terça-feira, 28 de abril de 2015

GUEST POST: SE EU FOSSE PRESO, PREFERIRIA IR A UMA PRISÃO FEMININA

H., de 28 anos, me enviou seu texto instigante sobre o caso Verônica.

Caso Verônica já ganhou
manchetes internacionais
Antes de mais nada, gostaria de dizer que o seu foi o texto mais honesto — e, na minha opinião, correto — a respeito do que aconteceu. Acompanhei o caso desde que saíram as primeiras imagens, mas não "tomei" nenhum lado porque... bom, internet é um jogo perigoso de telefone sem fio, e prefiro formar minhas ideias a respeito depois de ver todos os fatos. Por fim, foi melhor, já que muita coisa foi distorcida, de todos os lados, a respeito tanto do crime que Verônica cometeu, quanto o crime que cometeram contra ela. A única coisa que eu discordo do que você falou é que Verônica deveria ir para uma prisão feminina.
Eu sei, eu sei, opinião perigosa, mas tenho um motivo muito pessoal para pensar assim: sou homem trans [uma pessoa que foi designada mulher ao nascer e depois fez a transição para homem], e jamais, em nenhum momento, gostaria de ser colocado numa prisão masculina.  
Complicado, né? Vi algumas pessoas levantando a questão em seus comentários, inclusive indagando se algum homem trans poderia opinar a respeito, e, pois bem, aqui estou. Me colocando em uma situação hipotética onde eu, se cometesse um crime passível de cadeia, jamais me daria ao luxo de escolher um presídio que combine com minha identidade de gênero. E isso por um medo bem simples (que acredito que aterroriza qualquer pessoa que nasceu com uma vagina), e esse motivo é estupro.
A moral é que não tem hormônio e cirurgia que mude minha condição. As cirurgias de transição de mulher --> homem estão anos luz atrás das de homem --> mulher, e mesmo que eu mutilasse a carne do meu braço para criar um pênis não-funcional (ou aumentasse o clitóris para um tamanho pífio), eu jamais teria como esconder por muito tempo de companheiros de cela que eu nasci mulher. E não apenas por questão de corpo (a cirurgia de genital é algo que nunca passou pela minha cabeça, pois o resultado me assusta muito mais do que me tenta), mas por criação mesmo. 
Nada que eu fizer na minha vida adulta vai mudar o fato de que eu nasci e fui criado como mulher até o inicio da vida adulta, pelo simples motivo de que não tinha como ninguém saber a respeito da minha identidade de gênero antes de mim. Não me perguntaram se eu me identificava com o gênero feminino quando nasci, não me perguntaram se eu me identificava com o gênero feminino quando fui para a pré-escola ou para o ensino médio. Eu fui criado como menina, e como ninguém ao meu redor era telepata, as marcas da socialização feminina estão nas minhas costas até hoje.
No geral, falar a respeito de socialização feminina/ socialização masculina é um tabu muito grande dentro do transfeminismo, e nunca me senti à vontade de falar alguma coisa a respeito disso em público por medo de perseguição. Homens trans são muito silenciados e invisíveis em qualquer vertente do feminismo e da comunidade LGBT, especialmente porque nos é negado nosso sofrimento em relação à misoginia. Falam que admitir que homens trans já passaram/ainda passam por misoginia é diminuir nossa condição masculina, mas admitir que eu sofri e ainda sofro misoginia é algo que nunca me ofendeu, ao contrário. 
Minha história de vida não contém a narrativa clássica da transexualidade, e pela maior parte da minha vida, tive uma apresentação extremamente feminina. Minha família, no geral, é bem aberta, mas são todos humildes, e com uma visão bem clássica do que é ser homem e do que é ser mulher, e foi num ambiente muito tradicional que fui criado. Nasci com uma vagina, e isso me fez ter uma infância e adolescência similar à de muitas mulheres cisgêneras brasileiras. 
Desde que comecei a falar, fui mandado a abaixar o tom, me abaixar, me encolher, diminuir meu tamanho e prezar a delicadeza. Noiei com peso pois me diziam que só poderia ser bonit"a" se fosse magr"a", e me foi privado o acesso a muitas coisas que eu tive interesse mas não eram tipicamente femininas. Meu raciocínio lógico é mais fraco pois meu interesse pela matemática foi tolhido quando ainda estava no ensino fundamental (pois "meninas são naturalmente mais fracas em exatas", dizem por aí), meu tom de voz carrega a pressão de abaixar e afinar a voz, minha linguagem corporal ainda tem resquícios dos comandos de delicadeza. 
Cada fibra do meu ser carrega minha história de criação feminina, e não tem corte de cabelo, hormônio ou cirurgia que mude isso. Isso não me machuca nem me magoa: eu abraço meu passado como abraço meu presente, e justamente por isso a ideia de ser a única pessoa com uma vagina em um ambiente lotado me assusta tanto quanto qualquer mulher. Eu seguro as chaves de casa entre os dedos quando passo num beco escuro, eu corro do ponto de ônibus até a entrada do meu apartamento quando volto do trabalho à noite. Esse medo sempre existiu e esse medo persiste pois eu não sou inocente. Sei que não vivo em uma utopia, e sei a condição em que estaria numa prisão masculina.
Nessa situação hipotética onde eu cometesse um crime e fosse para uma cadeia masculina, não demoraria muito para descobrirem meus genitais. Banheiros coletivos, celas coletivas, chuveiros coletivos... e não é só o corpo. Como falei, minha voz e minha linguagem corporal ainda carregam o peso da socialização feminina, e não é algo que eu ache que jamais vai passar, por mais visivelmente masculino que eu seja. 
Muita coisa a respeito da minha vida e da minha história delata minha condição de homem transexual, e em um mundo onde mulheres masculinas (lésbicas ou não) sofrem estupro corretivo todos os dias, é ingenuidade pensar que os homens do presídio me veriam como qualquer coisa além de uma mulher, portadora de uma vagina. Minha identidade de gênero já seria tolhida logo de cara, sequer seria minha escolha. Nessa circunstância, preferiria largar minha identidade de gênero e ser visto como lésbica masculina em uma distopia da minha própria vida em uma cadeia feminina do que ser saco de pancada e vítima de estupro coletivo numa cadeia masculina. 
Alguém poderia argumentar que uma travesti sofreria o mesmo numa prisão masculina, mas não tenho como saber pois não sou travesti. Talvez isso abra uma discussão para onde todos nós, transexuais, deveríamos ser mandados em caso de crime, não sei. 
[Perguntei ao H. o que ele, como homem trans, teria a propor, pois me parece errado e segregacionista ter celas apenas para pessoas trans. Seria esta a única saída para pessoas trans não serem violentadas, espancadas e mortas numa cadeia? Ele respondeu:]
Honestamente, eu não sei. Não acho que nenhum homem trans, transicionado ou não, estaria a salvo numa prisão masculina, da mesma forma que uma mulher trans completamente transicionada não estaria. Posso te dizer pessoalmente que, por toda minha história de vida, mesmo transicionado, eu jamais perderia o sentimento de horror à ideia de ser colocado numa prisão masculina, mas a questão como um todo é algo muito complicado pra mim, então acho que isso é algo que deveria ser discutido com um pouco mais de delicadeza.
No geral, as pessoas de dentro do ativismo pulam direto para a possibilidade de todo mundo ser colocado no espaço de seu gênero (e não sexo), e isso é meio que jogar os homens trans pra debaixo do trem, sabe? Por mais triste que eu ache essa possibilidade, por enquanto, acredito que o melhor é separar as cadeias por sexo biológico mesmo. Na minha ideia de uma separação assim, no mundo atual (onde as cirurgias de mulher para homem são muito mais precárias e experimentais que de homem para mulher), mulheres trans que passaram pela transição completa poderiam ir para presídios femininos, mas até a transição masculina melhorar, homens trans iriam para feminina também. Mas mesmo isso é difícil dizer. 
Não sei encontrar um meio termo: não é justo botar mulheres trans com homens cis, mas também não é justo botar algumas mulheres trans criminosas que já tenham agredido e estuprado mulheres, e possam botar em risco outras presas. Como qualquer preso/a, pessoas trans deveriam ter segurança, tanto de não sofrerem abusos, quanto de não serem humilhadas/os por sua condição, mas o resto também deve ser considerado.
Enfim, eu realmente não tenho uma opinião definitiva a respeito disso e estou disposto a ver outras propostas, mas pra minha própria vida, pra minha própria experiência, como falei acima, escolho a dignidade do meu corpo a pronomes.

Meus comentários: Entendo perfeitamente a sua preocupação, H. Se a vida numa prisão já não é fácil para ninguém, ela certamente é mais perigosa não só para pessoas trans, como também para pessoas cis que não sejam heterossexuais. Assim, muitos presos gays e lésbicas que podem esconder sua orientação sexual preferem fazê-lo, já que os riscos de, por exemplo, um homem gay ser estuprado e contrair Aids numa prisão não são nada desprezíveis.
Pesquisei um pouquinho e vi que, de modo geral, as pessoas são designadas às prisões de acordo com seu sexo biológico. Assim, um homem trans como você iria mesmo para uma prisão feminina (onde sem dúvida estaria mais seguro; porém, homens trans também podem ser abusados nessas prisões, geralmente por guardas), e uma mulher trans iria para uma prisão masculina. Em algumas prisões, travestis e mulheres trans são colocadas em celas junto a homossexuais afeminados. Há vários casos no mundo em que mulheres trans ganham na justiça o direito de serem transferidas para a prisão feminina. 
Outro problema para pessoas trans na cadeia é que muitas vezes há interrupção nos remédios. Mesmo as que recebiam tratamento hormonal antes da prisão, com prescrição médica, têm esses seus direitos desrespeitados
De maneira geral, a comunidade LGBT parece preferir prisões próprias para pessoas trans. Pelo menos quando uma das primeiras prisões desse tipo foi aberta, na Itália, em 2010, houve comemoração. A Itália tem cerca de 60 prisioneiros trans.
Ano passado houve um avanço, que ainda carece de implementação: o Estado de SP elaborou uma resolução que estabelece normas de tratamento pra travestis e transexuais no âmbito carcerário. Essa resolução permite que a pessoa trans tenha a autonomia para decidir o gênero que quer manter enquanto estiver na cadeia.
Eu mantenho que a travesti Verônica, depois de julgada e condenada, tenha de cumprir sua pena numa prisão feminina. Ela não pode correr risco nem por em risco a segurança de outros presxs, pois todos estão sob tutela do Estado e devem ser protegidxs. 
Porém, enquanto o risco que travestis e mulheres trans sofrem na prisão está bem documentado, há pouquíssimos indícios de que elas seriam uma ameaça à segurança das prisioneiras cis.
Não é uma questão simples, e não há unanimidade nem entre ativistas LGBT. Só sei que o feminismo que eu defendo não exclui pessoas trans.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

PROFESSORES DÃO MAU EXEMPLO

Mas pelo menos algumas alunas contra-atacam

Dois casos da semana passada de professores universitários agindo mal, muito mal.
Na quarta, um professor de Direito da PUC-RS declarou, em tom de piada, durante sua aula de Direito Empresarial III: "As leis são como mulheres, foram feitas para serem violadas". Um aluno relatou o ocorrido em sua página no Facebook, contextualizando que o professor avisou que iria "contar uma piada que talvez ofendesse algumas pessoas". Não houve reação na hora, só depois.  
No mesmo dia, um grupo de alunas se reuniu com a vice-diretora do curso de Direito. Elas relataram outras "piadas" do mesmo professor: "Moeda na mão, calcinha no chão", e "Essa é a prostituta das provas: não merece respeito". 
O Diretório Central dos Estudantes propôs à diretora que seja construído "um espaço de debate entre alunos e professores em torno da temática que aborde os percursos do reconhecimento dos direitos das mulheres", e que sejam dadas recomendações para que professores não banalizem a violência contra as mulheres. 
Na quinta a Samantha, que é advogada e me ajuda a moderar o blog quando estou viajando, contou que teve aula com esse professor em 2009, e que ele já fazia aquela piada desde então (que, aliás, não é original. Nem engraçada).
Pra galera do "é só uma piada", devo lembrar mais uma vez que uma piada é um discurso como outro qualquer. Não está acima do bem e do mal, ou das críticas. O documentário O Riso dos Outros, do qual tive a honra de participar, problematiza bem a questão.
E só lembrando também que, em 2011, um professor substituto (também de Direito) na UnB defendeu a "piada" de Rafinha Bastos em sala de aula. Sabe, aquela do "estuprador de mulher feia não merece cadeia, merece um abraço". O resultado dessa defesa foi a organização de uma mesa sobre o simbolismo do humor na Semana de Direito e Gênero.
Mas, voltando a 2015, muita gente saiu em defesa do professor da PUC. Na sexta, estudantes (a maior parte mulheres, a julgar por este vídeo) fez um ato em apoio do mestre. E depois tem corrente feminista que não crê em mulher machista... Olha, eu posso até entender que haja aluna que goste das aulas do professor e não queira que ele seja punido, mas fazer ato pra isso, ainda mais chamando de "exagerada" a reação do DCE, é algo que foge a minha compreensão.
Também foge a minha compreensão em qual contexto a piada do "Leis são como mulheres: foram feitas para serem violadas" não seria uma apologia ao estupro. 
Na mesma quarta, um professor britânico usou, em sua aula para a pós-graduação no Instituto de Biociências da USP, um artigo racista que "provava" que negros africanos são inferiores a europeus e asiáticos por não irem tão bem em testes de QI. Essas teses, sempre baseadas em preceitos eugenistas super racistas, só deveriam poder ser usadas em sala de aula do século XXI se fossem rebatidas, o que não parece ter sido a intenção do professor. 
Na turma de vinte alunos, apenas um não era branco, o que ainda é comum em quase todas as universidades do Brasil, principalmente na USP, uma das poucas a não adotar cotas raciais. Felizmente, o coletivo Ocupação Preta invadiu a sala. O professor continuou dando a aula, em inglês, intercalando-a com alguns "Shut up!" pros manifestantes (esta prepotência me lembrou à do professor da UFES que, em novembro, afirmou que não iria querer ser atendido por médico ou advogado negro; na ocasião, os estudantes da universidade protestaram exemplarmente). 
Pergunta o coletivo: "Por que, em 2015, ainda é necessário dispensar esforços para combater tal artigo que expressa tão obviamente o racismo, quando poderíamos, nas mais variadas áreas, estar refletindo sobre assuntos produtivos à comunidade paulista que sustenta a USP?"
Parabéns ao coletivo, que foi à aula para "enegrecer a discussão com nossos posicionamentos de negras e negros que somos, estudantes das mais diversas áreas da universidade que sentem o racismo todos os dias, resistindo e combatendo com muita força". 
O coletivo tem feito outras intervenções na USP, deixando a galera coxinha do "Queremos ter aula e não discutir essas amenidades sobre preconceitos" muito chateada. Enquanto isso, blogs reaças reclamam da "doutrinação" de professores comunistas e, óbvio, de grupos que "não permitem" que os alunos, tão puros, tão livres de ideologias, tenham aula. 
Aula com piada sobre estupro de mulheres e aula com artigo racista? Não, isso não é ideologia, pros reaças. Ideologia -- que é palavrão pra eles -- só quem faz é quem protesta contra isso.

domingo, 26 de abril de 2015

SE OS DIREITOS DAS CRIANÇAS FOSSEM LEVADOS A SÉRIO

O post sobre redução da maioridade penal foi, como não poderia deixar de ser, muito polêmico. 
O que me assustou um pouco é que, mesmo num blog feminista, de esquerda (com inúmeros anônimos de lados opostos escrevendo nos comentários, é verdade), a caixa de comentários mostrou que a maioria apoia a redução.
Felizmente, algumas comentaristas conseguiram fazer a diferença. Destaco duas:

"Bom, acho que posso falar sobre adolescentes com um pouquinho de conhecimento de causa. Sou pediatra, especialista em saúde do adolescente e trabalho num centro de referência pro atendimento à essa faixa etária.
Quem estuda o desenvolvimento do adolescente sabe que essa etapa da vida é marcada por algumas peculiaridades: adolescentes experimentam uma sensação de invulnerabilidade, têm um pensamento imediato e dificuldade de fazer projeções pro futuro. Em geral (embora exista variabilidade nisso), essas características só vão desaparecer no final da adolescência. Por isso, acho que a existência da perspectiva de uma punição mais grave não vai fazer muita diferença na tomada de decisão quanto a cometer ou não um delito.
Além disso, adolescentes buscam modelos fora do círculo familiar. Essa busca faz parte do processo de afirmação da identidade, que está a todo vapor nesse período da vida. Encarcerar adolescentes com adultos criminosos é oferecer a eles apenas essa possibilidade de modelo a ser seguido. O que certamente vai torná-los pessoas piores a longo prazo.
Somado ao fato de que diversos estudos apontam que não houver redução da criminalidade nos países que reduziram a maioridade penal, não vejo qualquer benefício na aprovação dessa lei.
E, conforme várias pessoas já disseram aqui, existe punição prevista para adolescentes. Está no ECA. E é bem simples de entender.
Aliás, se o ECA fosse levado mais a sério, e as medidas de proteção às crianças e adolescentes fossem implementadas de fato, haveria uma quantidade muito menor de 'menores no crime'. E aí sim estaríamos discutindo estratégias eficazes de redução da violência.
E, por fim, sim, é fato: adolescentes são muito mais vítimas do que perpetradores de atos violentos." (Mariana)
Já a @vbfri decidiu desenhar:

"Alguns pontos:
1) menores de idade já são presos. Organizações internacionais consideram que a prisão no Brasil é após 12 anos. 
2) redução da maioridade penal não funcionou em NENHUM país do mundo para reduzir a criminalidade. 
3) reduzindo a maioridade penal ou não, permaneceriam sendo presos os pobres. Rico não vai pra cadeia (exceto vez ou outra como "bode expiatório" -- apenas pra fazer de conta que a justiça é igual pra todos). 
4) Nos anos 90 a Holanda estava com a criminalidade altíssima. Estudou formas de combater a criminalidade, reformou o sistema penal e carcerário e 20 anos depois fechou 14 prisões por falta de prisioneiros. 
5) Menos de 1% dos crimes praticados no país são por jovens de 16 a 18 anos. 
6) o Brasil faz de tudo pra copiar os EUA. Logo, logo vai quebrar a cara. Aliás, EUA também tem criminalidade altíssima.
7) eu não faço a menor ideia como esse projeto avançou até agora. Ele é claramente inconstitucional, violando cláusula pétrea. Mas, enfim. 
8) dia desses, em Brasília, sumiu uma quantia de um estabelecimento num condomínio, Queriam porque queriam culpar o filho de uma trabalhadora doméstica que estava por lá. Chamaram o menino de criminoso e tudo, queriam ver a caveira dele. Aí descobriram que quem havia roubado foram filhos de moradores. Virou 'brincadeira inconsequente de crianças'. Caso encerrado. 
Querem mais argumentos?"
 

sábado, 25 de abril de 2015

GUEST POST: UM POUCO SOBRE O GAMERGATE

Nunca publiquei nenhum post sobre o Gamergate, um "movimento" misógino que serviu de pretexto para vários nerds marcarem seu território. Um leitor, I., escreveu este enquanto teve um blog sobre games:

Em meados do ano passado, um ex-namorado acusou Zoe Quinn, produtora de games indie, de tê-lo traído com cinco homens simultaneamente e colocou na internet as conversas que tinha como “prova” de sua traição. Com isso, ela foi fortemente xingada por uma horda de gamers por ter feito o "golpe do sofá" (um dos homens é jornalista de um site de games). Eles justificaram a onda de assédio como uma luta pela “dignidade contra a corrupção da imprensa de games”.
Uma das criações de Quinn, Depression Quest, foi atacada nos fórums da Steam (site onde o jogo é baixado) e da Metacritic (site onde se avalia jogos) por causa da vida sexual dela. E considerando que o jogo funcionaria como um simulador de depressão, algo muito distante dos jogos ultra-explosivos como Call of Duty e Battlefield, também foi acusado pelas mesmas pessoas de “não ser um jogo”, já que não é de seu gosto.
A acusação do golpe do sofá é absurda porque o jornalista com quem ela dormiu nunca escreveu publicamente e muito menos publicou crítica positiva sobre o jogo. O próprio ex-namorado nunca a acusou de ter dormido em troca de crítica positiva.
Muitos babacas da internet adoram falar do golpe do sofá como prova de que a sociedade é matriarcal (leia-se: para um homem é preciso trabalhar muito para conseguir uma promoção, enquanto para a mulher é só fazer sexo com o patrão), mas esquece que para esse golpe funcionar é preciso que a sociedade seja patriarcal, ou seja, que o patrão seja um homem (sim, há patroas que fazem golpe do sofá com funcionários, mas isso é mais raro que mico-leão-dourado), e que isso reforça a ideia de que o único poder que a mulher tem é sexual.
Agora eu vou tirar o elefante do armário: a acusação sobre a “corrupção da imprensa de games”. Eu preciso falar uma coisa que deve parecer óbvia para quem tem um grau mínimo de inteligência: essas pessoas que ficam xingando Zoe Quinn por sua traição NÃO estão lutando pela dignidade do jornalismo de games, eles estão apenas arranjando uma desculpa esfarrapada para praticar o seu hobby favorito da internet (além dos games) que é xingar de vadia qualquer mulher que tenha uma vida sexual ativa. Aliás, seu hobby de xingar qualquer mulher. Ponto.
Vamos ser sinceros: se nós invertêssemos os gêneros, ou seja, um homem ter traído a sua namorada para ficar com uma outra que trabalha dentro do ramo de games, todo mundo estaria parabenizando ou endeusando o cara por ter “passado o rodo geral” e ainda ter conseguido ficar com uma garota que gosta tanto de games que até trabalha lá dentro.
O jornalismo de games tem milhões de problemas, mas a corrupção é apenas uma delas. A falta de experiência e o excesso de paixão pela mídia são fatores que pesam mais nas quantidades absurdas de notas altas nas críticas de games do que a famosa acusação de propina que as grandes corporações dariam para os críticos (não que isso não exista).
Os “milhões” de problemas podem ser resumido a dois fatores: a de os jornalistas serem dependentes das desenvolvedoras multinacionais de games e a de seu público-alvo não querer que videogames sejam levados a sério (apesar de eles sempre falarem o contrário). Quando alguém fala que quer que videogames sejam levados a sério, geralmente está querendo dizer que A PESSOA quer ser levada a sério por jogar videogame.
Não conheço uma única pessoa conhecida nacionalmente (sub-celebridade, blogueiro ou jornalista de games) no ramo de games que não tenha uma ideologia ultra-conservadora. Eu queria ser esse contraponto. Após começar o blog, constatei que o real motivo de a imprensa de games de uma forma geral não funcionar é a de que não existe um público sustentável para se debater filosoficamente sobre um jogo em questão.
Halo seria uma alusão ao neonazismo? Call of Duty funcionaria uma propaganda pró-guerra que serviria aos interesses norte-americanos? Kratos realmente precisaria de um psiquiatra? Bioshock Infinite seria mais um jogo a ter “donzelas em perigo”? Bayonetta e Lollipop Chainsaw poderiam ser considerados jogos feministas? O “Deus” do Reino dos Cogumelos seria uma mulher? Saints Row poderia ser considerado uma franquia progressista? Será que, apesar de ser anti-climático, Mass Effect 3 teria um bom arco narrativo? Arkham City seria sexista por ter vilões que constantemente chamam a heroína de “vadia”?
Todas essas questões serviriam para filosofar por horas e horas. Porém, não é isso que vemos em sites e fórums de games. O que vemos é uma enxurrada de trailers, teasers e reviews que se dizem críticas. É isso que o pessoal quer: saber o que terá no jogo, se valerá a pena jogar e mais nada. E depois quer que as pessoas que não jogam videogames levem isso “a sério”.
Não é importante para o jornalista questionar a moralidade ou a filosofia de um jogo porque, apesar de o seu público-alvo não se interessar nisso, o questionamento pode quebrar a “relação” que tem com a empresa e ela pode se recusar a fornecer as preciosas informações.
Se esse é um problema em países onde geralmente estão sediadas as tais empresas (EUA e Japão), imagina no Brasil. Aqui, se a sua franquia não for PES, FIFA, Call of Duty, Battlefield ou GTA, a sua visibilidade na imprensa de games é praticamente zero. Para a Nintendo só se dá destaque porque muitos dos nossos jornalistas cresceram jogando alguma coisa da Nintendo e, mesmo assim, eles falam sobre a empresa da mesma maneira que falariam sobre um vídeo da Galinha Pintadinha: com muita distância e achando que seu público-alvo é formado por bebês.
Estou ciente que não posso culpar os nossos jornalistas pela péssima clientela que tem, mas o que eu posso fazer é pedir por uma mudança drástica no comportamento de vários que se intitulam gamers. Não estou pedindo para que todos se transformem em filósofos mas, pelo menos, parem de ter uma posição raivosa contra qualquer coisa que seja contra vocês. 
Peço para que extirpem qualquer sinal evidente de machismo, racismo e homofobia para poder, enfim, serem levados a sério. Nem todo mundo que é contra algum elemento de um jogo é um fundamentalista religioso que quer banir os videogames para sempre; só estamos fazendo críticas construtivas para fazer o mundo dos games mais diverso e, consequentemente, MELHOR.
Enquanto isso, estou à espera de algum jornalista de games ou blogueiro brasileiro que se dedique integralmente à justiça social no mundo dos videogames. Nós estamos precisando.