domingo, 27 de julho de 2014

"OBRIGADO POR MATAR A CADA DIA O MEU MACHISMO"

Pulp Fiction, modificado. E se as armas do cinema virassem joinhas?

No post traduzido do site Cracked, Lucas Pin deixou um comentário que, longe de ser perfeito (ele ainda sofre com as expressões ridículas que mascus usam), me dá alguma esperança

Há uns tempos eu estava bem frustrado com mulheres, e eis que conheci o movimento da real. Era um prato cheio pra alimentar minha mente odiosa: passei a enxergar mulheres apenas como vaginas ambulantes e as desgraçava de todas as formas possíveis, jamais conseguia enxergar mulheres como seres humanos, mas sim como depósitos de esperma.
Acho que sempre tive problemas em lidar com a rejeição feminina desde pequeno, por isso me tornei por grande parte da minha adolescência um cara depressivo e com a autoestima extremamente abalada. Mesmo conseguindo ficar com várias garotas, eu nunca me sentia satisfeito, até porque homem quer aquela mulher mais top que segue o padrão de beleza imposto. Mas isso jamais esteve sequer próximo da minha realidade então eu acabei criando esse ódio mortal por mulheres que não me davam mole e muita inveja e ódio dos caras que conseguiam ficar com elas. 
Por fazer parte do movimento da real eu odiava veementemente o feminismo e pra mim era "tudo piranha querendo dar sem que ninguém fale nada". Enfim, sempre o mesmo roteiro da história que vocês leem. UM BELO DIA conheci esse blog aqui da Lola e comecei a ler. Apesar de odiar feminismo, questões de gênero sempre me interessaram, pois eu sentia que alimentavam meu ódio, mas ao ler o blog da Lola e ver sua forma de pensar a respeito do assunto, isso foi me mudando de uma forma que não sei explicar. 
Comecei a ler alguns posts sobre friendzone e mascus (movimento do qual eu era adepto), e fui entendendo a mente feminina sobre esse tipo de coisa e vendo a merda na qual eu estava metido. E ao ler um post sobre friendzone eu descobri o porquê de ser um cara tão deprimido e tão triste: toda a minha adolescência eu me pautei por pegar mulher, assim como a maioria dos homens fazem, e isso pra mim era sucesso. Porém, acabei me tornando um "escravo de b*ceta" e isso me deixava muito triste por eu não ter esse retorno e sucesso que eu achava ser o máximo. 
Após ler o blog da Lola e dar umas pesquisadas, eu tenho mudado demais meu pensamento e já me policio bastante para cortar atitudes machistas, já não vejo mais mulheres apenas como pedaços de carne mas sim como pessoas, e algo mais surpreendente ainda: para mim amizade com mulher era inaceitável, só rolava se fosse pra conseguir algo, mas hoje não, hoje eu consigo tratar bem e me relacionar com mulheres sem segundas intenções, apenas para descobrir o ser humano legal que pode ter ali. 
Lola de verdade muito obrigado por matar cada dia um pouquinho do meu machismo e dos fantasmas que me assombram, não só você mas algumas pessoas que comentam também e são bem coerentes como vc. Eu descobri aqui um feminismo bonito que não julga e não é extremista, que abre espaço para todos e é coerente nas coisas que prega. Espero que continue fazendo este ótimo trabalho! 

sábado, 26 de julho de 2014

GUEST POST: ÓDIO NÃO GERA AVANÇOS

A A. me enviou este relato:

Gostaria muito de contar a minha experiência e o que tenho aprendido com ela.
Bom, tenho 21 anos. Meus pais se divorciaram quando eu tinha 4 anos, a partir de então sempre morei com a minha mãe. Ela trabalhava o dia inteiro e eu passava a tarde em casa com a empregada. Eu tinha 6 anos quando a primeira empregada que trabalhou em casa me molestou sexualmente. Eu não lembro bem dos detalhes. Lembro só dessa cena, e acho que foi só isso que aconteceu: eu sentada no braço do sofá, e ela me tocando e perguntando se eu gostava daquilo. Não contei pra minha mãe, mas pouquíssimo tempo depois ela contratou outra empregada. Eu não lembro o que eu pensava sobre aquilo naquela época. 
Com dez anos, fui passar pouco mais de uma semana na casa da minha tia, que tinha acabado de ter um bebê. O marido dela, o C., era meu tio preferido. Eu o adorava, ele me tratava super bem e sempre prometia me dar presentes. 
Acontece que um dia minha tia foi dormir, e ficamos só nós dois na sala vendo TV. Eu, desde pequena gostava que fizessem carinho em mim que causasse arrepios, sabe quando passamos a mão assim de leve na pele e os pelinhos arrepiam? Então. Aí lembro do meu tio fazendo isso em mim naquela noite. 
Quando fomos dormir, ele dormiu no quarto comigo pois minha tia estava dormindo com o bebê na cama. Não sei dizer porquê, eu pedi pra ele deitar comigo no colchão. Ele ficou fazendo esse "carinho" em mim, e eu dormi. Acordei no meio da noite com a mão dele praticamente dentro da minha calcinha. Fiquei muito assustada e pedi pra ele voltar pra cama dele. 
Isso mexeu muito comigo, eu pensava muito naquilo, e lembro que pouco tempo depois ele foi preso por porte de drogas. Lembro que eu sentia muita vontade de contar pra minha mãe, mas morria de medo -- medo do que as pessoas iriam pensar, me sentia culpada por ter deixado isso acontecer, além de ter perdido a confiança nas pessoas em geral. Tinha medo também da proporção que aquilo poderia tomar na família. 
Com onze anos eu e minha mãe fomos visitar uma amiga dela. O D., marido dessa amiga, era uma pessoa muito comunicativa, divertida, e começou a conversar comigo. Não lembro a ordem dos fatos, só lembro de nós dois no quarto, sentados na cama, ele sussurrando alguma coisa no meu ouvido, dizia que era um jogo, e eu paralisada, sem entender o que estava acontecendo ali. Depois lembro da gente usando o computador pra fazer tabelas de batalha naval. Ele pegou minha mão devagar e colocou em seu pênis por cima da calça e ficou esfregando. Eu lembro que fiquei em choque, sem reação. Mas me deu um click e tirei a mão, peguei o mouse e falei alguma coisa relacionada às tabelas. 
Depois lembro dele me chamando pra irmos no térreo do condomínio de prédios porque ele queria me mostrar alguma coisa. Eu fui, desconfiada. Fomos conversando e ele foi me levando até um canto escondido. De repente ele me agarrou por trás, e foi nesse momento que eu saí do estado de transe. Com uma força que veio não sei de onde, me soltei dele e já estava quase correndo, quando ele disse: "Olhá só essa porta, o que será que tem nesse quartinho, vamo vê?" 
Eu disse não e subi correndo, e fiquei sentada no sofá esperando minha mãe pra ir embora. Me dei conta de que poderia ter acontecido algo muito pior se eu tivesse aceitado entrar no quartinho. Percebi que eu tinha sido vítima de um pedófilo, de uma tentativa de abuso. 
No caminho pra casa, no carro, contei pra minha mãe, que é assistente social, e lida com isso todos os dias. 
Eu disse: "Mãe, preciso te contar uma coisa. Sabe aquele negócio de abuso sexual? Então, acho que o D. fez isso comigo". A partir daqui eu não me lembro do que aconteceu, mas segundo minha mãe, ela parou o carro e começou a perguntar o que tinha acontecido. Eu não respondia e só gritava com raiva, chorando, pra ela não fazer nada, pra não falar com ele, pra não contar pra ninguém. 
Eu tinha medo. Eu sabia que D., meu tio e a empregada estavam errados, mas ainda assim me sentia culpada e tinha medo. 
Nessa mesma época, eu sofria bullying na escola. Um tempo depois eu até fui a uma psicóloga. Mas não cheguei a falar sobre os abusos. Resolvi que era melhor abafar aquilo. Esquecer. Fingir que não tinha acontecido, superar.
Depois de um tempo, contei pras minhas amigas tudo o que tinha acontecido, e quando contava, falava com maturidade, como se tivesse acontecido há muito tempo. Eu tentava mostrar que tinha superado aquilo, e eu realmente acreditava que tinha superado. 
Na adolescência eu dizia que já tinha superado, que nem tinha sido nada de mais, que tinha casos muito piores que o meu. Falava sobre sexo numa boa. 
Mas demorei pra transar pela primeira vez. Na minha quinta relação sexual, passei por uma situação estranha, e na sétima vez também. Ambas com caras diferentes. Hoje em dia, eu consigo enxergar que essas duas situações estranhas foram tentativas de estupro. Não aquele estupro que um cara aparece do nada, te leva pro mato e acaba com a sua vida. Não. Foram tentativas de forçar algo que eu não queria, e que por mais que eu dissesse não, eles insistiam. E o jeito que eu encontrei de sair da situação, foi me submetendo, foi aceitando, pra que algo pior não acontecesse ali.
Depois disso, comecei a me dar conta de que alguma coisa estava errada.
Meses depois, assisti ao filme As Vantagens de Ser Invisível e me identifiquei tremendamente. Chorei litros. Alguma coisa tinha vindo à tona em mim. 
Passados mais alguns meses, entrei em contato com o feminismo. Comecei a descobrir o que era. Vi que era totalmente o contrário do que eu pensava que fosse. Comecei a entender o que era patriarcado. E aquilo iluminou todas as minhas dúvidas, todos aqueles incômodos constantes. 
E o meu passado voltou com tudo. Voltou a me assombrar como se dissesse: "Você ainda tem pendências a resolver comigo, mocinha, agora não tem escapatória". Comecei a falar sobre o meu passado, e conforme eu contava eu percebia o quanto aquilo me afetou sim, o quanto eu não tinha superado o fato de ter sido abusada na infância. Percebi que muito da minha insegurança, da minha dificuldade em confiar nos homens, em olhar nos olhos, eram consequências desses abusos. 
Falar sobre isso, e descobrir que muitas pessoas (bem próximas até) também passaram por situações parecidas ou piores, me deu muita força. Percebi que podemos e devemos lutar contra o machismo que nos oprime todos os dias, e está tão enraizado na nossa cultura. 
Mas não vim aqui apenas contar a minha experiência. 
Li um texto que você postou de um estuprador pedindo perdão e dizendo que se arrepende muito do que fez. Admiro muito a sua coragem de postá-lo no blog,
Acredito na reabilitação do ser humano. Claro que o que ele fez foi horrível, causou danos na vida das vítimas, mas acho que ele também sofre com o que fez, ficou bem claro pelo que disse. E não tem punição pior que essa. Você saber que arruinou a vida de alguém. 
Depois de todos esses anos, eu me perdoei. Eu era só uma criança. E perdoei as pessoas que me fizeram o que fizeram, mesmo elas nunca tendo me pedido perdão. Eu consigo enxergá-los como seres humanos, não monstros. Consigo enxergar que eles podem até mesmo ter sido vítimas na infância, e que talvez eles se sintam mal pelo que fizeram.
Estuprador tem que ser preso? Claro! Pedófilo tem que ser preso? Claro! 
Mas não acho que ser preso hoje em dia leve ao arrependimento (talvez em alguns casos sim), pelo contrário. Só piora. Então, eles merecem a morte? Não. Não estamos mais na idade da pedra onde tudo se resolvia pela lei de talião, olho por olho, dente por dente. Nós evoluímos. 
E se uma pessoa que comete um crime, se arrepende do que fez, não deveríamos dar a ela uma chance? Se ela se arrepende, não quer dizer que ela consegue, assim como nós (e talvez até por nossa causa) enxergar que o que ela fez foi muito errado, foi horrível? Não quer dizer que ela quer se tornar alguém melhor? Então. Ela precisa de ajuda. 
As feministas não deveriam gerar mais ódio, propagar ódio pelo ódio. O feminismo tem que ir além, tem que ir na raiz do problema. Lutar por um mundo melhor é acreditar no ser humano, por mais que a humanidade nos dê motivo para desacreditar, para jogar tudo pro alto, chutar o balde. Mas não é assim que vamos acabar com o machismo. 
E ele não vai acabar tão cedo. 
É claro que se eu tivesse sido estuprada, a minha primeira reação seria querer matar meu estuprador, ou sei lá, se alguém fizesse algo do tipo a alguma pessoa próxima, também sentiria muita raiva e vontade de me vingar. Mas, será que isso resolveria a tormenta interior, a catástrofe psicológica e emocional? 
Temos que lutar com todas as nossas possibilidades para a conscientização das pessoas. É uma luta diária. Nos deparamos todos os dias com pensamentos que culpabilizam as vítimas de estupro ou abuso, ou que oprimem de uma maneira geral as mulheres, as lésbicas, os gays, os negros, os pobres. 
Cultivar e propagar esses sentimentos de ódio não nos torna pessoas melhores e nem torna o mundo um lugar melhor. Não gera nenhum avanço.

Meu comentário: Obrigada pelo relato, muito forte, bem escrito, cheio de reflexões. Você é super madura pra uma menina de 21 anos. Parabéns, querida!
Só que tem uma coisa: no final do texto, você diz: "É claro que se eu tivesse sido estuprada...". A., você FOI estuprada. Pelo menos segundo as leis brasileiras de 2009. Não é só penetração que é estupro.
Fico muito feliz que, apesar de tudo que você sofreu, você não queira o olho por olho pra quem te abusou. E fico feliz que você esteja bem agora. Você é linda! É uma guerreira, uma sobrevivente.
Concordo contigo sobre o feminismo não propagar ódio. Entendo o ódio como um sentimento legítimo (apesar de nada saudável) de uma vítima. 
Não sou eu que vou falar pra ela o que ela deve sentir, como ela irá superar o trauma. Mas o ódio como estratégia de um movimento, de uma ação coletiva, pra mim soa como um tremendo tiro no pé. Porque, como você disse, o ódio não resolve nada. Ódio mal permite análises.
Denúncia, julgamento, condenação e punição de estupradores -- sempre. Mas com a possibilidade real da reabilitação. Ódio para sempre, não. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A BELA ADORMECIDA NÃO DORMIA

Outra Fernanda que sabe tudo de francês perguntou se eu queria que ela traduzisse um artigo que uma amiga escreveu sobre Malévola e o feminismo. Eu respondi: só se for pra ontem! É um belo artigo. Muitíssima obrigada!

Mais que um remake técnico, Malévola, nova versão cinematográfica do célebre conto de Perrault, transforma a imagem arquetípica da mulher. O filme transcende as diferentes formas de feminismo para trazer uma nova e moderna resposta à questão da mulher no século XXI.
O significado dos contos de fada
Um conto não é só uma história. Um conto é isento de qualquer semelhança com o real: ele tem diabos, bruxas e sua magia, e situações malucas. E além disso, um conto é recheado de simbolismos: ele tem seu sistema ternário de cores (vermelho, branco, preto), formas (círculo), objetos (pluma, espada), cada qual utilizado com um sentido preciso. 
Um conto não é jamais visto somente por aquilo que conta, mas sobretudo pelo que significa.  Na psicologia, o conto é tratado com um arquétipo, quer dizer, um aspecto do inconsciente coletivo, uma maneira universal de compreender o mundo. Assim, mesmo se cada conto possui várias variações de detalhe –- pois na sua origem ele se transmitia oralmente, e cada contador acrescentava ou modificava certos elementos, segundo sua inspiração -– essas modificações não alteram em nada o sentido inicial e simbólico do conto. 
Para o conto da Bela Adormecida, existem pelo menos três versões diferentes, e algumas podem te surpreender (como explicarei em seguida). Mas todas se destinam ao mesmo significado, ao mesmo arquétipo.
A Bela Adormecida ou o nascimento da feminilidade
Como explica Bruno Bettelheim, na sua obra A Psicanálise dos Contos de Fada, o conto da Bela Adormecida é a alegoria da passagem de menina a mulher, com as dificuldades e sofrimentos que essa etapa apresenta. Apesar de todo amor e atenção que os pais dão à filha, eles não conseguem evitar a maldição da puberdade, que começa no sangue (as menstruações) e se prolonga no refúgio em si mesmo (o sono de cem anos). 
Para tirá-la desse estado, o príncipe deve em primeiro lugar derrubar uma floresta de espinhos, a barreira vegetal que protege sua virgindade, para finalmente beijar sua princesa e fazer dela uma mulher. Na versão mais antiga do conto, não com um beijo, mas com o nascimento do filho que ele desperta a princesa, no momento em que o filho busca os seios da mãe para mamar. 
Ao contrario das versões da Disney, o conto prossegue com as maldades da mãe do príncipe, por ser ciumenta. Para viver em paz com sua princesa o príncipe deve matar a mãe: ela terminará por ser queimada num grande caldeirão. De menina à mulher e mãe, em seguida dona de casa, a Bela Adormecia ensina às meninas o papel que elas devem seguir na sua existência. Esse conto fornece uma imagem arquetípica da mulher, uma resposta à questão: o que é ser mulher?
O filme de 1959, mesmo sem integrar o fim do conto (a morte da mãe), ainda é fiel ao arquétipo do conto. Mas o que acontece em Malévola? As "variações" dadas se parecem com as variações dos contos, sem consequência para seu significado profundo? Na realidade, as modificações dessa nova versão não são superficiais: ao contrário, elas mudam completamente o arquétipo clássico da mulher. 
O começo do problema: a inocência aliada ao crime 
O conto de Malévola começa com um casal, como na Bela Adormecida, mas esse casal é infantil: na beira da adolescência, Malévola, pertencendo ao mundo mágico, e Estevão, um humano, se encontram. Esses dois pequenos seres, que ainda não entraram no mundo dos adultos, simbolizam um destino que ainda não foi construído; eles são os arquétipos a construir. 
Mas um conto começa sempre por um desequilíbrio que forma um problema a se resolver, a finalidade da aventura dos personagens. O fim do conto deve sempre restabelecer o equilíbrio entre o princípio feminino e o masculino: um rei viúvo deve encontrar uma mulher, uma princesa solitária deve ter um bebê… Em Malévola, o desequilíbrio aparece na idade adulta dos dois personagens. Estevão, o apaixonado traidor, corta as asas da boa fada Maléfica para satisfazer seus acessos de ambição. 
Dessa maneira, e de uma forma totalmente radical em relação aos contos ancestrais, o pecado original consiste na opressão masculina sobre o princípio feminino. Para afirmar seu poder (se tornar rei), o jovem rapaz aniquila a jovem moça retirando dela o que a faz ser fada, e o que a faz ser mulher, de uma forma. Pelo ato de "cortar as asas", expressão com grande potencial figurativo, Estevão impede Maléfica de crescer normalmente e de se realizar em toda a sua feminilidade. 
A partir desse fato, o conto vai trabalhar o vocabulário simbólico da opressão masculina. Por exemplo, Malévola, na sua condição de ser mágico, é alérgica ao ferro, alegoria da crueldade e corrupção. Nessa versão do conto, o conteúdo do rito iniciático da Bela Adormecida é modificado: a passagem de menina a mulher não é mais o resultado de uma maldição que a menina deve aceitar passivamente, mas consequência de um gesto humano contra o qual, com certeza, vai ter que lutar.
O movimento de liberação do corpo
Essa versão do conto, de ser ou se tornar mulher, não se exprime na aceitação imóvel de sua condição, mas no agir, no fazer. Entre sono violado por um terceiro e a luta, há um espaço de reivindicação: o direito da mulher de dispor de seu próprio corpo. Porque é exatamente sobre isso que repousa a ambição de Malévola desde o início: se vingar da mutilação de seu corpo, tentativa criminosa de submissão. 
Para lutar, Malévola deverá se realizar na sua liberdade pela reapropriação de seu corpo. Assim, Malévola é livre para escolher não ter filhos e até dizer que ela "não gosta de crianças". Por essa palavra performativa, Malévola parece se emancipar dos clichês da mulher da Bela adormecida: não, a mulher não é uma simples procriadora potencial. Ainda mais, Malévola dispõe de seu corpo utilizando roupas e acessórios inconvenientes para uma bela princesa: couro, chifres etc. Não submissa, proprietária de seu corpo, Malévola é livre. 
E não reside aí todo o princípio do filme que faz triunfar a liberdade feminina apesar da maldição original? Malévola nasceu Malévola (ou Maléfica): mas, ela ganhará sua liberdade e se libertará de seu destino onomástico se tornando caridosa. E, diferentemente da versão original do conto, não será a terceira fada-madrinha que tentará modificar o feitiço lançado por Malévola a Aurora, mas Malévola: a encarnação do seu livre arbítrio.
Mulher versus Homem
Com plena posse de sua liberdade, Malévola assume a postura de guerreira, que lhe permitirá encarnar seu pleno poder. O poder da feminilidade, sua única potência claramente expressa nessa versão do conto. O homem, nessa história, é selvagem, desordenado ou bobo. Dessa maneira, os homens do rei não conseguem jamais ultrapassar a barreira sagrada que protege o mundo das fadas. Além do que, Malévola  é muito eficaz no combate em que suas armas são as mãos nuas, e ela enfrenta todo um exército.
Somente quando o homem inventa uma tática traiçoeira, seguindo sua natureza, é que ele consegue capturar Malévola. Mas isso porque ele não esperava pela magia das asas da heroína que retornariam para coroar o fim de sua busca. A feminilidade triunfa acima de tudo. 
Desse ponto de vista, o personagem de Filipe é particularmente interessante. Herói no conto da Bela Adormecida, libertador da feminilidade de Aurora por seu beijo, Filipe é, ao lado de Malévola, um pequeno nada sem relevo. Melhor ainda, é ele que fica no sono e inação: sutil inversão dos valores de poder. Ainda mais, ele se revela totalmente incapaz de acordar a princesa.
Um… dos feminismos
Do ponto de vista simbólico e da história, Malévola parece ser uma colcha de retalhos sincrética de diferentes formas do feminismo: o movimento de liberação das mulheres, representado pela reapropriação do corpo, mas também um feminismo radical que consiste em denunciar a opressão masculina e se inscreve numa luta de sexos, tão exigente e violenta como a luta de classes. 
Mas um outro tema, mais feminino que feminista, é abordado pelo conto: a natureza. As referências a uma terra perfeita, povoada por flores e riachos, habitada por animais maravilhosos, isolada do território bestial e cinza dos homens, próxima a um jardim do Éden, podem levar a uma reflexão ecológica, como a do filme Avatar (cuja estética sem dúvida inspirou Malévola). 
Mas no conto Malévola a natureza é sempre ligada à mulher: Malévola é guardiã e protetora, e é no meio desse mundo que Aurora obtém sua liberdade de mulher -- ela decide deixar suas mães (as fadas) porque ela aprendeu a amar o jardim maravilhoso e decide habitar nele. 
E é nesse jardim que Malévola, que não queria crianças, começa a amar sua afilhada. Esse reino preservado simboliza a mulher na sua dimensão daquela que dá a vida. Graça a ele há o retorno da ternura e o triunfo do amor materno: como uma mãe, Malévola luta ferozmente para salvar a vida de Aurora, e como uma mãe ela se sacrifica por essa causa.
Dama natureza
A natureza nesse conto não existe tão somente por ela mesma, mas para dar relevo e profundeza à moral do conto: é certo, a mulher deve lutar contra a opressão masculina, mas sua verdadeira liberdade reside na aceitação que ela fará da sua natureza de mulher. A escolha de Angelina Jolie para encarnar Malévola parece evidente: mulher fatal e mãezona, ela concentra sua imagem em vários temas abordados pelo conto.
Com a diferença da vida real, onde cada forma de feminismo pode se opor a outra (Simone de Beauvoir não seria amiga de Julia Kristeva), as diferentes teses feministas evocadas pelo conto se encontram num todo coerente. O feminismo radical é ultrapassado por uma visão naturalista, e a luta termina num equilíbrio entre homem e mulher (pois Filipe é aceito no jardim). 
Os arquétipos do feminismo evoluíram? Depois da mulher oprimida e do feminismo que recusa toda forma de feminilidade, nossa sociedade teria enfim encontrado um compromisso?