domingo, 21 de setembro de 2014

CURSINHO DE PRECONCEITO EM FORMA DE PIADA

Sobre piadas preconceituosas nos cursinhos (e o combate a elas), surgiram muitos comentários interessantíssimos:

"No ensino médio, eu tive um professor de história que era excelente. Engraçado, divertido, sabia prender nossa atenção e... pasmem! Não fazia piadas preconceituosas. Meldels, como pode alguém conseguir ser divertido e engraçado sem apelar pra piadinhas racistas/ homofóbicas/ machistas/ whatever? Ele conseguia. É uma questão de usar inteligência, criatividade, de saber inovar e pensar em formas diferentes de fazer humor. Tem que usar a cabeça, os neurônios, raciocinar. Quem não tem nada disso, apela pra essas piadinhas idiotas porque são mais fáceis. 
Agora vai aparecer um monte de reacinha mimado falando que não pode fazer piada com mais nada, mimimi, estão acabando com o humor, mimimi, politicamente incorreto está estragando tudo, mimimi... porque na cabeça desse povo, a única forma de humor que existe é aquela que ofende as pessoas. Parece que seus cérebros minúsculos não podem pensar em nada diferente disso. 
E na boa... desde quando fazer piada com grupos oprimidos é revolucionário e politicamente incorreto? Se não me engano, as pessoas vem fazendo isso há séculos, não tem nada de original nisso. Qualquer ameba consegue fazer esse tipo de humor e qualquer ameba é capaz de rir dele." (Mallagueta Pepper)

"Eu tive uma experiência bastante ruim no que se refere a preconceitos. Mas eu precisava tanto das aulas (só fazia porque tinha bolsa) que seguia em frente, um dia de cada vez. 
Uma vez teve um professor que resolveu brigar com um aluno que o provocava. O sujeito o xingou de 'filho da puta' e disse 'sua mãe está dando'. Claro, porque pra ofender um homem é a sexualidade da mãe dele que vira alvo.
Acho que o mais grave que aconteceu comigo foi um professor (o mesmo que havia achado surpreendente eu responder algo certo por ser mulher) ter me coagido a dar um beijo num moleque aniversariante. Eu não queria; mas ele insistiu tanto, disse que era só um 'ósculo', e eu acabei beijando só pra aquele tormento acabar. Hoje percebo que isso foi um abuso." (Patty Kirsche)

"Quando eu fiz cursinho, na Fortaleza do ano 2000, um professor de literatura ao 'analisar' o conto 'Preciosidade', de Clarice Lispector, disse: 'se eu passasse em um beco de madrugada e encontrasse uma mulher, eu também dava pelo menos uma dedada... Quem não daria, se não tivesse ninguém olhando?'. Aquilo me causou profundo mal-estar de imediato, e me senti bem pior quando a maior parte da sala riu. Nunca esqueci. Obviamente, hoje, eu não me calaria como me calei (e baixei a cabeça) há 14 anos." (Anônimo)

"No Anglo Tamandaré, as piadas preconceituosas eram frequentes e até incentivadas pelos professores. Lembro como era humilhante ouvir a sala toda cantando a 'música da visita', destinada a garotas de outras salas que vinham assistir à aula de determinado professor. Era uma letra cheia de xingamentos e convites a situações de caráter sexual. Imagine ouvir vários garotos cantando isso enquanto batem nas carteiras e olham pra você com olhar de deboche. Eu tinha que abaixar a cabeça enquanto ouvia 'senta na ponto do meu pau' em coro. Para muitos era apenas uma brincadeira, uma piada. Para mim e para tantas outras garotas, era humilhante." (Lidia)

"Eu tive um professor de matemática que vivia fazendo piadas preconceituosas. Humilhava especialmente um aluno que tinha cabelos crespos dizendo que a mãe dele devia gastar dinheiro demais com fronhas novas já que o cabelo dele rasgava todas. O surpreendente é que a própria turma se rebelou contra o professor e formalizou uma reclamação na direção, e o cara parou de palhaçada. Foi a melhor turma em que estive, nenhum colega sofria bullying! Estudei nessa escola só um ano porque era cara demais, mas foi uma experiência legal. Mais do que conteúdo eu aprendi muito sobre respeito!" (Anônimo) [Eu: adorei este comentário porque ele mostra como alunos muitas vezes fazem bullying "inspirados" por professores].

"Em um cursinho pré-vestibular eu tive um professor que foi precursor do Marco Feliciano. Ele disse que quando Noé amaldiçoou Cam, a pele dele se tornou negra e os cabelos ficaram crespos (não sei de onde ele tirou isso), e que a religião Candomblé tem origem nisso, no filho amaldiçoado Cam, de Candomblé (muita ignorância e burrice juntas).
Um professor de geografia tão ignorante, que não sabe que uma palavra (Cham) tem origem no hebraico e nada tem com a palavra do continente africano de origem Bantu. Mas com certeza ele gostou dessa versão (por ser racista) e a adotou, sem procurar saber se era verídica. 
Mas ensinar em um cursinho pré-vestibular, enquanto ensinava sobre etnias é brincadeira. Claro que ele usou o famoso: 'de acordo com a Bíblia (uma grande mentira)'. Como aquilo me magoou, ainda mais quando lembro da expressão de deboche racista dele ao contar isso!
Pena que eu não tinha conhecimento para debater com ele na época. Fiquei chocado, mas sem saber o que responder." (Eduardo Nobre)

"Eu tive um professor de Literatura no cursinho que dava a melhor aula de todas que eu já tive na vida. Nunca precisou fazer piada com quem já era pisado todo dia. Eu fechava o livro e viajava nas palavras dele. Sensacional.
Em compensação, o professor de matemática, no primeiro dia, antes de começar a aula, 'provou' que mulher = problema. Eu, no alto dos meus 18 anos, nunca tinha namorado, poucos amigos, fiquei sem entender o porquê de eu ser um problema." (Luiza Original)

"Olha, Lola, faço cursinho no Anglo da Sergipe e posso dizer que o preconceito continua firme e forte lá. Mostrei a matéria da Folha pra uns colegas e todos a acharam ridícula e desnecessária. Antes de começar o cursinho ouvi de diversos amigos que os professores eram brilhantes, e foi impossível não me decepcionar quando comecei a perceber os preconceitos. 
A minha impressão é de que as aulas são ministradas por homens (brancos, heterossexuais, cis, de classe média-alta, o bonde da opressão todo) para garotos idem, durante as quais eles gostam de zoar aqueles seres não tão importantes: as mulheres, os homossexuais e os negros. Coisa mais comum é ouvir os profs falando coisas machistas e logo depois completar 'imagina, hein, não sou machista, é só brincadeira'. Já o racismo parte só dos alunos mesmo. Os que se incomodam com essas 'piadas' são minoria absoluta e, claro, sempre vistos como chatos estraga-prazeres." (Anônimo)

"Eu adorei ler essa notícia, trabalhei como professora de línguas em cursinhos e era um ambiente horrível. A maioria dos professores é homem e, pelo menos na época, muito machistas mesmos, não todos, felizmente. Uma vez uma amiga foi me substituir e ficou horrorizada: 'como você aguenta?'. Eu não passava muito tempo na sala dos professores para não ouvir as gracinhas, sim, além das salas de aula tinha também a sala dos professores. Eu fico muito feliz com esses jovens que reagem, que não engolem o preconceito. É bom pra todos, até para o próprio professor aprender que isso não é legal, pensar duas vezes antes de soltar a bobagem. " (Leila)

sábado, 20 de setembro de 2014

SUZANE, UMA SOBREVIVENTE DA MISOGINIA

No final de novembro do ano passado aconteceu um crime horrível. 
Suzane Jardim, uma jovem negra de 22 anos, ativista feminista, mãe de um filho de 4 anos, e estudante de História da USP, estava saindo pela terceira vez com o autônomo Luís Henrique Nogueira, de 27 anos. Por volta das três da madrugada, eles deixaram um bar em Diadema (cidade onde ambos moravam) para ir a um apartamento na Vila Mariana com Tito e Adelly, que haviam conhecido naquela noite.
Depois de um tempo no apartamento, Luis passou a agredir verbalmente Adelly, chamando-a de "piranha" e "puta". Suzane decidiu defender a mulher, e acusou Luis de ser um "machistinha". Luis a desafiou a colocar a cabeça para fora da janela e repetir. Suzane, sem se amedrontar, fez isso. Então ele agarrou os tornozelos dela e a jogou pela janela. Uma queda livre de no mínimo 9 metros.
Apesar de arremessada do quarto andar, Suzane sobreviveu. Quando a polícia chegou, Suzane, ainda consciente, contou que havia sido jogada. Luis Henrique disse que ela estava surtada, e a polícia registrou o crime como "queda acidental". Depois, provavelmente contando com a morte de Suzane, Luis alegou que ela havia tentado suicídio. Foi liberado e sumiu. 
Adelly fugiu quando a polícia veio. Encontrada dias mais tarde, relatou ao delegado que Luís havia jogado Suzane pela janela. Interrogado, Tito, o dono do apartamento, afirmou não ter visto o incidente, porque não estava no recinto. 
Suzane passou vários dias no hospital se recuperando da fratura de dez costelas, clavícula, bacia e perna, da perfuração de um pulmão, e de múltiplas hemorragias internas. Nos primeiros dias, precisou da ajuda de aparelhos para respirar. Assim que teve forças, contou o que aconteceu. Eu falei um pouco sobre isso tudo neste post.
Luis Henrique foi indiciado por tentativa de homicídio duplamente qualificado (motivo fútil e recurso que impossibilita a defesa da vítima). A prisão preventiva foi decretada, mas Luis não foi encontrado. Hoje foragido, ainda é procurado, dez meses depois. Há rumores de que ele esteja morando em Minas Gerais, usando documentos falsos. Por favor, se você o reconhecer pelas fotos, denuncie. Não só porque é terrível que uma tentativa de feminicídio fique impune, mas também porque um sujeito desses pode ser perigoso a outras mulheres. 
Publico aqui a carta recente de Suzane, uma sobrevivente da misoginia:

Caras pessoas,
Muitxs de vocês conhecem minha história. Diria até que grande parte dos meus contatos por aqui entraram em minha vida após meu caso se tornar público.
Para os que não acompanharam, relato aqui o ocorrido:
No dia 30 de novembro do ano passado sofri uma tentativa de assassinato covarde por parte de Luis Henrique Nogueira, 27 anos na época, morador de Diadema, cidade onde moro. 
O sujeito, com o qual estava saindo pela terceira vez nessa minha vida, me atirou da janela do quarto andar de um prédio localizado na Vila Mariana.
O motivo foi o fato dele não ter gostado, achado absurdo, uma afronta, por eu tê-lo enfrentado usando o termo "machistinha escroto". Fiz isso por ter me esgotado após uma noite aguentando atitudes machistas, violentas e de abuso direcionadas não só a mim como também à garota que nos acompanhava no dia.
Entrei em coma, fui levada de helicóptero ao Hospital das Clínicas com sério risco de falecimento. Sofri um hemopneumotorax (infiltração de sangue e ar no pulmão causada por perfuração), fraturas graves no quadril e fêmur, quebra de 10 costelas e outros problemas também da mesma gravidade. O responsável por isso, além de omitir socorro na hora, registrou a ocorrência como queda acidental, colocando no boletim que me joguei da janela em sua ausência.
Felizmente sobrevivi. Com muita dor, esforço e apoio de vocês, seja emocional, prático ou financeiro, pude literalmente me reerguer em um tempo extremamente rápido em relação a meus prognósticos. O ponto central desse texto é que por muito tempo me mantive calada. Fui machucada de modos absurdos pela imprensa que desde o início relativizou meu caso e a culpa do sujeito, tive que lidar com campanhas de apoio ao meu agressor da parte de pessoas da minha cidade, fora todos os problemas e dores físicas dilacerantes que eu jamais saberia colocar em palavras. 
Recentemente fui internada com uma pneumonia que não parecia nada grave; porém, como havia sofrido danos no pulmão nesse incidente, essa pneumonia tomou proporções absurdas e, mais uma vez, quase vim a óbito. Esse acontecimento me fez refletir sobre todas as sequelas que carregarei por toda minha vida graças a esse ato covarde, não só físicas como emocionais, e isso me deu uma força a mais para voltar a falar sobre o caso.
Não acredito em justiça. O sistema judiciário não está aí pra nos servir, muito menos se somos parte de um grupo oprimido. E mesmo que eu acreditasse nisso, a prisão jamais seria suficiente para que ele pague pelo que fez a mim. Se vou mexer com isso agora, não é por mim. Não é por minha dor. Não é por acreditar que com ele na prisão conseguirei paz ou terei algum tipo de vingança. Faço isso como ato político. Faço porque machismo existe e acho meu caso um exemplo claro do que ocorre com milhões de mulheres todo dia. Temos que nos sujeitar a humilhações e maus tratos para ter direito à vida e à paz. Temos que nos calar diante do opressor. Temos que pensar individualmente de modo egoísta se não quisermos sofrer.
Isso não está certo. Isso é absurdo. Enfrentei aquele homem e faria tudo de novo. Podem me chamar de burra por ter defendido a mulher que estava comigo e ter me revoltado. Fiquem à vontade. Não fiz isso por ela, na verdade. Fiz isso por mim, por minha autoestima, para meu amor próprio e até mesmo por minha segurança, por mais irônico que isso possa parecer. Ser conivente com aquela situação poderia ser sim um risco para mim no futuro e pensei sim nesse ponto naquele momento.
Hoje percebo o quanto minha história tem um poder mobilizador. Garotas de todo o Brasil vieram contar sobre seus casos, me contaram sobre como seus agressores estão livres, como foram humilhadas ao tomar a atitude de denunciar, me falaram do medo, da dor e do abandono. Senti a dor de cada uma e isso me fez perceber que não estamos sozinhas e que só o apoio mútuo entre todas pode nos fortalecer e empoderar. Agora que tenho saúde, após dez meses de reflexão, decidi me empenhar de corpo e alma em uma campanha para encontrar esse homem que pra mim representa a dor de toda mulher que anda por aí. E que é perigoso. 
Não sou uma pessoa rica, não tenho contatos na imprensa, não tenho influência alguma. Minha intenção é tornar isso tão grande quanto possa ser. Mostrar a cara desse machista para o maior número de pessoas que essa internet possa alcançar. Esse é um ato político em nome de todas as mulheres que morreram graças ao machismo. 
Suzane em marcha feminista
A todas as mulheres que não puderam provar o que sofreram. A todas as mulheres que foram tidas como culpadas, loucas, vitimistas ao tentar denunciar uma violência. A cada mulher que chorou em desespero com medo do amanhã. A cada mulher que a mídia expôs de modo leviano. A cada mulher que sonha em ser livre em um mundo seguro.
Levarei isso até o fim, nem que gaste toda minha vida e energia. Quanto mais divulgação melhor. Mascu tem que ser exposto. Agressor tem que ser exposto. Assassino tem que ser exposto. Divulguem, espalhem, entrem em contato, denunciem, se posicionem. Não apenas nesse caso, não apenas pra me ajudar a amenizar um pouco tudo o que sofri, não apenas por mim: comprar essa briga comigo é lutar por si mesma.
Obrigada.
Reportagem da Record em dezembro mostrou página no FB de Luis Henrique

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

GUEST POST: JOVEM, MULHER, TRANS, FEMINISTA. E CANDIDATA!

Eu com minha candidata à deputada estadual

Faz muito, muito tempo que peço um guest post pra Silvia, uma linda e querida estudante da UFC que foi presidente do Centro Acadêmico. Eu adorava ir às universidades de SP e dizer, toda orgulhosa, que nossa presidente era uma mulher trans. O pessoal geralmente respondia dizendo que falta superar muitos preconceitos para que eles possam chegar lá.
Nunca fui professora da Silvia (porque ela é de Letras Português), mas já tive o prazer de vê-la interromper minhas aulas várias vezes para se comunicar com as turmas. E como ela é comunicativa! Também já dividi uma mesa-redonda sobre feminismo com ela. Quando fui palestrar no congresso da União da Juventude Socialista, em dezembro do ano passado, em Brasília, ela não foi. Mas era impressionante como todo mundo a conhecia e gostava dela.
Apresento, portanto, minha candidata à deputada estadual no Ceará. Meu voto é dela. Vejam o que ela tem a dizer:

Olá, queridxs leitorxs do Escreva Lola Escreva! Sou Sílvia Cavalleire: jovem, mulher, transexual, feminista, estudante universitária e professora particular. Desde a minha infância, eu sentia que era muito mais feminina, mas não entrava em conflito com meu corpo masculino. Esse conflito surgiu na adolescência, quando eu queria ser entendida como menina e os outros achavam que eu era um menino querendo ser menina.
Fui educada em escola religiosa, o Colégio da Imaculada Conceição, no centro de Fortaleza. Lá eu aprendi valores que são muito importantes para as minhas lutas, dos quais destaco: respeito e amor a si e também ao próximo, compreender o outro para depois compreender a si próprio. Foi então que entendendo as limitações das pessoas, pude descobrir que eu era capaz de superar certos (pre)conceitos. No entanto, aos 16 anos, minha mãe conversou comigo já sabendo que eu queria ser “menina”. E determinou que enquanto eu fosse menor de idade e dependente dos meus pais, continuaria sendo “menino”.
Eu demorei bastante para me reconhecer como transexual. Eu sabia que queria crescer e ser mulher. Só não sabia que não era gay e sim, trans. Só depois de entrar na Universidade Federal do Ceará e conhecer um grupo chamado MOVELOS -– Movimento pela Livre Orientação Sexual, que aprendi sobre minha condição. Fiquei apaixonada pela luta pelos direitos humanos e por lutas de juventude, após me filiar à UJS -– União da Juventude Socialista.
Então, na virada de ano de 2010 para 2011, coloquei um vestido branco, salto, maquiagem, e nunca mais pus uma roupa de homem novamente. De certa forma, obriguei às pessoas a me reconhecerem como Sílvia. Enfrentei o preconceito da comunidade acadêmica que rejeitou o meu uso do banheiro feminino e não registrava o meu nome social nos documentos. Como liderança estudantil, fui eleita e reeleita presidente do Centro Acadêmico Patativa do Assaré dos cursos de Letras e Secretária de Direitos Humanos e Combate às Opressões do DCE da UFC. E neste ano, fui eleita presidente da UJS em Fortaleza.
Agora, estou candidata a deputada estadual para representar a juventude, as mulheres, o movimento LGBT, os negros, as pessoas com deficiência.
Quero defender na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, projetos de lei que fortaleçam a visibilidade dos movimentos sociais, principalmente daqueles em defesa dos direitos humanos. Acredito que, mesmo a PLC 122/2006 ainda não tendo sido aprovada, o estado do Ceará pode ser o primeiro do Brasil a ter delegacias especializadas para os crimes de homofobia, com curso preparatório e qualificatório fornecido pelo estado para os profissionais que trabalharem nessas delegacias. Também, podemos ter uma lei que garanta o uso de banheiros por travestis e transexuais de acordo com suas identidades de gênero, em ambientes públicos e privados.
E para que a sociedade avance no debate contra o machismo e a lgbtfobia, é urgente uma lei que inclua discussões de gênero e orientação sexual nos currículos disciplinares das escolas estaduais. Mas é claro que os professores estejam bem formados para não aproveitarem essas discussões para disseminar mais machismo e mais lgbtfobia.
É isso, gente! Espero que por todo o Brasil surjam diversas Sílvias; todas com muita coragem pra batalhar por uma sociedade que respeite os seus indivíduos e suas liberdades; com ousadia pra vencer cada debate, cada luta diária contra o machismo, o racismo e a homofobia; e com firmeza mas sem jamais perder a ternura! Peço o seu apoio e o seu voto para o 65651! Um beijo da Sílvia. VRÁÁÁ!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

GUEST POST: VALENTE, UMA NOVA PROPOSTA DE PRINCESA

Mãe (Rainha Elinor) e filha (Merida) nos traços de Raquel

Raquel Vitorelo fez sua pesquisa de iniciação científica pela PUC-SP sobre desconstrução dos estereótipos femininos em Valente (dá pra lê-la inteirinha aqui). Como ela é uma ilustradora de mão cheia, ela mesma enviou alguns desenhos.

Em todo lugar, vemos princesas. Nas mochilas das crianças, nos brinquedos, em filmes para todas as idades. Parte dessa obsessão está provavelmente ligada ao sucesso da própria Disney -– quando se pensa em princesas e contos de fada, logo se pensa no estúdio. Muita gente não sabe, mas a Disney deve muito de sua fama a Branca de Neve: Branca de Neve e os Sete Anões foi o primeiro longa-metragem produzido pelo estúdio, lançado em 1937 com um êxito gigantesco. Um filme com uma excelência técnica impressionante, um marco na  história do cinema. E assim se criou um laço entre Disney e suas princesas que dura até hoje. 
E, em tanto tempo de relação e exposição, a verdade é que a imagem das princesas está desgastada. Embora continue sendo um sucesso comercial, principalmente com a criação da franquia Disney Princess em 2000, existe uma forte noção de passividade atrelada às princesas: sempre esperando para serem resgatadas. Em um mundo que começa a incentivar mulheres a serem independentes, uma princesa parece ser uma figura ultrapassada demais para nossas meninas. 
Até que surgiu no horizonte uma esperança ruiva e revoltada. Merida, a protagonista de Valente (2012), foi a primeira princesa da Pixar, comprada pela Disney em 2006. Aliás, mais do que isso: foi a primeira protagonista feminina da Pixar! Em quase 20 anos de filmes, a Pixar nunca tinha tido uma mulher ou menina como protagonista. Outra novidade é que a Pixar teria também sua primeira diretora mulher, Brenda Chapman, que desenvolveu toda a história de Valente inspirando-se na sua relação com sua própria filha. Desde o princípio, Valente tinha uma proposta promissora de subverter toda a imagem das Princesas Disney, e havia muitas expectativas em torno do lançamento do filme. 
Mas, é claro, houve alguns contratempos e várias polêmicas. Primeiramente, Brenda Chapman foi mais tarde afastada da produção de Valente por “divergências criativas”. Após o lançamento do filme, a Disney divulgou uma ilustração estilizada de Merida cheia de brilhos e maquiagem, completamente fora do personagem, o que enfureceu os fãs e a própria Chapman, que fizeram a Disney voltar atrás em uma petição. Outras discussões não envolvem a produção do filme, mas a recepção da mídia: alguns artigos especularam sobre a possibilidade de Merida ser lésbica. O que é interessante, porque todas essas discussões podem ser lidas e relidas através de autoras como Simone de Beauvoir e Judith Butler. 
Beauvoir fez sua célebre afirmação “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher” em 1949, e que até hoje continua muitíssimo atual. Dessa forma, é a cultura que constrói uma mulher, e não a biologia ou a economia ou o que quer que seja. É a civilização que faz com que a mulher seja entendida como o “Outro”, uma mera derivação passiva e fraca do homem, que por sua vez seria forte e perfeito. 
Já Butler é uma pensadora contemporânea que percebe que a cultura é tão determinista quanto a biologia. Gênero, então, seria uma performance. 
Tudo isso reflete e explica porque Merida, ao rejeitar tradições como o matrimônio e ter interesse por atividades físicas (que muitos consideram coisa “de menino”), seria um ponto fora da curva. Se Merida não quer se casar com seus pretendentes, se Merida quer ser uma arqueira, ela é mulher? Ela não é mulher? Ela é lésbica, ela é hétero? O que faz de uma mulher, mulher? Evidentemente, Merida é uma mulher –- ao menos uma jovem mulher, como entendemos neste filme -–, e toda essa confusão insinua o quanto a proposta de Valente foi, de fato, diferente e até progressista. Mas até que ponto? 
Foi então que decidi fazer uma análise, começando com mais questionamentos: o que é uma Princesa Disney? Como ela se constrói? Defini então as “Princesas Clássicas”: as três primeiras princesas da Disney são bastante semelhantes entre si, muito conhecidas na atualidade, e por isso definiram um modelo de princesa que ainda é seguido pela Disney. São elas: Branca de Neve (1937), Cinderela (1950) e Aurora (A Bela Adormecida, 1959). 
Talvez a maior característica das Princesas Clássicas seja o fato de elas serem marcadamente sonhadoras: é um atributo ressaltado em diversos momentos, quando as personagens expõem os seus desejos e frustrações, geralmente conversando com seus amigos animais. A importância dessa característica se expressa até hoje em alguns filmes de princesa: no website oficial de Enrolados (2010, Disney), Rapunzel é descrita como uma sonhadora que deseja aventuras. Claro que não há nada de errado em sonhar, pelo contrário; mas há uma diferença entre ser caracterizada como sonhadora ou determinada, e muitas vezes sonhar significa apenas desejar, sem necessariamente ter algum tipo de esforço em direção a esse sonho. 
E o maior problema das Princesas Clássicas seria, possivelmente, as outras personagens femininas, em especial as vilãs. Embora personagens secundárias não sejam o foco mais óbvio da pesquisa, as relações de amizade e poder entre os personagens são um fator importante que compõem uma história. Pois bem, é fácil notar que o antagonista desses filmes é invariavelmente uma mulher.
Todas são caracterizadas como vaidosas e poderosas, embora de formas diferentes. No caso de Branca de Neve e Cinderela, as vilãs são figuras maternas que invejam as filhas. Em A Bela Adormecida, por outro lado, a mãe de Aurora mal tem voz e sequer tem um nome, enquanto Malévola só amaldiçoou a princesa para atingir o rei (além de render um filme estrelado por Angelina Jolie ­-– afinal, contos de fadas ainda são muito rentáveis). 
Claro, há as fadas: presentes em Cinderela e A Bela Adormecida, elas são sempre senhorinhas atrapalhadas, mas boas. E, enfim, há os finais felizes, sempre selados por um casamento real, que garantem o verdadeiro amor e ascensão ou manutenção do status social da princesa. 
Esses são os principais pontos que Valente escolhe subverter, e na minha opinião, o faz de forma bem sucedida: o casamento não só é questionado o filme inteiro, como é completamente eliminado do final feliz. O final feliz é a relação restaurada entre mãe e filha, e tudo o que aprenderam uma com a outra. O casamento arranjado e a mãe severa representam a tradição opressiva que Merida questiona; por outro lado, tudo só se resolve quando Merida assume suas responsabilidades e reata o relacionamento com sua mãe, a Rainha Elinor, que acabamos conhecendo tão bem quanto a princesa. 
Mas algo a se criticar em Valente é que os conflitos são mais colocados como a diferença entre a tradição e a renovação, do que como uma questão de gênero. Ao olharmos para a sociedade do filme, vemos mulheres que servem como criadas, cozinheiras e dançarinas, além da Bruxa Carpinteira que vende um feitiço para Merida após muita insistência da menina. 
Já os participantes dos jogos do torneio, os líderes dos clãs, bem como os integrantes de suas respectivas comitivas, são todos homens. Assim, há uma clara distinção dos papéis sociais dos homens e das mulheres. Contudo, o fato de Merida rejeitar a obrigação do casamento e gostar de atividades que, em sua cultura, são vistas como masculinas, é entendido como uma questão apenas individual, e não coletiva. Merida consegue ser compreendida no final do filme, mas apesar de seu poder político enquanto princesa, nada faz para mudar a situação de outras mulheres do reino. 
É evidente que essa é uma opção de abordagem e que portanto é válida. Mas quando olhamos para outros filmes de animação, como por exemplo Como Treinar o Seu Dragão e sua sequência (2010 e 2014, Dreamworks), temos uma temática muito parecida -– o questionamento de tradições -– em uma sociedade cujos guerreiros são homens e mulheres. Embora Dragão seja protagonizado por um menino, o protagonista passa por situações análogas a de Merida por não corresponder às expectativas de sua sociedade, que neste caso se baseia em violência, um traço tido como masculino no nosso próprio mundo. 
Enfim, considero Valente um filme renovador, mas tampouco condeno as Princesas Clássicas, já que suas protagonistas são esforçadas e bondosas, e seus filmes tiveram sua importância. Mas felizmente é perceptível que o público tem um grande interesse por histórias protagonizadas por mulheres mais ativas. Apenas sugiro aqui que se problematize a questão de gênero como um todo, e não só como algo subjetivo e pessoal, porque não é. E que elejamos novas princesas sempre.