-se no mundo público como são e desejam ser sofrem frequentemente ataques físicos são mortas.
Mães correm o risco de perder seus filhos se eles saírem do armário; muitas pessoas ainda perdem seus empregos e a relação com seus familiares quando saem do armário. O sofrimento social e psicológico decorrente do ostracismo e condenação social é enorme.
A injustiça radical do feminicídio deveria ser universalmente condenada, e as transformações sociais profundas que possam tornar esse crime impensável precisam ser fomentadas e levadas adiante por movimentos sociais e instituições que se recusam a permitir que pessoas sejam mortas devido a seu gênero e sua sexualidade.
No Brasil, uma mulher é assassinada a cada duas horas. A tortura e o assassinato recente de Dandara dos Santos, em Fortaleza, foi apenas um exemplo explícito da matança generalizada de pessoas trans no Brasil, uma matança que valeu ao Brasil a fama de ser o país mais conhecido pelo assassinato de pessoas LGBT.
São esses os males sociais inequívocos e atrocidades aos quais me oponho, e meu livro —bem como o movimento queer no qual ele se insere — procura promover um mundo sem sofrimento e violência desse tipo.
IDEOLOGIA
A teoria da performatividade de gênero busca entender a formação de gênero e subsidiar a ideia de que a expressão de gênero é um direito e uma liberdade fundamentais. Não é uma "ideologia".
Em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que "tomou conta" do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica.
Meu ponto de vista, entretanto, é crítico, pois questiona o tipo de premissa que as pessoas adotam como certas em seu cotidiano, e as premissas que os serviços médicos e sociais adotam em relação ao que deve ser visto como uma família ou considerado uma vida patológica ou anormal.
Quantos de nós ainda acreditamos que o sexo biológico determina os papéis sociais que devemos desempenhar? Quantos de nós ainda sustentamos que os significados de masculino e feminino são determinados pelas instituições da família heterossexual e da ideia de nação que impõe uma noção conjugal do casamento e da família?
Famílias queers e travestis adotam outras formas de convívio íntimo, afinidade e apoio. Mães solteiras têm laços de afinidade diferentes. A mesma coisa se dá com famílias mistas, nas quais as pessoas se casam novamente ou se juntam com famílias, criando amálgamas muito diferentes daqueles vistos em estruturas familiares tradicionais.
Encontramos apoio e afeto através de muitas formas sociais, incluindo a família, mas a família é também uma formação histórica: sua estrutura e seu significado mudam ao longo do tempo e do espaço. Se deixamos de afirmar isso, deixamos de afirmar a complexidade e a riqueza da existência humana.
IGREJA
A ideia de gênero como ideologia foi introduzida por Joseph Ratzinger em 1997, antes de ele se tornar o papa Bento 16. O trabalho acadêmico de Richard Miskolci e Maximiliano Campana acompanha a recepção desse conceito em diversos documentos do Vaticano (MISKOLCI, Richard; CAMPANA, Maximiliano. "Direito às diferenças: notas sobre formação jurídica e as demandas de reconhecimento na sociedade brasileira contemporânea". "Hendu "" Revista Latino-Americana de Direitos Humanos", abril de 2017).
Em 2010, o argentino Jorge Scala lançou um livro intitulado "La Ideologia de Género", que foi traduzido ao português por uma editora católica [Katechesis]. Esse pode ter sido um ponto de virada para as recepções de "gênero" no Brasil e na América Latina.
De acordo com a caricatura feita por Scala, aqueles que trabalham com gênero negam as diferenças naturais entre os sexos e pensam que a sexualidade deve ser livre de qualquer restrição. Aqueles que se desviam da norma do casamento heterossexual são considerados indivíduos que rejeitam todas as normas.
Vista por essa lente, a teoria de gênero não só nega as diferenças biológicas como gera um perigo moral.
No aeroporto de Congonhas, em São Paulo, uma das mulheres que me confrontaram começou a gritar coisas sobre pedofilia. Por que isso? É possível que ela pense que homens gays são pedófilos e que o movimento em favor dos direitos LGBTQI nada mais é do que propaganda pró-pedofilia.
Então fiquei pensando: por que um movimento a favor da dignidade e dos direitos sexuais e contra a violência e a exploração sexual é acusado de defender pedofilia se, nos últimos anos, é a Igreja Católica que vem sendo exposta como abrigo de pedófilos, protegendo-os contra processos e sanções, ao mesmo tempo em que não protege suas centenas de vítimas?
Será possível que a chamada ideologia de gênero tenha virado um espectro simbólico de caos e predação sexual precisamente para desviar as atenções da exploração sexual e corrupção moral no interior da Igreja Católica, uma situação que abalou profundamente sua autoridade moral?
Será que precisamos compreender como funciona "projeção" para compreendermos como uma teoria de gênero pôde ser transformada em "ideologia diabólica"?
BRUXAS
Talvez aqueles que queimaram uma efígie minha como bruxa e defensora dos trans não sabiam que aquelas que eram chamadas de bruxas e queimadas vivas eram mulheres cujas crenças não se enquadravam nos dogmas aceitos pela Igreja Católica.
Ao longo da história, atribuíram-se às bruxas poderes que elas jamais poderiam, de fato, ter; elas viraram bodes expiatórios cuja morte deveria, supostamente, purificar a comunidade da corrupção moral e sexual.
Considerava-se que essas mulheres tinham cometido heresia, que adoravam o diabo e tinham trazido o mal à comunidade em lugares como Salem (EUA), em Baden-Baden (Alemanha), nos Alpes Ocidentais (Áustria) e na Inglaterra. Com muita frequência esse "mal" era representado pela libertinagem.
O fantasma dessas mulheres como o demônio ou seus representantes encontra, hoje, eco na "diabólica" ideologia de gênero. E, no entanto, a tortura e o assassinato dessas mulheres por séculos como bruxas representaram um esforço para reprimir vozes dissidentes, aquelas que questionavam certos dogmas da religião.
Quem pôs fim a esse tipo de perseguição, crueldade e assassinato foram pessoas sensatas de dentro da Igreja Católica, que insistiram que a queima de bruxas não representava os verdadeiros valores cristãos. Afinal, queimar bruxas era uma forma de feminicídio executado em nome de uma moralidade e ortodoxia.
Embora eu não seja estudiosa do cristianismo, entendo que uma de suas grandes contribuições tenha sido a doutrina do amor e do apreço pela preciosidade da vida —muito longe do veneno da caça às bruxas.
DEMOCRACIA
Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.
Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.
Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.
Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.
Essa é a visão do arcebispo Justin Welby, da Inglaterra, que destacou recentemente o direito dos jovens explorarem sua identidade de gênero, apoiando uma atitude mais aberta e acolhedora em relação a papéis de gênero na sociedade.
Essa abertura ética é importante para uma democracia que inclua a liberdade de expressão de gênero como uma das liberdades democráticas fundamentais, que enxergue a igualdade das mulheres como peça essencial de um compromisso democrático com a igualdade e que considere a discriminação, o assédio e o assassinato como fatores que enfraquecem qualquer política que tenha aspirações democráticas.
Talvez o foco em "gênero" não tenha sido, no final, um desvio da pergunta de nosso seminário: quais são os fins da democracia?
Quando violência e ódio se tornam instrumentos da política e da moral religiosa, então a democracia é ameaçada por aqueles que pretendem rasgar o tecido social, punir as diferenças e sabotar os vínculos sociais necessários para sustentar nossa convivência aqui na Terra.
Eu vou me lembrar do Brasil por todas as pessoas generosas e atenciosas, religiosas ou não, que agiram para bloquear os ataques e barrar o ódio.
São elas que parecem saber que o "fim" da democracia é manter acesa a esperança por uma vida comum não violenta e o compromisso com a igualdade e a liberdade, um sistema no qual a intolerância não se transforma em simples tolerância, mas é superada pela afirmação corajosa de nossas diferenças.
Então todos começaremos a viver, a respirar e a nos mover com mais facilidade e alegria  — é esse o objetivo maior da corajosa luta democrática que tenho orgulho de integrar: nos tornarmos livres, sermos tratados como iguais e vivermos juntos sem violência.

JUDITH BUTLER, 61, referência nos estudos de gênero e teoria queer, é codiretora do programa de teoria crítica da Universidade da Califórnia em Berkeley. Lança o livro "Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo" pela Boitempo.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PRETA COM DIPLOMA JÁ É DEMAIS

Hoje, no Dia da Consciência Negra, publico com muito orgulho um texto do meu amigo Henrique Marques Samyn, doutor em Literatura Comparada, com pós-doutorado em Literatura Portuguesa e professor adjunto de Literatura Portuguesa na UERJ.
A situação na UERJ, como todos sabem, é catastrófica. Agora em novembro, professores como Henrique estão recebendo o salário de agosto. Ainda não se sabe quando vai terminar o semestre e começar outro. Apesar disso, Henrique persiste. Ele começou, com cotistas da UERJ, este belo projeto que dá visibilidade a escritoras negras contemporâneas. Peço que vocês prestigiem e divulguem o Letras Pretas, que sobrevive voluntariamente. 
E eis o post maravilhoso do Henrique.

Ano após ano, a cena se repete. Depois de entregar as notas das provas ou dos trabalhos acadêmicos, sou procurado por uma aluna ou aluno, geralmente no fim da aula, que tem uma nítida expressão de surpresa: nunca obtivera uma nota alta como aquela. Observo seu rosto: é familiar -- trata-se de alguém que participa das aulas, não falta quase nunca, escreve bem, construiu uma argumentação consistente; como isso é possível? É improvável que ela ou ele só se tenha dedicado à minha disciplina, ou que só tenha interesse pela matéria que eu ensino. Tudo se elucida quando considero um fator específico: a cor da pele. Como o tempo me ensinou, há ali um critério de avaliação oficialmente não reconhecido.
Não me recordo com exatidão de quando entrei em contato com o conceito de epistemicídio, mas sei que isso ocorreu há alguns anos, quando li um texto da filósofa Sueli Carneiro. A pensadora desenvolvia esse conceito com uma lucidez extraordinária, delineando algo que cotidianamente verifico: a desqualificação de pessoas negras como produtoras e portadoras de conhecimento, efetivada por meio de um conjunto de práticas educacionais que rebaixam sua capacidade intelectual. E vale ressaltar que isso não se restringe ao meio universitário: incontáveis estudos vêm demonstrando que o epistemicídio ocorre já na educação infantil, em meio a práticas racistas que são, muitas vezes, percebidas pelas crianças.
Assim, negras e negros são alvo de um insidioso sistema que começa a atuar no jardim de infância e se estende até as salas de aula das universidades. A imparcialidade, o rigor e a objetividade tão alardeadas pelo mundo acadêmico dissimulam estruturas opressoras profundamente consolidadas. O pressuposto compartilhado em silêncio por muitos de meus pares professores é: pessoas negras não podem ser tão inteligentes; pessoas negras jamais serão muito competentes. E não é difícil transformar esse pressuposto em realidade concreta: avaliações enviesadas e análises tendenciosas são instrumentos convenientes para que esse objetivo seja alcançado. Mais cedo ou mais tarde, o recado será entendido: você, aluno negro, tem deficiências de formação irreparáveis; você, aluna negra, nunca será boa o bastante.
Para dimensionar a eficácia dessas práticas, questionemos: quantas alunas e alunos negros avançam na carreira acadêmica? Quantas e quantos você vê na pós-graduação? Concluem o mestrado, o doutorado? Por experiência própria, afirmo: a maior parte sequer cogita chegar a esse estágio -- e, lamentavelmente, tem razões para isso. A mensagem que reiteradamente lhes é encaminhada, enquanto ainda estão na graduação, é: este não é o seu lugar; não é aqui que você deveria estar. Por isso é preciso ter cuidado com discursos que enfatizam demasiadamente a origem social; há quem maliciosamente os adote, ressaltando as dificuldades enfrentadas por quem sai da favela ou da periferia e chega à universidade, a fim de afirmar, nas entrelinhas: você já chegou longe demais.
O sentimento de inadequação é recorrente entre alunas e alunos negros, o que não ocorre por acaso. Onde estão as professoras e professores que, igualmente negros, possam servir como exemplo? Quando a isso se soma a certeza de que pessoas negras nunca serão suficientemente competentes, construída após incessantes ataques à sua autoestima e imerecidas notas baixas, está pronta a fórmula para o fracasso. 
Não se atribua isso a qualquer falta de esforço: estamos falando de pessoas que comumente moram longe da universidade, às vezes em regiões perigosas, e enfrentam horas de trânsito a fim de chegar à sala de aula; pessoas que precisam conciliar o trabalho, ou tarefas domésticas, com os estudos; pessoas que, em muitos casos, sequer têm acesso fácil à internet ou a um computador quando precisam fazer pesquisas. Se algum professor duvida do que estou afirmando ou pensa que isso não afeta o desempenho acadêmico, aconselho que ouça com um mínimo de empatia as alunas e os alunos que enfrentam dificuldades desse tipo.
Ao longo desse texto fiz questão de me referir a “alunas e alunos”, e não o fiz por acaso. Sobre mulheres negras pesa uma dupla opressão, de gênero e de raça -- categorias que, desde uma perspectiva interseccional, não podem ser pensadas isoladamente. Por conseguinte, importa perceber que, em uma sociedade racista e patriarcal, a mulher negra está relegada à posição mais baixa e mais vulnerável, determinada pela convergência entre o racismo e o sexismo. 
Isso tem um efeito direto sobre o modo como negras são vistas e tratadas no ambiente acadêmico. Numa sociedade como a brasileira, em que ainda se fazem presentes valores tributários do pensamento escravocrata, como admitir que aquelas mulheres que deveriam ser empregadas domésticas, serventes ou faxineiras sejam intelectuais respeitadas? Como tolerar que uma preta peça a palavra para propor um questionamento fundamentado, e não para dizer, com olhos baixos e voz comedida: “sim, senhor”?
Uma outra questão crucial deve ser levada em consideração: o assédio sexual. A negra, a “morena”, a “mulata” sempre foram tratadas como objetos disponíveis para o prazer masculino; desse modo, elas tanto servem como alvos privilegiados para professores assediadores (muito presentes em todas as universidades) quanto são associadas ao mesmo tipo de estigma que afeta trabalhadoras sexuais, percebidas como mulheres incapazes de agir de forma autônoma ou desprovidas de competência cognitiva –-portanto, incapazes de assumir uma postura crítica, e até mesmo de verbalizar a opressão que elas mesmas sofrem. Na sociedade patriarcal e racista, a preta é, em primeiro lugar, um corpo a ser desfrutado, e jamais será vista como uma mulher capaz de exercer um papel crítico e transformador.
Assim, em decorrência de um sistema de opressão que incide sobre a raça e sobre o gênero, importa reconhecer que, se um homem negro precisa ser duas vezes melhor para alcançar reconhecimento, uma mulher negra precisa ser dez vezes melhor para ultrapassar todas as barreiras que lhe são impostas. Apenas o reconhecimento de que esses obstáculos existem e precisam ser superados pode facultar a elaboração de estratégias que permitam seu enfrentamento. 
É preciso, enfim, reconhecer que a universidade é um ambiente permeado por mecanismos de exclusão -- o que favorece os interesses de uma elite que não está disposta a abrir mão de seus privilégios. Para eles, aceitar que gente negra ocupe cadeiras nas salas das grandes universidades já é muito incômodo; como ter um preto, que deveria estar limitado à subserviência, como seu par intelectual? Admitir uma preta com diploma, a caminho do doutorado… isso já é demais.

domingo, 19 de novembro de 2017

NÃO QUER OUVIR CANTADA COM ESSA ROUPA?

Aparentemente as regras não se aplicam aos homens. (Tá pequeno, né? Tem que clicar pra ampliar).

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"TANTAS DÚVIDAS: SOU BISSEXUAL?"

A M. me enviou este email um tempão atrás. Eu respondi dizendo que iria responder. Também pedi para um coletivo LGBT responder, mas demorou demais. Ajudem a tirar algumas dúvidas da M., pessoas queridas! (trolls: morram). 

Oi Lola, resolvi te escrever pois estou muito confusa e gostaria da opinião de alguém de fora. Alguém como você, admirável, com opinião própria, um exemplo para mim.
Depois de ler o post "Nunca pertenci à heterolândia" eu fiquei paranoica. Me analisei 50 vezes. Algumas coisas até batiam (principalmente o fato de não me apaixonar por ninguém há 4 anos), outras não. Afinal de contas, sempre fui convicta de que gostava de meninos. Resumindo: participei e participo da "heterolândia". 
Lembro da primeira vez que gostei de um garoto. Eu tinha meus 5 ou 6 anos. De lá para cá gostei de outros meninos, até os 13/14 anos, depois disso mudei de cidade. Foi um tanto traumático na época por que eu não me adaptava de forma alguma à nova escola e sofria bullying até da professora. As coisas só foram piorando e lógico que eu desenvolvi alguns transtornos que me prejudicam até hoje. 
Desde essa mudança eu nunca mais consegui gostar de ninguém. Isso não era um problema até um tempo atrás, agora está sendo. Como assim não se apaixona por ninguém? Como assim não tem um namorado? Como não tem faniquitos quando um cara está só de cueca?(acho lindíssimo, admiro, mas sem faniquitos). 
Sempre tive opiniões e gostos um pouco diferentes da maioria. Por exemplo, sempre achei mulheres muito mais sexy do que homens (apesar de achá-los atraentes), e apesar de ser uma fantasia mais comum para homens do que para mulheres, acho sexy duas mulheres ficando. Nem por isso me achava homo ou bissexual. Mesmo tendo curiosidade, sempre encarei como uma fantasia e nada mais. Afinal, nunca me apaixonei ou tive qualquer interesse nem pelas minhas amigas nem por nenhuma outra garota. 
Mas depois de ler o post não sei o que pensar de mim mesma. Dadas as condições, várias questões começaram a aparecer na minha cabeça. Talvez eu realmente seja bissexual. Meu leque de opções seria muito maior do que o de outras pessoas, certo? E se eu escolhesse me relacionar apenas com homens? (por uma questão de comodismo? Sim. Por um preconceito que existe em mim e eu nem sabia? Sim. Eu não seria hipócrita em um email tão sincero). Estaria certo ou estaria errado? Eu estaria mentindo para mim mesma ou apenas exercendo o meu direito de escolha? 
Sei que há vários jovens com 18/19 anos que são super maduros, bem resolvidos e que estão com o botão "vivo da forma que quiser" bem ligado. Acho isso ótimo mas seria uma grande mentira se eu dissesse que também sou assim. Ainda sou imatura, ainda corro pra cama da minha mãe quando tenho pesadelo, prefiro Toddy a café, faço cara feia pra tomar injeção. Será que simplesmente não posso esperar ser madura o suficiente pra resolver me relacionar com pessoas do mesmo sexo que eu? E se de repente esse tempo for de 50 anos? Aí é errado? E se esse tempo não chegar e eu resolver me relacionar apenas com homens? Então o erro é multiplicado por mil?
Venho de uma família aberta, liberal, independente, que me apoia. Ainda posso sonhar em casar de véu e grinalda com o príncipe encantado e ter uma família de margarina (do século 21, por favor!), ou sendo bissexual este sonho é proibido? 
Não sei se sou bissexual, é que dados os fatos já estou me considerando. Eu sei que esse e-mail é bobo, longo e cheio de questões, mas estou confusa. Sei que não ter um namorado aos quase 19 para os jovens é um problema e sei também que até hoje não tive um por simplesmente não deixá-los se aproximar. Tive pretendentes? Tive, mas sempre inventei defeitos e cortava antes mesmo de dar uma chance. Acho que fico esperando olhar pra cara deles e pensar "Bingo! É esse!" Fico com medo de nunca ter um namorado.
Claro que com isso eu começo a ficar apavorada. Não sei se sou bissexual, não sei se posso continuar agindo como sempre agi, não sei se é possível gostar de ambos os sexos, não sei se tenho que agir de outra maneira.
Querida Lola, sei que não é sua função me achar (e sim minha) nem me dar um chacoalhão para que eu acorde pra vida, mas sou admiradora e fã sua e do seu blog.

Minha resposta: Quantas dúvidas, querida M.! E todo esse turbilhão de emoções causado por um (ótimo) guest post de uma moça que se descobriu lésbica. 
Bom, primeiro, não fique ansiosa. Respire fundo. Você pode errar, você pode experimentar. Mas sugiro que, antes de mais nada, você apague a palavra "normal" da sua cabeça. Dane-se o que é visto como normal! E não se preocupe com o que é certo ou errado. Em matéria de sexualidade, isso é muito relativo. 
Porém, não entendi o que te levou a pensar que você é bissexual. Você nunca ficou ou se sentiu atraída por uma menina ao vivo, pelo que entendi. Você só acha mulheres mais sexy que homens e você acha que dá tesão ver duas mulheres ficando. Sinceramente, e eu sou totalmente leiga no assunto, acho que só isso é insuficiente. Muitas mulheres hétero acham outras mulheres bonitas e sexy, e nem por isso querem se relacionar sexual ou afetivamente com elas. 
Pelo jeito você pensa que pode ser bi por não se interessar por rapazes há tanto tempo. Mas esse tampouco é um indício certeiro. 
É tão importante assim pra você precisar saber o que você é ou não é? Não dá pra experimentar e ir descobrindo aos poucos?