sábado, 25 de maio de 2013

GUEST POST: A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA

"Tinjo meu pelo". Se vc tiver que ser uma ovelha, 
que seja uma ovelha negra

Este é o relato da M. Tomei a liberdade de ilustrar o post só com ovelhas fofas.

Lola, sou uma grande admiradora dos seus textos, e frequentemente os procuro quando tenho algum problema, e normalmente encontro a solução. Por isso venho aqui, já que você sempre me ajudou de uma forma ou de outra, e no momento não sei com quem falar.
Eu sempre tive ideias meio feministas, mas só aderi ao feminismo mesmo ano passado, logo após a marcha das vadias. Eu sempre tinha ouvido as pessoas falarem mal, até que um dia meu Facebook foi invadido por frases escritas no corpo e nos cartazes das manifestantes. Essas frases tocavam diretamente no que eu sentia, foi aí que fui procurar sobre a marcha, achei seu blog e muitos outros, e meu mundo se abriu. Esse é um dos maiores motivos de que eu sou a favor da marcha das vadias, pois ela me tocou, logo acredito que pode tocar qualquer um.
O feminismo me fez uma pessoa mais forte, por um curto período de tempo mais irada, mas no final das contas alguém mais feliz. Como disse Gloria Steinem: "A verdade te libertará, mas primeiro ela vai te enfurecer". Eu percebi que grande parte das minhas frustrações estavam ligadas às regras que a sociedade impõe: nunca estar satisfeita com meu corpo, achar que eu nunca seria feliz sozinha, não ter coragem de sair de noite, ouvir as pessoas dizendo que eu não saberia dirigir e, é claro, a infinidade de piadinhas ruins. 
O feminismo me deu coragem de ser quem eu sempre quis ser. E esse foi o problema.
Fui criada numa família que nunca teve problemas de discutir sexo. Na verdade, meus pais falavam até demais pro meu gosto e o dos meus irmãos. Tanto que eu até sentia um certo choque ao conversar com meus colegas que foram criados de uma forma bem mais conservadora. Mesmo assim eu costumava ser recatada quanto a relacionamentos. 
Achava que ninguém ia gostar de mim e acabei namorando o primeiro cara que eu fiquei por quase três anos, com quem perdi minha virgindade. Não me arrependo, mas hoje vejo que não era aquilo que eu queria, que eu estava me iludindo com a ideia de que só seria feliz com alguém. Nós já passávamos por vários problemas, ele cheio de ideias machistas, então quando recebi a noticia que passei na faculdade e iria mudar de cidade, foi o que me faltava pra terminar com ele.
Começou o meu semestre na faculdade e aproveitei pra fazer tudo diferente, fiz amigos, até joguei futsal, e claro, saí com alguns caras. Enfim, fui feliz como há muito não era. Não larguei os estudos nem nada, só que pela primeira vez me senti livre pra sair sem ter todos esses estigmas de que não seria vista como boa moça. Para ter uma ideia, para entrar na faculdade eu estudava na minha escola que era médio-técnico na parte da manhã e da tarde, e fazia cursinho de noite, além de passar as férias estudando para a segunda etapa. Tenho várias medalhas de olimpíadas científicas, nunca deixei minha nota ser baixa.
Só que, por uma combinação de azar, meus pais ficaram sabendo sobre os caras que eu fiquei, e do nada a boa moça que era o orgulho deles virou uma vagabunda. Eles falaram que eu iria ficar falada, exigiram saber todos com quem fiquei e fiz sexo, mandaram diminuir o número, consideraram até me mandar de volta pra minha cidade. Na verdade foram quatro, e só com dois eu cheguei a fazer sexo. Não é um número muito comum, mas não foram situações forçadas, aconteceu, ambos queriam, foi feito de forma  responsável, e eles não saíram espalhando por aí.
Para mim a reação dos meus pais foi um choque pois a vida inteira eles foram liberais comigo, me ensinavam como me proteger, diziam que iriam respeitar minhas opiniões, e do nada isso sumiu. Meu pai me proibiu de sair com qualquer pessoa, e há quatro dias não fala comigo (moramos em cidades diferentes), e a minha relação com ele era ótima; nós sempre ligamos um pro outro.
Engraçado que por eu ter escolhido ser livre todas as minhas conquistas e esforços foram anulados, eu passei a ser a ovelha negra da família, a garota problema, com algo que eu nunca considerei errado, que eles inclusive nunca me fizeram ver como errado, e que me faz feliz e não magoa ninguém. A grande hipocrisia é que existem vários primos meus que que saem com várias meninas. Meu pai mesmo vivia fazendo piadinhas com meu irmão falando que ele devia pegar todas (detalhe: meu irmão é super feminista por causa de mim), mas quando eu faço isso eu estou errada.
Claro que todas as broncas vieram lotadas de um "você vai engravidar", como se obrigatoriamente isso fosse acontecer. Minha mãe fez várias comparações sobre como uma prima minha que engravidou estava muito pior que uma outra prima que não engravidou. Quando ouço que alguém engravidou fora do casamento o que eu escuto é "coitada, vai ter que largar os estudos e tal". Depois eu me pergunto como esse povo é contra o aborto? Eles falam de ter filhos como castigo pra quem fez sexo, só consideram uma dádiva que não pode ser quebrada quando se considera abortar. 
Todos meus amigos me mandaram mentir, mas eu não sou assim. Porém, não posso viver minha vida tendo alguém decidindo sobre o que eu faço, mesmo tendo muito respeito pelos meus pais. Não sei mais quem procurar, Lola, sei que o texto ficou enorme e você recebe uma porção de emails, mas eu precisava falar com alguém, nem que fosse só pra desabafar. Talvez você lembre de mim um dia e faça mais um dos seus textos maravilhosos que sempre me dão força.

Minha resposta: É muito decepcionante descobrir que os pais são conservadores, né? Imagino como vc deve estar se sentindo, mas pense que muito que seus pais falam é por precaução, por preocupação. Claro, é absurdo que vc, que não dá problema nenhum pra eles, esteja sendo condenada pelo seu comportamento sexual. E, por favor, fazer sexo com dois caras num ano está muito longe da promiscuidade. E, ainda que vc realmente fosse promíscua, o que qualquer pessoa fora vc tem a ver com isso?
Mas não entendi como seus pais ficaram sabendo da sua vida sexual. Não recomendo que vc minta, mas recomendo que vc omita. Vc já é adulta, e sua vida sexual só diz respeito a vc. Mais ninguém. Claro que vc deve ser responsável e usar camisinha sempre. Mas falar com os pais sobre a vida sexual é algo meio chato. Eles não precisam saber da sua vida sexual, e vc não precisa saber da deles. Pronto.
Deixe que eles fiquem sem falar contigo alguns dias por causa de uma besteira. Imagino que logo eles voltem a falar. Não se aflija, ok? Viva a sua vida. 

M: Eu chorei aqui ao ver que você respondeu. Nossa, há dias eu procuro alguém que me dê força e você super me ajudou. Na verdade minha prima, que mora comigo, contou por causa de uma briga que nós tivemos, e os pais dela contaram pros meus pais. Eu realmente queria omitir, não considero isso mentir, mas achava que minha vida sexual era uma questão de privacidade minha. Falei isso pra eles mas meu pai não concorda, disse que enquanto pagar minhas contas ele vai saber de toda minha vida. O que vai acontecer é que vou acabar omitindo as coisas pra ele de qualquer maneira. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

HOJE EM RECIFE!

Hoje estarei em Recife para uma palestra às 19 horas (totalmente aberta ao público).
Amanhã, Marcha das Vadias em várias cidades do Brasil. Eu marcharei na de Recife, saindo da Praça do Derby, às 14 horas. Espero conhecer um montão de gente legal.

"É SURREAL FAZER FACULDADE PRA COMBATER INJUSTIÇAS?"

Uma leitora, a K, me enviou este email. Respondo embaixo.

Oi, Lola! Tenho 19 anos, moro no Espírito Santo, e frequento seu blog há uns poucos meses. 
Li todos os seus posts, e você não tem ideia de como o blog abriu minha cabeça. O que você escreve deve ser considerado uma utilidade pública, e eu agradeço muito, muito mesmo!
Resolvi te procurar pois preciso de uma luz, e tenho certeza que você é a pessoa certa para isso. Porém, antes, gostaria de contar um pouco da minha história para que você possa entender melhor de onde vem essa minha motivação. 
Quando era pequena, sempre vi meu pai agredindo física e verbalmente a minha mãe.
Socos, chutes, sufocamentos eram comuns, assim como as palavras empregadas: puta, piranha, cachorra vagabunda. No momento em que comecei a impedir que ele a machucasse, eu passei a ser a piranha. Aos dez anos, vagabunda era meu segundo nome. Como eu também era gordinha, tinha outros nomes como botijão de gás, nariz de barraca, baleia. E não importava se estávamos na rua, com amigos, ou em casa, esses xingamentos sempre apareciam -– para mim e minha mãe. Ouvir seu pai, o homem que devia te proteger, te amar e cuidar de você falando coisas deste tipo não fazia sentido nenhum. Machucava.
Aos quinze dei meu primeiro beijo! Tive meu primeiro namorado, nunca transamos, nunca fizemos nada. Entretanto foi aí que as coisas desandaram de vez. As agressões do meu pai vinham em doses cavalares, sem intervalo. Eu estava sem autoestima nenhuma, sentindo como se não valesse nada -- afinal, se meu pai diz que eu não valho, devia ser verdade! Aos 16 saí com uma amiga para darmos uma volta, e às dez da noite minha irmã me liga chorando, pedindo pelo amor de deus para eu voltar pra casa. Quando chego, fico sabendo que meu pai bateu a cabeça da minha mãe na parede. Repetidas vezes. 
Naquele dia eu perdi o chão. Liguei para a polícia (que demorou mais de uma hora para chegar; tive de ligar três vezes para que eles fossem lá), e eles apenas aconselharam minha mãe a "esfriar a cabeça, que casamento é assim mesmo". O QUÊ? Saíram sem nem perguntar se ela queria registrar queixa! Nesse dia qualquer respeito que eu tinha pelas instituições que deveriam zelar pela segurança foram por água abaixo.
Minha mãe também não saiu incólume ao episódio. Após quatro meses, quando ele teve outra "crise" (como ele adorava repetir, tentando livrar-se da culpa), ela saiu de casa e se separou dele. Até hoje ele ainda vem aqui em casa, a procura. Ele tem diabetes e hipertensão, e não tem mais ninguém. Minha mãe tem um coração que não cabe dentro do peito, e lava as roupas dele, dá comida, ajuda. 
Ele roubou nossa autoestima, nossos prazeres. Nos deixou com uma depressão, uma amargura e uma desilusão que não dá pra medir. Ainda hoje tentamos recuperar os nossos cacos que caíram ao longo desses anos, e não duvido que conseguiremos. Somos fortes. E hoje sei, graças a você, que ele é machista, misógino, preconceituoso. 
Dada a introdução, é agora que vem a minha dúvida. Sempre soube que havia algo errado naquele comportamento, mas não sabia exatamente o quê. Agora eu sei! E Lola, eu juro, de todo meu coração, que quero fazer parte da luta, quero mudar isso. Não quero que mais crianças e mulheres sofram por essa mentalidade torpe da nossa sociedade. A forma mais direta seria uma profissão que me permitisse participar ativamente da luta. 
Tentarei vestibular para Audiovisual, mas a ideia de cursar Direito passa pela minha cabeça. Desde que me informei sobre os massacres das mulheres de Ciudad Juarez a gana de mudar e melhorar isso é ENORME! Li que a maioria dos juízes é homem e muitos são machistas, o que faz total sentido se levado em consideração as penas atribuídas a agressores e estupradores.
Isso fomentou meu desejo, e comentei com um amigo, no que ele respondeu: "Acho que fazer Direito, um curso que não é nada fácil, só pra combater uma causa de injustiça dentre tantas outras no mundo, é um tanto surreal". Ai, Lola! Será ingenuidade minha? Será que ele tem razão? Esse argumento que ele usou não faz sentido! Lutar por uma causa não anula a importância de outras, certo?! Eu entraria na universidade aos 20 anos; você acha que estarei velha pra começar um curso? O que você acha sobre tudo isso? Estou realmente confusa com as decisões a serem tomadas.
Muito obrigada por fazer o que faz, você é uma grande inspiração para mim!"

Minha resposta: Querida K, muito obrigada por todo o carinho! Fico feliz em estar sendo uma influência positiva na sua vida. E fico feliz também que vc e sua mãe conseguiram sair dessa roubada que era viver com seu pai. Espero que vc possa curar as muitas feridas que o comportamento abusivo dele deixou em ti. Deve ser terrível ser xingada e ofendida pelo próprio pai. Não consigo nem imaginar a sua dor.
Mas olha, prova de que vc está superando tudo isso é que vc virou feminista, e agora está cheia de planos pro futuro. 
Se vc está muito velha pra fazer faculdade com 20 anos?! Pelamor, K! Vinte anos deve ser a idade média de quem está na faculdade. Claro, tem muita gente que entra com 16, 17. Mas acho que a maior parte mesmo tem 19, 20. E nunca é tarde demais pra fazer faculdade! Sabe quando eu me formei? Pouco mais de uma década atrás! Eu tinha 35 anos! Eu fiz Pedagogia numa faculdade particular, então metade da minha turma tinha menos de 30, e a outra metade (eu inclusa) tinha mais de 30! Claro, numa universidade pública vc vai encontrar pouca gente mais velha, mas sempre existe. Eu tenho alguns alunxs da minha idade na UFC. 
Acho que vc pode ajudar a mudar o mundo de várias formas, em TODAS as profissões. Mas, pra luta que vc está pensando em se envolver, Direito é uma bela profissão. Precisamos de mais mulheres na política! Quem sabe vc não pode ser uma delas? Ok, não precisa nem pensar nisso agora. Só comece o curso, seja representante do Centro Acadêmico da sua faculdade, entre num coletivo feminista e, se sua faculdade não tiver um, comece um. Tudo isso vai te dar um gostinho pelo ativismo. E política é uma forma de ativismo, ué!
E não acredito que seu amigo disse uma besteira dessas ("Acho que fazer direito, um curso que não é nada fácil, só pra combater uma causa de injustiça dentre tantas outras no mundo, é um tanto surreal")! Como assim? Ele está insinuando que vc não deveria fazer Direito por não ser um curso fácil?! Qual é um curso fácil? E ele acha que as injustiças que afetam BILHÕES de pessoas no mundo não devem ser combatidas? O machismo não deve ser combatido porque o racismo também existe, é isso que ele está dizendo? Puxa, é muita bobagem numa frase só. Não dê ouvidos, K. Vc já tinha notado que o "argumento" dele não faz o menor sentido.
Vc é muito jovem e tem a vida toda pela frente. Não vai dar pra mudar tudo já, mas vá fazendo as coisas no seu ritmo, sem atropelamentos. Estude pra conseguir entrar na faculdade, e aí veja se gosta, se é isso mesmo. Poucas coisas na vida são definitivas, então, mesmo que vc não gostar, terá chance de mudar de área, de fazer uma outra faculdade. Mas claro que é melhor já entrar numa área que vc goste. 
Te desejo muita sorte e sucesso nas suas escolhas, K!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

GUEST POST: FILHOS, NÃO TÊ-LOS E NÃO SABÊ-LOS

Uma das minhas comentaristas preferidas, a Roxy Carmichel, me enviou este guest post.

Vinicius de Morais, que podia ser bem categórico às vezes, como quando proclamou o caráter não só necessário como fundamental da beleza, se permitiu no "Poema Enjoadinho" o benefício da dúvida ao se perguntar sobre os filhos: se não os temos, como sabê-lo? A dúvida vai se reduzindo consideravelmente até chegar à certeza quando o poetinha lista os benefícios da procriação e termina por convencer a mais indecisa das almas. Mas algo me diz que essa dúvida, ainda bem tímida, tenha ficado datada, perdida em algum lugar dos anos 70 entre os discos do Led Zeppelin e a sexualidade desvinculada da reprodução com o advento da pílula anticoncepcional.
No Brasil questionar esse mandato social ainda é tabu. Ano passado, a matéria "Ter filhos traz mesmo felicidade?" da revista Época provocou a ira dos papais e mamães contra a sugestão que a maternidade/paternidade pode até ser padecer no paraíso, mas talvez um paraíso menos ensolarado e sem palmeiras. Vale lembrar que essa sugestão aparece na matéria de forma até cândida, já que lá pelo final do texto, os autores reconhecem que o esforço “vale muito a pena”.  
As idéias de esforço e sacrifício, por sinal, são as mais comumente reivindicadas pelos entusiastas da procriação. E nesse quesito, há uma clara vantagem do gênero feminino em relação ao masculino. Certa vez, escrevendo um artigo para a universidade sobre o mito do herói, li que numa certa cultura indígena existia a crença no céu enquanto espaço para onde se dirigem os bons depois da morte, tal qual a gente aqui acredita, com a diferença que nesse céu existia certa hierarquia, onde o lugar mais especial estava destinado aos heróis guerreiros. Do gênero feminino, só as mães ascendiam a esse espaço V.I.P. por suas notáveis qualidades abnegadas de dar a vida por outro ser. 
Por outro lado, a femme fatale, anti-heroína por excelência na cultura ocidental, representa a nemesis da mãe, não só porque nunca tem filhos, mas porque a sua principal atividade é desestabilizar o mocinho que ingenuamente é tragado ao submundo por obra da loira estonteante, porém fria, calculista, individualista -- características que a cultura patriarcal não perdoa. Não perdoa na mulher, claro, a quem está destinado o protagonismo dos afetos e do cuidado, sentimentos esses pertencentes ao âmbito doméstico. 
No homem essas características (frieza, racionalidade, individuação, autonomia) são não só positivas  como incentivadas, afinal estão associadas à racionalização abstrata e ao âmbito público. Pensam eles: “Mas enquanto criamos a matemática, precisamos de alguém que se encarregue da criação dos nossos filhos varões, aqueles que irão fazer algo de nobre com a nossa criação matemática, propulsando assim o motor da evolução da história e das filhas mulheres que seguirão a vocação da mãe de cuidar das filhas para que cuidem dos filhos e...”. E daí realmente, o mínimo que se pode fazer para impedir que mulheres rejeitem essa tarefa que precisamos que elas desempenhem, é uma campanha difamatória onde a mulher que não tem filhos será uma puta egoísta sem sentimentos, e quem melhor que uma poderosa louraça belzebu para simbolizar esse nosso medo? 
E assim é constituída a figura da femme fatale, como síntese dos medos masculinos do feminino, e consequentemente dos temores femininos também, já que esse glamour que ostentam no início da narrativa, serão prontamente destruídos e daí, só irá emergir a miséria e a punição pela ousadia de ser... mulher.
Certo é que esse modelo foi desmascarado. Que em alguns países, pais e mães dividem o trabalho de criação dos filhos e cuidados com a casa. 
Que ainda nesses mesmos países, mulheres avançam sobre o âmbito público. Que pais e mães educam seus filhos e filhas para desenvolver as mesmas potencialidades. Só que em muitos outros países, incluindo o nosso, o modelo "mulheres responsáveis pelo âmbito doméstico" ainda é o dominante. Mas as mulheres ainda querem ser mães. Nem que para isso tenham que assumir uma jornada dupla, muitas vezes tripla. E é por isso que ainda que não acredite em instinto materno, considero o tema da maternidade um dos mais enigmáticos do feminismo.
Como aponta a autora Muriel Dimen, “mesmo se a estranha relação entre sexualidade e reprodução não for conscientemente problemática, ela continua na experiência inconsciente das mulheres que cresceram no patriarcado”. Isso se deve ao fato de que mulheres são consideradas “biopsicologicamente apropriadas para a criação de filhos, e na prática, são treinadas para isso”.  Desse modo, “qualquer que seja o trabalho assalariado que as mulheres façam, são inseridas em primeiro lugar no âmbito doméstico”. E ainda que a mulher não queira se candidatar ao posto, a maternidade ainda povoa os pensamentos femininos na forma de controle de natalidade.
Recentemente perdemos uma ótima oportunidade de pensar nessas questões condensadas na maternidade como mandato social por meio do excelente filme Precisamos Falar sobre Kevin, que a imprensa preguiçosa preferiu estigmatizar como um filme de terror disfarçado de filme de arte, não interessada em investigar a origem da psicopatia do complexo personagem-título que acabou reduzido ao mal encarnado. Outra leitura, igualmente banal, atribuía dita psicopatia à falta de amor que a mãe dedicou ao filho. Muitas questões aparecem ali. Entre elas, o papel da mãe que deve se sobrepor a todos os outros papéis desempenhados por Eva (ou por qualquer mulher) –- o de executiva, o de amiga sociável que se deleita em receber amigos em seu loft em Nova Iorque e até mesmo o da mulher erótica que deseja e quer ser desejada. 
Quando fica grávida, o marido (aquele mesmo que depois não dedica cinco minutos a prestar atenção no comportamento estranho do filho) exige que ela não dance pra não prejudicar o bebê, grita de indignação quando Eva toma um cálice de vinho e impõe uma mudança pra uma cidade do interior, onde os filhos poderão ser criados nos mais destacados padrões e valores dos comerciais de margarina, distantes dos amigos e do trabalho que ela desenvolvia com paixão. Também está a cena de contornos incestuosos, em que mãe surpreende filho em plena atividade masturbatória no banheiro, desafiando-a com o olhar, em vez de retrair-se de vergonha ao ser descoberto. 
Numa conversa com minha mãe (quero deixar claro que se esse espaço VIP do céu existe, que a minha santa mãezinha seja conduzida pra lá de primeira classe), ela me confessou que na minha idade não queria ter filhos, mas quando soube que estava grávida, ficou imensamente feliz e hoje entende que foi excepcional ter filhos. Eu não duvido. No entanto, se ela me dissesse que muitas vezes duvidou do sucesso dessa decisão e da respectiva empreitada de ser mãe, eu não teria me sentido menos amada e teria me solidarizado, enquanto mulher que sou e que entende que é desumano que a dúvida ou a expressão de insatisfação, e mais, o acolhimento diante dessa dúvida e insatisfação seja negado às nossas mães ou a nós, enquanto mães. E que não só seja negado, como seja utilizado para desqualificar.
No livro Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade, a antropóloga Miriam Goldenberg faz um estudo comparativo entre mulheres brasileiras e alemãs na faixa dos 50 anos para responder como essas mulheres lidam com essas questões. No Brasil, um dos principais capitais que uma mulher pode ter é o capital marital. E isso não tem nada a ver com ter um marido pra te sustentar e sim, um marido para ostentar. O corpo seria outro grande capital feminino no Brasil, o que explica porque as entrevistadas destacaram o sentimento de frustração diante da constatação que seus corpos não são mais atrativos para a sociedade. Já as alemãs destacaram o sentimento de realização ao terem alcançado o respeito a partir de uma carreira consolidada durante vários anos. 
Não pretendo me aprofundar muito nas conclusões do livro (mas recomendo muito que leiam), e sim, me deter no objeto de estudo de Goldenberg, que já traz algumas conclusões para o tema que abordo: das entrevistadas brasileiras, todas eram mães, estavam casadas ou haviam sido. Já as alemãs, havia no grupo de entrevistadas mulheres casadas, solteiras, divorciadas, mães e mulheres que não tinham filhos. O interessante é que os filhos apareciam como os lanterninhas na lista de realizações das entrevistadas brasileiras. Surpreendente? Eu diria que não.
O pediatra argentino Mario Sebastini publicou recentemente um livro retomando a pergunta do Vinicius de Morais, mas as conclusões são bem distintas das do poetinha. 
Primeiramente ele é enfático ao afirmar que boa parte das concepções da classe média não são planejadas, prática essa que a própria classe média condena em classes menos abastadas. Depois ele lista as justificativas mais comuns que escuta em seu consultório ao atender futuras mães: “eu não queria, mas meu marido não queria parar até ter um filho homem”, “não queria ter filho, mas ou ficava grávida ou perdia meu marido”, “Nos cuidamos com preservativos, mas uma noite, depois de uma festa de casamento e muitas taças de champanhe, não usamos... Foi um acidente”. A palavra amor não figura nesses relatos.
Mas o pediatra propõe uma reflexão que nenhuma mulher ou homem deveriam se abster de ter. Ele diz: “Não tenho duvidas de que uma sociedade é melhor e será melhor se cada um de nós, sozinhos ou enquanto casal, perguntarmos se faz sentido ter filhos, ou que sentido daremos ao passaporte que outorgamos a nossos filhos na chegada a este mundo.”
Afinal, quem se beneficia com o crescei e multiplicai-vos religioso e mecânico, com o não menos mecânico argumento da importância da propagação da espécie ou com a ideia da existência do instinto materno? 
Certamente não as próprias crianças que muitas vezes vem ao mundo para justificar o desejo egoísta dos pais que não se comprometem com o desenvolvimento dessa nova vida (e aí não entra somente a questão material, e sim, um cenário que vai permitir que a criança se desenvolva nas melhores condições possíveis). 
Certamente não o planeta que mudou um pouquinho desde que a bíblia foi escrita e hoje sofre com os efeitos da propagação da espécie, e falo de números, mas mais de ações (você sabe quantos recursos são gastos para a manutenção dessa vida?). 
Certamente não as mulheres que precisam justificar tal instinto acumulando uma jornada dupla ou tripla, já que elas são “biopsicologicamente mais apropriadas para a criação dos filhos” e precisam pagar as contas, trabalhando.
E por falar em espécie humana, será ela assim tão sagrada? Não nos esqueçamos que a espécie humana que produziu a arte, a filosofia, é também a mesma espécie que mata, explora, discrimina, escraviza, humilha. Acho que não vivemos atualmente e talvez jamais tenhamos vivido no Éden, onde todos têm liberdade, amor, recursos materiais e imateriais para desenvolver nossas potencialidades, portanto não consigo entender muito bem essa defesa apaixonada da propagação da espécie, a não ser que ela parta das grandes empresas que necessitam de mão de obra barata (e ela será barata se for abundante e não tiver trabalho pra todos). 
Já aqueles que insistem em afirmar que podem ser os progenitores dos futuros Einsteins, eu pergunto: será que esse futuro Einstein já não existe e se encontra agora num lar adotivo esperando alguém que lhe dê amor, bem como uma casa e uma escola para que ele possa desenvolver sua genialidade? Será que ter seus genes é condição sine qua non para tornar-se o novo Einstein? Ou é só condição sine qua non para realizar seu desejo narcisístico de reconhecer seus traços em outro ser?