terça-feira, 23 de setembro de 2014

GUEST POST: ODEIO SER MÃE

Num post de uma leitora que estava sentindo-se pressionada a ser mãe, apareceu a menção a um blog que ocasionalmente fala que a maternidade não é nenhum mar de rosas. 
A J., autora do blog, decidiu entrar em contato comigo e me enviou seu relato:

Olá Lola! Costumo ler seu blog de vez em quando e qual a minha surpresa quando vejo que estou sendo mencionada em alguns comentários. Já tinham me dado a sugestão de escrever para você, mas eu sou muito tímida e na época tinha sofrido uns ataques de um tal de fórum mascu ou coisa que o valha. Em suma, não estava a fim de mais gente me insultando, mas agora sinto-me um pouco melhor para expor-me aqui.
Eu sempre quis ser mãe, brinquei de boneca até os dezessete anos, todas as minhas amigas diziam que eu era do tipo que ia casar primeiro e ter filhos. Apesar de desejar ser mãe, não tinha a intenção de engravidar cedo, porém as coisas mudaram quando conheci meu marido, trinta anos mais velho do que eu. Vivemos no início um romance à distância, nos víamos uma ou duas vezes no ano e só fui finalmente morar com ele depois de ter terminado a faculdade.
Quando passei a viver em Portugal sentia-me muito sozinha e a vontade de ser mãe começou a aflorar. O problema era que meu marido havia feito vasectomia, pois já tinha dois filhos adultos e não desejava mais embarcar nestas aventuras. Ele conseguiu segurar meu desejo por três anos, quando resolvemos fazer uma fertilização in vitro que acabou por dar errado. Eu chorei, resolvi me dedicar a outras coisas, trabalho voluntário, voltei a fazer faculdade, desta vez o curso que eu sempre me identificara. Mas ao mesmo tempo, me inscrevi em um hospital público do Porto, fui às consultas, repeti os exames, e exatamente um ano depois do primeiro tratamento, eu  estava esperando ansiosa pelo exame de sangue. 
Naquele dia, na véspera de Natal, descobri que estava grávida. Nossa, foi uma alegria só! Resolvemos guardar segredo para a família durante os três primeiros meses e como um mau presságio, passei-os em cima da cama com sangramentos e risco de aborto.
A gravidez foi completamente diferente do que tinha imaginado: eu super ativa, em forma, vi-me transformada em uma gelatina ambulante, engordei muito, tinha várias mudanças de humor, mas na maior parte do tempo sentia-me triste e angustiada. "Será que vou amar este filho? Quando será que vou ser arrebatada por este amor tão forte e incondicional de que as mães tanto pregam?"
Ele nasceu de parto normal, senti-o saindo de meu ventre, escorregando pela minha vagina. Pari um filho, mas não pari o tal amor incondicional. Ele não veio em um pack junto com um choro estridente. Olhei para ele e não senti nenhuma paixão especial, só estranheza.  
Depois de um mês minha mãe foi embora, meu marido continuava a trabalhar (ele não tinha direito a férias nem licença) e eu fiquei sozinha com um recém nascido. Encolhi-me. Estava restrita a uma cama de casal e assim fiquei por três meses. Fazia as coisas automaticamente, cuidava, dava banho, amamentava. No fundo esperava, mas esperava o quê? Alguma mudança para melhor em minha vida, quando será que ela começaria a ter realmente algum significado? 
Hoje reconheço que tive depressão pós parto. Não sei ao certo quando iniciou; no entanto, quando percebi estava imersa em pensamentos horríveis. Tive medo de mim. Era como se ouvisse vozes sussurrando para fazer mal ao meu filho. Tinha momentos em que olhava para a moleira dele pulsando e sentia-me hipnotizada, imaginava uma faca transpassando-lhe. Outra vez, quando voltava da consulta semanal no posto de saúde, avistei um caixote de lixo e imaginei-me a colocá-lo lá e sair andando. 
Eram pensamentos tão pavorosos que eu tinha vontade de morrer antes de concretizar qualquer coisa. Contei ao meu marido, mas ele não levou muito a sério e sequer desconfiava o quanto eu estava enlouquecendo aos poucos. O meu refúgio foi a comida, comi, comi, comi até engordar os dez quilos que tinha perdido após o parto. Eu só saía da cama para questões biológicas e dar banho no bebê, o resto tudo eu fazia nela, almoçava, via TV, embalava-o e o amamentava. O que me tirou deste torpor foi a vinda da minha sogra e a posterior ida ao Brasil para que a família o conhecesse.
Meu filho sempre foi uma criança exigente. Nunca sequer ficou em uma espreguiçadeira, balancinho ou bebê conforto que fosse mais que o tempo de perceber que estava sozinho. Por consequência, eu não tinha como tomar banho ou fazer qualquer tarefa doméstica se não fosse ao som de gritos. Tinha momentos que eu começava a chorar também e às vezes aproveitei os gritos dele para dar os meus, enquanto soluçava sozinha no quarto. Eu tinha raiva de quando me diziam que isto era a melhor coisa que podia acontecer a uma mulher. 
O quê? Fraldas, cocôs, choros, noites sem dormir? Sentia-me sugada e velha como uma meia murcha. Todas as necessidades que importavam eram as do bebê. A perda da identidade talvez tenha sido a que até hoje custa-me recuperar. Mesmo contando isto agora, parece-me que foi em outra vida. Acho que o sofrimento psicológico foi tão grande para mim que as memórias ainda me vem meio que anuviadas como se não fossem totalmente reais. 
Não era possível que eu estivesse tendo uma experiência completamente diferente do que todos me falavam. Doía-me ver qualquer coisa que tivesse a ver com a exaltação da maternidade, qualquer mãe que me dissesse as maravilhas que sua vida tinha se tornado, qualquer propaganda de dia das mães... Ah, o dia das mães, eu tinha raiva que me parabenizassem, que me marcassem em fotos do Facebook, que me perguntassem como andava minha vida agora que finalmente "descobri" o que é o amor. Decidi então que a melhor forma de lidar com isto era interpretar uma personagem, aquiescer com as verdades sóbrias da maternidade-sacrifício e dar-me por vencida nesta luta interior para ser eu própria.
A maior parte do tempo, criei meu filho longe da família (o que em termos de críticas por um lado foi bom), sem apoio a não ser do meu marido -- que ajuda bastante e, por incrível que pareça, tem muito mais paciência do que eu.
Escrevi aquele desabafo no meu blog (único lugar em que me permiti tal fato), que era até aquele momento pouquíssimo lido, talvez por meia dúzia de amigas virtuais que me acompanharam desde a infertilidade em um fórum português. Como não tinha os comentários moderados, não sabia que havia tantos acessos, até me deparar com mais de uma dezena de comentários certo dia. 
Pois então, eu odeio ser mãe, me saiu pelos dedos em um momento de desespero, depois de tanto tentar absorver meus sentimentos com relação à maternidade. Eu sabia que filho dava trabalho, que ia me varrer noites em claro, que ia me tirar (quase) toda a liberdade e que em alguns momentos me faria desejar atirá-lo ao Tejo. Eu sabia. Mas depois de citarem a via crucis materna, elas diziam no final que compensava. Todos os sacrifícios compensavam. Ninguém nunca havia se arrependido de ser mãe, por que eu haveria? No início achei-me um monstro, pensava que se eu não conseguisse sentir aquele amor arrebatador pelo meu filho então eu era um lixo, não valia nada. E com culpa, admiti em silêncio que gostava mais do meu marido do que do meu próprio filho.
Quando eu digo que odeio ser mãe, não quer dizer que eu seja negligente: eu cuido dele, leio e brinco, educo, xingo, interesso-me pelo percurso escolar, levo a passear como qualquer mãe. Resolvi ficar com ele em casa até ele completar um ano porque achava importante ele ter esta maior atenção que não teria em uma creche, mas senti-me imensamente feliz quando voltei à faculdade. Fomos pegos pela crise de Portugal, voltamos ao Brasil por mais de um ano e agora estamos em outro país. E novamente sozinhos, eu e ele. Meu marido está na outra ponta da França, em um novo emprego que se der certo, provavelmente voltaremos a morar juntos em três ou quatro meses.
Acho muito bom que meu blog, apesar de não ter a intenção de focar apenas na maternidade, seja conhecido por mais mães que permanecem na penumbra e no anonimato, e só de lerem ou desabafarem este sentimento, saem de lá mais leves. Admito sem dúvida que, se pudesse, voltava atrás nesta decisão. 
Tem um filme do Nicolas Cage, Homem de Família, que explica bem o que penso, mas o meu caminho seria o oposto ao que ele escolheu. As pessoas julgam e desejam coisas terríveis para nós e no entanto, conheço tantas histórias de super mães de Facebook e fóruns de puericultura que não fizeram as opções que fiz nem se sacrificaram como eu, uma mãe que fica quase 24 horas com o filho, que está há mais de um ano sem uma escapadinha a dois, mas ainda se acham no direito de criticar e insultar. 
Cada um sabe como vive a sua vida entre paredes, e como dizem os portugueses, "quem está no convento é que sabe o que lhe vai dentro". Mas eu acho fundamental que seja dito que o tal amor incondicional materno não é uma verdade incontestável. Sendo muito mais uma construção do que um toque de mágica. Há mulheres que o sentem, e fico feliz por elas. Mas não há unanimidade neste cenário. Nem sempre, nem para todas, vale a pena ou compensa ser mãe.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

UM DEBATE SOBRE PROPAGANDA ERÓTICA

Semana passada participei de um debate interessante na Publicidade da UFC.
Uma equipe de alunos da disciplina Laboratório em Publicidade desenvolveu uma campanha para uma doceria (fictícia?) chamada Deleite. O tema dessa campanha era apelo sexual e erotismo, para testar os limites. No primeiro momento, a equipe postou peças com mensagens eróticas mais suaves nos corredores daquele prédio da universidade. 
Depois foi intensificando, deixando o conteúdo cada vez mais agressivo, sempre associando mulher a algo comestível. A reação dos alunos foi variada, como sempre: alguns ficaram indiferentes, acharam que não era nada demais. Uns ignoraram, outros gostaram. E alguém afixou um cartaz escrito à mão onde se via "Doceria machista" (parabéns, meninas!).
No último momento, a equipe inventou que a campanha foi interditada pelo Conar, órgão regulador da propaganda no Brasil. Eu comentei com a professora que eu duvidava muito que o Conar proibisse aquela campanha, mas ela achou que proibiria sim. (Agora que vi a peça, vi que eles alegaram suspensão da doceria pelo Ministério Público). 
De toda forma, foi um teste bem bacana, que mexeu com o pessoal. E, pra finalizar, a equipe organizou um debate. Chamou o diretor de uma agência, a gerente de uma sex shop, e euzinha que vos fala.
O diretor de uma das maiores agências de propaganda do Ceará (recebeu o título de agência do ano em 2013) começando mostrando algumas peças produzidas por ele. Uma era de um tocador de dvd que abria e fechava, cada vez mais rápido. 
Outra -- segundo o diretor, o comercial mais premiado da história cearense -- é de um lubrificante íntimo. Mostra um palito de dente quebrado, parecendo duas pernas. Uma gotinha é posta em cima do palito, e as "pernas" se abrem.
Noutro comercial, este para um motel, um funcionário da limpeza passa o aspirador num museu, quando percebe que dois quadros (um de uma mulher nua, outro de um homem de terno e gravata) estão juntos, empilhados. Ele separa os quadros, mas eles se aproximam novamente. A mesma campanha tem um outro comercial, desta vez com um porta-retrato de Van Gogh entre dois quadros de nus femininos.
Num comercial da agência para outro motel que tem suítes temáticas, vemos uma mulher sem rosto, de quimono, tocando um instrumento. Há várias versões, uma para cada suíte.
O diretor também exibiu diversos outdoors feitos para aquele motel. Por exemplo, para a suíte inglesa, a chamada era "Pontualidade britânica. Venha tirar o atraso". Para a suíte italiana, o usado-à-exaustão "Quem tem boca vai a Roma". Para a suíte americana, um "Yes! Yes! Yes". Tudo bem. Mas qual a chamada pra suíte japonesa? "No Japão você come com dois pauzinhos". Essa peça foi a que mais recebeu risos dos alunos presentes que lotavam a sala.

Quando foi a minha vez de falar, eu elogiei as campanhas da agência, que anunciavam produtos relacionados a sexo (motéis, lubrificantes, vídeos eróticos) sem apelar para a cansativa objetificação da mulher.
Falei que as peças eram boas, "com exceção do outdoor pra suíte japonesa, que é racista". O diretor ficou ofendidíssimo com a acusação. Disse que a maldade estava nos meus olhos. Eu expliquei que associar japonês com pênis pequeno é racismo, assim como associar negro com pênis grande também é. E que eu tinha certeza que ele fez essa associação ao falar de "pauzinhos" pra suíte japonesa.
Expliquei também que, embora eu tenha sido redatora publicitária em outra reencarnação, a propaganda em geral, do jeito que é feita, se choca com os movimentos sociais, principalmente com o feminismo. Afinal, a publicidade trabalha com estereótipos para passar mensagens rapidamente identificáveis, enquanto o feminismo questiona e desconstrói esses mesmos estereótipos.
Eu também disse que o feminismo ensina a ver o mundo com outros olhos. Tipo: a gente vai a um museu (como o museu mostrado no comercial do motel) e nem percebe que quase todas as representações femininas são de mulheres nuas. E que quase todos os artistas que pintaram essas mulheres eram homens. 
Mencionei a excelente campanha de um movimento chamado Guerrilla Girls, que luta contra o sexismo nas artes. O que elas falam é basicamente que a única forma de uma mulher entrar num museu é tirando a roupa. Porque menos de 5% das artistas na seção de arte moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.
Ninguém precisa cursar Publicidade ou trabalhar na área para perceber que o corpo feminino é usado pra vender tudo e qualquer coisa. No debate, citei o caso de uma revendedora de motos, que ano passado pôs uma moça de shortinho e os dizeres "Compre que eu dou pra você". Abaixo, em letras diferentes, menores, vinha o que a mulher iria dar: o emplacamento grátis. Só isso já deixava evidente que o consumidor-alvo não era o público feminino.
Mas eu fiz mal em mencionar esse exemplo, porque o diretor da agência ficou com ele na cabeça. Pelo jeito, era o único modelo de anúncio machista que ele tinha ouvido falar. E o debate enveredou por uma direção que, valha-me deus, viu? Dali em diante o cara não falou mais nada minimamente inteligente. Ele disse que mulheres bonitas tinham que ser mostradas, porque é natural, todo mundo gosta, é assim que as coisas são, foram e sempre serão. Mas que isso não queria dizer que as mulheres deveriam sair com pouca roupa pra rua. Nessa hora o público se manifestou com um murmúrio de indignação coletiva (alunos homens inclusos).
O diretor tentou explicar que ele não via nada de errado em mulher com pouca roupa e "homens bem vestidos", mas que era perigoso pras mulheres saírem com roupa provocante, porque elas seriam atacadas na rua. Nesse momento eu tive que interromper pra apontar que eu era o completo oposto daquele cara. E não só porque ele é moralista. Nossa principal diferença é que ele acha que as coisas são naturais, e eu tenho certeza que são construções sociais. Ele vive para reafirmar o senso comum, e eu, para questioná-lo.
Ele me mostrou no celular dele um vídeo que ele considerava vulgar. Era de alguma mulher dançando funk. Eu percebi que ele, e vários alunos, consideravam que havia muita mulher objetificada na propaganda porque... elas queriam! A culpa era toda delas. Elas que se submetiam a isso. 
Eu não acreditava no que ouvia: essa galera pensa que a atriz de um comercial manda alguma coisa naquele comercial? Que foi ela quem criou o comercial? O diretor até deu um exemplo: e se a Gisele Bundchen quisesse fazer uma campanha super erótica com ela mesma, não pode? (como se a Gisele fosse criadora dos comerciais que faz! E isso vindo de um cara que tem uma agência!).
Infelizmente, uma aluna fez uma pergunta muito equivocada. Ela queria saber se a nudez feminina não era mostrada por tabu nosso, das mulheres. Que se a gente não visse como um tabu, se encarasse numa boa, não haveria nenhum problema. Eu respondi que, pra começar, não é tabu mostrar mulher nua. Tanto que a nudez feminina é mostrada a torto e a direito. Mas que a colocação dela me lembrava essas do pessoal que diz que "racista é quem protesta contra o racismo", que é um pessoal que acredita que racismo não existe, e se incomoda quando alguém fala o contrário.
Uma outra aluna (acho que se chama Gabriela), no entanto, foi no ponto, e perguntou pro diretor por que ele era contra mulheres com pouca roupa nas ruas, mas a favor de mulheres com pouca roupa na publicidade. O cara não soube responder, foi grosseiro com a menina, e depois teve que pedir desculpas, alegando o stress dos últimos dias.
Foi também muito legal um aluno mencionar a campanha dos homens pin-ups, já que isso serve para desconstruir estereótipos. Por que achamos ridículas essas poses para homens, mas não para mulheres?
Agora já esqueci as muitas outras asneiras que o diretor falou. Uma foi que ele ficou indignado quando, dez anos atrás, a Globo deixou de passar um prometido beijo gay no final de uma novela, então ele quis fazer um comercial que mostrasse esse beijo. Porém, segundo ele, não encontrou dois rapazes dispostos a se beijarem diante das câmeras. Sua conclusão foi que os maiores homofóbicos eram os próprios gays.
Eu perguntei pra ele se não podia ser que os rapazes não quisessem se beijar por medo da reação de uma sociedade homofóbica, e não porque eles fossem homofóbicos. O diretor respondeu que podia ser isso também.
Alunos do 6o semestre, responsáveis
pela campanha da Deleite
Na minha hora de concluir, eu tive que falar que não estava muito acostumada a ouvir aquele tipo de discurso ao vivo. Na internet é o habitual, lógico, mas no meu dia a dia, no trato com alunos, eu lido com gente disposta a pensar, de mente aberta, jovens críticos e questionadores.
Espero não ter sido muito grossa.

domingo, 21 de setembro de 2014

CURSINHO DE PRECONCEITO EM FORMA DE PIADA

Sobre piadas preconceituosas nos cursinhos (e o combate a elas), surgiram muitos comentários interessantíssimos:

"No ensino médio, eu tive um professor de história que era excelente. Engraçado, divertido, sabia prender nossa atenção e... pasmem! Não fazia piadas preconceituosas. Meldels, como pode alguém conseguir ser divertido e engraçado sem apelar pra piadinhas racistas/ homofóbicas/ machistas/ whatever? Ele conseguia. É uma questão de usar inteligência, criatividade, de saber inovar e pensar em formas diferentes de fazer humor. Tem que usar a cabeça, os neurônios, raciocinar. Quem não tem nada disso, apela pra essas piadinhas idiotas porque são mais fáceis. 
Agora vai aparecer um monte de reacinha mimado falando que não pode fazer piada com mais nada, mimimi, estão acabando com o humor, mimimi, politicamente incorreto está estragando tudo, mimimi... porque na cabeça desse povo, a única forma de humor que existe é aquela que ofende as pessoas. Parece que seus cérebros minúsculos não podem pensar em nada diferente disso. 
E na boa... desde quando fazer piada com grupos oprimidos é revolucionário e politicamente incorreto? Se não me engano, as pessoas vem fazendo isso há séculos, não tem nada de original nisso. Qualquer ameba consegue fazer esse tipo de humor e qualquer ameba é capaz de rir dele." (Mallagueta Pepper)

"Eu tive uma experiência bastante ruim no que se refere a preconceitos. Mas eu precisava tanto das aulas (só fazia porque tinha bolsa) que seguia em frente, um dia de cada vez. 
Uma vez teve um professor que resolveu brigar com um aluno que o provocava. O sujeito o xingou de 'filho da puta' e disse 'sua mãe está dando'. Claro, porque pra ofender um homem é a sexualidade da mãe dele que vira alvo.
Acho que o mais grave que aconteceu comigo foi um professor (o mesmo que havia achado surpreendente eu responder algo certo por ser mulher) ter me coagido a dar um beijo num moleque aniversariante. Eu não queria; mas ele insistiu tanto, disse que era só um 'ósculo', e eu acabei beijando só pra aquele tormento acabar. Hoje percebo que isso foi um abuso." (Patty Kirsche)

"Quando eu fiz cursinho, na Fortaleza do ano 2000, um professor de literatura ao 'analisar' o conto 'Preciosidade', de Clarice Lispector, disse: 'se eu passasse em um beco de madrugada e encontrasse uma mulher, eu também dava pelo menos uma dedada... Quem não daria, se não tivesse ninguém olhando?'. Aquilo me causou profundo mal-estar de imediato, e me senti bem pior quando a maior parte da sala riu. Nunca esqueci. Obviamente, hoje, eu não me calaria como me calei (e baixei a cabeça) há 14 anos." (Anônimo)

"No Anglo Tamandaré, as piadas preconceituosas eram frequentes e até incentivadas pelos professores. Lembro como era humilhante ouvir a sala toda cantando a 'música da visita', destinada a garotas de outras salas que vinham assistir à aula de determinado professor. Era uma letra cheia de xingamentos e convites a situações de caráter sexual. Imagine ouvir vários garotos cantando isso enquanto batem nas carteiras e olham pra você com olhar de deboche. Eu tinha que abaixar a cabeça enquanto ouvia 'senta na ponto do meu pau' em coro. Para muitos era apenas uma brincadeira, uma piada. Para mim e para tantas outras garotas, era humilhante." (Lidia)

"Eu tive um professor de matemática que vivia fazendo piadas preconceituosas. Humilhava especialmente um aluno que tinha cabelos crespos dizendo que a mãe dele devia gastar dinheiro demais com fronhas novas já que o cabelo dele rasgava todas. O surpreendente é que a própria turma se rebelou contra o professor e formalizou uma reclamação na direção, e o cara parou de palhaçada. Foi a melhor turma em que estive, nenhum colega sofria bullying! Estudei nessa escola só um ano porque era cara demais, mas foi uma experiência legal. Mais do que conteúdo eu aprendi muito sobre respeito!" (Anônimo) [Eu: adorei este comentário porque ele mostra como alunos muitas vezes fazem bullying "inspirados" por professores].

"Em um cursinho pré-vestibular eu tive um professor que foi precursor do Marco Feliciano. Ele disse que quando Noé amaldiçoou Cam, a pele dele se tornou negra e os cabelos ficaram crespos (não sei de onde ele tirou isso), e que a religião Candomblé tem origem nisso, no filho amaldiçoado Cam, de Candomblé (muita ignorância e burrice juntas).
Um professor de geografia tão ignorante, que não sabe que uma palavra (Cham) tem origem no hebraico e nada tem com a palavra do continente africano de origem Bantu. Mas com certeza ele gostou dessa versão (por ser racista) e a adotou, sem procurar saber se era verídica. 
Mas ensinar em um cursinho pré-vestibular, enquanto ensinava sobre etnias é brincadeira. Claro que ele usou o famoso: 'de acordo com a Bíblia (uma grande mentira)'. Como aquilo me magoou, ainda mais quando lembro da expressão de deboche racista dele ao contar isso!
Pena que eu não tinha conhecimento para debater com ele na época. Fiquei chocado, mas sem saber o que responder." (Eduardo Nobre)

"Eu tive um professor de Literatura no cursinho que dava a melhor aula de todas que eu já tive na vida. Nunca precisou fazer piada com quem já era pisado todo dia. Eu fechava o livro e viajava nas palavras dele. Sensacional.
Em compensação, o professor de matemática, no primeiro dia, antes de começar a aula, 'provou' que mulher = problema. Eu, no alto dos meus 18 anos, nunca tinha namorado, poucos amigos, fiquei sem entender o porquê de eu ser um problema." (Luiza Original)

"Olha, Lola, faço cursinho no Anglo da Sergipe e posso dizer que o preconceito continua firme e forte lá. Mostrei a matéria da Folha pra uns colegas e todos a acharam ridícula e desnecessária. Antes de começar o cursinho ouvi de diversos amigos que os professores eram brilhantes, e foi impossível não me decepcionar quando comecei a perceber os preconceitos. 
A minha impressão é de que as aulas são ministradas por homens (brancos, heterossexuais, cis, de classe média-alta, o bonde da opressão todo) para garotos idem, durante as quais eles gostam de zoar aqueles seres não tão importantes: as mulheres, os homossexuais e os negros. Coisa mais comum é ouvir os profs falando coisas machistas e logo depois completar 'imagina, hein, não sou machista, é só brincadeira'. Já o racismo parte só dos alunos mesmo. Os que se incomodam com essas 'piadas' são minoria absoluta e, claro, sempre vistos como chatos estraga-prazeres." (Anônimo)

"Eu adorei ler essa notícia, trabalhei como professora de línguas em cursinhos e era um ambiente horrível. A maioria dos professores é homem e, pelo menos na época, muito machistas mesmos, não todos, felizmente. Uma vez uma amiga foi me substituir e ficou horrorizada: 'como você aguenta?'. Eu não passava muito tempo na sala dos professores para não ouvir as gracinhas, sim, além das salas de aula tinha também a sala dos professores. Eu fico muito feliz com esses jovens que reagem, que não engolem o preconceito. É bom pra todos, até para o próprio professor aprender que isso não é legal, pensar duas vezes antes de soltar a bobagem. " (Leila)