sábado, 22 de novembro de 2014

MACHISMO E OUTROS PRECONCEITOS NO VESTIBULAR DA UNESP

Vestibulandos fazendo facepalm

Texto machista
(clique para ampliar)
O vestibular da Unesp, realizado no último domingo, incluiu trechos de textos de autores reaças como Rodrigo Constantino e Leandro Narloch, além de um outro da revista Exame com colocações duvidosas sobre o papel da mulher (o texto fala que "mulheres estão dispostas a abdicar de sua natureza em nome da carreira" -- qual natureza, cara pálida? -- e que o papel de mãe "é a grande e única questão de gênero que importa").
Quer dizer, são várias questões que partem de textos retrógrados. A Maria Frô escreveu sobre isso. E, hoje, recebi por email o texto de ex-alunos da Unesp, agora professores de ensino médio e superior, que escreveram uma carta aberta a respeito do conteúdo ideológico deste vestibular:

Carta Aberta à VUNESP, Professores e Vestibulandos
Partindo do real papel do vestibular na sociedade brasileira, qual seja, selecionar segundo critério meritocrático a entrada de estudantes nas universidades do país, falar desse processo seletivo obrigatório significa compreender que mesmo com a expansão da oferta de vagas efetuada na última década (através do Reuni, Prouni, Fies, entre outros Programas de acesso implementados nas universidades nos últimos anos, sobre os quais cabem críticas relevantes, porém não é o que nos pretendemos aqui no momento), ela ainda não é suficiente e, portanto, o vestibular continua ranqueando estudantes e deixando um grande número para o lado de fora dos muros das universidades públicas, ratificando a desigualdade econômica, de acesso à educação pública de qualidade, aos bens culturais e a meios de comunicação mais democráticos. 
Nesse contexto, as provas dos vestibulares geraram e continuam gerando discussões na sociedade em geral a partir dos temas levantados nas questões de cada ano, (re)colocando muitas vezes assuntos importantes na ordem do dia, com base num conteúdo cientificamente embasado e utilizando-se de autores expressivos da sociologia, filosofia, história, geografia, literatura etc. para fazer com que os candidatos reflitam sobre o que se espera que respondam. 
Porém, tendo em vista o último vestibular da Unesp -- que coloca em xeque conceitos históricos que refletem a história política, econômica e cultural brasileira -- vimos por meio desta carta, nos manifestar a respeito de algumas questões que ferem gravemente a legitimidade do vestibular que oferece acesso a esta Universidade, bem como seu estatuto científico, ambos frutos de conquistas às quais sempre fomos instigados a respeitar e defender, enquanto ex-alunos desta Instituição.
Na questão 7, a temática da maternidade é apresentada de maneira absolutamente inapropriada para o momento histórico presente em que se coloca a questão de gênero como central nas análises sociais. Inexplicavelmente a Vunesp recupera uma anacrônica leitura da questão de gênero, concebendo-a a partir de parâmetros naturalizantes. Mesmo não encontrando qualquer evidência nos processos reais, o vestibulando é obrigado a ratificar uma visão que trata o tema como uma fatalidade biológica, se não mesmo como uma obrigação social ou moral da mulher. 
Se a máxima lançada por Simone de Beauvoir, há mais de sessenta anos ("Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a fêmea humana no seio da sociedade"), parece não incomodar a comissão elaboradora da prova, nos causa estranheza que não se sintam envergonhados por desrespeitar a obra daquela que foi provavelmente a mais destacada professora da Universidade Estadual Paulista em toda a sua história, Heleieth Saffioti, autora do clássico estudo "A mulher na sociedade de classes: mito e realidade".
Ainda em relação a esta questão, cabe frisar que não é o acesso -- ou falta dele -- à educação que faz de um grupo social uma minoria política, mas sim a desigualdade vivenciada na correlação de forças, na distribuição do poder existente na sociedade. Desse modo, reduzir toda a luta feminina a um singelo pedido por condescendência dos patrões em relação à 'vocação natural da maternidade' nos soa inadmissível.
Na questão 59, existe a tentativa não apenas de suavizar, mas sim de eximir as nações europeias por qualquer responsabilidade sobre as consequências negativas decorrentes do espúrio processo neocolonial que escravizou e explorou diversos povos africanos bem como as riquezas presentes em seus territórios, culpabilizando-os por sua atual situação de miséria, já que segundo o texto da questão, já haviam ali conflitos instaurados, antes da invasão das potências ocidentais. Nos sentimos como se a Unesp estivesse simplesmente negando os ensinamentos de referências como Florestan Fernandes (“A integração do negro na sociedade de classes” ou "O negro no mundo dos brancos"), Octavio Ianni ("As metamorfoses do escravo" ou "Cor e mobilidade social em Florianópolis" -- em parceria com Fernando Henrique Cardoso), o pluralismo inaugurado por Levi-Strauss ("Raça e história") e fundamentalmente o método crítico de autores como Walter Benjamin ("Teses sobre a história") e Edward Palmer Thompson ("A história vista de baixo").
O autor joga uma nuvem de fumaça sobre a Conferência de Berlim (1884) e a partilha da África, com todas as suas consequências, portanto é negacionista. Depois, espontaneamente, faz uma alusão ao iluminismo (sem citar fontes), e nega os efeitos da presença de oligopólios europeus no Continente. Ou seja, a análise do texto não se sustenta nem como reles nota de roda pé de estudos consagrados dentro da tradição crítica de interpretação dos processos sociais. 
E é esta interpretação crítica que vem sendo valorizada em todos os documentos referenciais para o tratamento de tais fenômenos no campo das ciências humanas quando voltadas para o ensino fundamental e médio, para não dizer da educação em geral. É conhecida de todos nós, trabalhadoras e trabalhadores da educação, a resistência imposta pelas universidades públicas de São Paulo em adotar medidas que favoreçam a inclusão em seu meio de estudantes que fazem parte das minorias políticas, mas nem a tão defendida 'autonomia universitária' lhes dá o direito de fazer vista grossa para os Parâmetros Curriculares Nacionais em suas avaliações admissionais.
Na questão 56, chegamos à conclusão de que o debate sobre o multiculturalismo e o relativismo cultural deseja relativizar as construções sociais e políticas mais profundas da Sociedade Brasileira e sugerir uma 'tolerância aos que intoleram'. O problema da questão da Vunesp não é quem escreve e nem quem é citado como referência, mas o que se escreve e a maneira como se questiona: o lugar e os termos a partir do qual se decide formular um problema e transformá-lo em questão para os vestibulandos. 
Franz Fanon, lembrando daquilo que certa vez um professor seu lhe disse, afirmou: "sempre que você ouvir alguém maltratar um judeu, preste atenção, porque ele está falando sobre você [um negro]". Quer dizer, falar de diferença enquanto atraso e barbárie no Iraque pode ser também um jeito de falar, por exemplo, de populações indígenas no Brasil, sobre países ou populações africanas ou afro-brasileiras e por aí vai. 
Nossa preocupação com a questão envolve a linguagem e o formato no qual esta foi construída. Tal discurso, defensor do caráter hierárquico no trato das tradições culturais, pode até encontrar amparo ou legitimidade dentro daquela tradição denominada criticamente por Edward Said como 'orientalista', mas soa como 'palavra mofa' à luz da renovação crítica que a área dos estudos culturais sofreu nas últimas décadas.
Defendemos uma educação plural, que valorize a diversidade inesgotável no campo das ciências. O que não podemos fazer é nos calar diante de uma proposta educativa que se negue a ser crítica! 
Esperamos que esta manifestação quebre o silêncio até agora existente a respeito do problema aqui apontado. O corpo docente parece alienado deste debate, não se incomodando com o fato do vestibular estar fazendo chacota aberta das teses e ideias que eles mesmos nos ensinaram nesta instituição que tem tão larga tradição de participação crítica no debate público nacional. 
Os estudantes também não se manifestaram publicamente a respeito da questão. Esperamos que o façam a partir de agora, e utilizando os mais variados instrumentos e meios de pressão. Como ex-alunos da Unesp, mas fundamentalmente como trabalhadoras e trabalhadores da educação, nos recusamos a acreditar que auxiliar os alunos a 'escovar a história a contrapelo' possa promover a seleção de respostas erradas nas provas admissionais.
Neste sentido, convidamos a todos que sintam-se representados por este documento que assine embaixo e divulgue da melhor forma que julgar possível. Mais que um texto nosso, é uma construção coletiva. 
(Seguem várias assinaturas que podem ser conferidas na página do FB em que a carta foi inicialmente publicada). 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O QUE O PÚBLICO-LEITOR TEM CONTRA ANTI-HEROÍNAS?

O querido Flávio Moreira me enviou a tradução deste post da Emma Jane Unsworth que foi publicado no The Guardian

Leitores amam um bom anti-herói – então por que evitam anti-heroínas?
Homens monstruosos são mais do que bem vindos em obras sérias de ficção, mas crie uma personagem feminina desagradável e você estará em apuros.
Quando estava escrevendo meu romance Animals, eu sabia que estava criando personagens femininas que vão em sentido contrário ao senso comum. Que bebem. Que pensam. Que vagueiam pelas cidades nas horas pecaminosas. Que têm crises filosóficas. Sabe, do mesmo jeito que personagens masculinos fazem aquilo que é mais genericamente classificado como histórias da “condição humana”?
Tem surgido argumentos eloquentes nos últimos anos sobre a “aceitação” de personagens femininas -– particularmente nas posições de Roxane Gay e de Claire Messud. Em uma entrevista para a Publishers Weekly, a romancista Messud deu uma resposta espetacular a uma pergunta sobre se ela gostaria de ser amiga da narradora de seu último romance, a personagem Nora, já que a entrevistadora tinha a percepção de que Nora era “insuportavelmente sinistra”. 
Messud disse: “Pelo amor de Deus, que tipo de pergunta é essa? Você gostaria de ser amiga de Humbert Humbert?”, antes de arrolar uma lista de anti-heróis clássicos e concluir: “Lemos para descobrir a vida em todas as suas possibilidades. A pergunta relevante não é se ‘esse [personagem] é um amigo potencial para mim?’ mas sim ‘esse personagem tem vida?’”
Em janeiro a autora Roxane Gay, do ensaio "Bad Feminist", escreveu um ensaio para o site Buzzfeed em que descrevia ser aceita e apreciada por outros como “uma mentira bem elaborada, uma performance, um código de conduta”, e salientava as diferenças entre personagens masculinos e femininos que não barganham a afeição do leitor: "Um homem desagradável é misteriosamente interessante; obscuro, ou atormentado, mas definitivamente irresistível, mesmo que se comporte de maneira repugnante [...] Quando mulheres são desagradáveis, isso se torna uma obsessão em discussões críticas.”
Quando o romance Tampa, de Alissa Nutting, promovido como um “Lolita invertido”, foi publicado em 2013, fiquei furiosa com o número de entrevistas com ela que começavam expressando surpresa –- não, na verdade, alívio -– ao verem quão simpática Alissa era na vida real. Tenho certeza de que nenhum desses mesmos entrevistadores se encontrariam com Bret Easton Ellis e expressariam surpresa ao não serem brutalmente assassinados ali mesmo, durante o café. 
Escritoras são muito frequentemente confundidas com suas personagens, como se às mulheres não fossem garantidas as mesmas capacidades imaginativas [dos homens]; afinal como uma mulher poderia criar um monstro sem ser ela mesma uma monstra? Há um reducionismo nisso, uma mesquinhez crítica. Temos um caminho a percorrer antes que personagens femininas possam, sem ser definidas pelo gênero, se expor na busca pelo significado impossível de tudo.
Assim, enquanto isso, o que compõe uma boa “anti-heroína”? A definição normalmente se baseia em duas categorias: mau comportamento e escolhas de vida não-convencionais. Anti-heroínas existem em muitas formas. Aqui estão algumas das minhas favoritas...
- Emma Bovary, do romance Madame Bovary de Gustave Flaubert
Madame Bovary é um livro que revisito muitas vezes. Tenho tanta afeição pela protagonista e pela complexidade de sua natureza – a malcriada esposa do médico que ataca sua vida provinciana enfadonha e o futuro traçado para ela nessa vida. Flaubert foi corajoso ao perscrutar sua moralidade e sua ambivalência maternal – há alguma coisa em comum entre Emma Bovary e a afiadíssima Eva em Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver.
- Hatsumomo, de Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden
Mesquinha, mal-educada, Hatsumomo é provavelmente a coisa mais próxima de um vilão tradicional nesta lista, mas sua frustração, insegurança e recusa (como se fosse uma diva) a simplesmente entrar na linha, faz com que, no fim, fiquemos ao seu lado, mesmo que isso envolva todo tipo de problemas para a heroína, Sayuri.
- Lise, de The Driver’s Seat, de Muriel Spark
Lise está de saco cheio de seu emprego. Muito cheio. Num último ato de tomar as rédeas de sua vida, vai para a Itália. É o distanciamento de Lise e seu egoísmo consciente – a mesma amoralidade enervante que encontramos em Emma Bovary – que fazem dela uma anti-heroína.
- Jane Eyre, de Charlotte Brontë
Ela foi minha primeira. Eu estava ao seu lado quando foi forçada a ficar de pé naquela cadeira e ser chamada de mentirosa. Eu estava com ela quando se colocou “tão sóbria e silenciosa às portas do inferno”. Intensa, direta, corajosa e um pouco fantasmagórica, Jane Eyre é o sonho de toda adolescente solitária. Através dela, Charlotte Brontë desafiou muitos preconceitos vitorianos sobre gênero e classe, e contou muito bem uma tortuosa história gótica.
- Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen
Ela não se comporta mal (Lydia é bem mais divertida), e sua personagem funciona amplamente graças aos contrastes das outras mulheres que a cercam, mas ela é inteligente e franca, destemida e determinada a buscar sua própria felicidade e, dessa forma, ela representa tudo que a reprimida sociedade georgiana teme: uma mulher com ideias.
- Lisbeth Salander, da trilogia Millenium de Stieg Larsson
Amo Lisbeth Salander, embora deteste os livros em que ela aparece. Ela de alguma forma os transcende: uma hacker de computador tatuada, que fuma um cigarro atrás do outro, que sobreviveu a uma infância traumática para viver à margem da sociedade, com raras interações. Como resultado, sua sanidade é assunto de muito debate. Larsson disse que baseou Lisbeth no que ele imaginava como seria Pippi Longstocking na vida adulta. Há um aspecto super-humano nas duas, e pressão de todos os lados para que se conformem.
- Becky Sharp em Vanity Fair de William Makepeace Thackeray
As pessoas que mais desprezamos são frequentemente as que incorporam nossos atributos mais desprezíveis. Thackeray sabia disso – por isso ele fez a estrela de Vanity Fair uma alpinista social implacável e a esfregou na cara das pessoas que provavelmente eram, elas mesmas, alpinistas sociais. Melhor ainda – ele as fez se apaixonarem por ela. Não consigo imaginar por que ela é tão popular...
E então, vamos lá – quem eu deixei de fora? Quais são as suas favoritas?

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

RACISTAS, TENHAM CONSCIÊNCIA

Hoje é uma data muito importante, o Dia da Consciência Negra, um dia de luta. A data escolhida marca a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. 
Poupem-me do revisionismo histórico reaça de que Zumbi não pode ser visto como herói porque o quilombo dos Palmares também tinha escravos. Vivemos num país sem heróis negros, em que até pouco tempo a grande heroína da abolição era uma princesa branca. Um país em que bandeirantes, homens que matavam e escravizavam índios, têm monumentos em sua homenagem. Um país que tem dificuldade em reconhecer até que um de seus maiores escritores, Machado de Assis, era negro. Um país que, apesar de todas as evidências, ainda nega ser racista.
Todo 20 de novembro a gente tem que repetir que sim, precisamos de um dia da consciência negra (que é o que falamos em 8 de março: sim, precisamos de um dia da mulher), que não, não é todo dia que é dia do negro, do pardo, do branco, e que não, não deveríamos comemorar a "consciência humana". E que, olha, não falar de racismo não faz com que o racismo milagrosamente desapareça. Ou, pior: que racismo mesmo é destacar um dia pra consciência negra.
Anúncio da OAB Sergipe, ontem
Sério mesmo, se você acredita em alguma dessas besteiras, reflita. Está na hora de rever seus conceitos. De ver onde você guarda o seu racismo.

"Volte pra senzala!", gritam médicas
na recepção de médicos cubanos
ao Brasil
Não vivemos num país, nem num mundo, em que as pessoas têm as mesmas oportunidades. Será que ainda tem gente que crê que todos nascemos iguais e largamos do mesmo ponto de partida? Não é possível: se você é filho de médicos, por exemplo, você está automaticamente fadado a inúmeros privilégios. Se você é filho de pedreiro e empregada doméstica, você não terá privilégio algum. E não preciso nem fazer o recorte de raça, porque, no Brasil, médico é branco. Pedreiros e empregadas domésticas, a imensa maioria, são negros. Você deve achar que é pura coincidência isso.
Jornalista do RN sobre a cara das médicas cubanas
E não, você não fez nada pra "merecer" nascer com tantos privilégios. 
A sociedade inteira está estruturada para dar a brancos privilégios que negros não têm, dar a homens privilégios que mulheres não têm, dar a héteros privilégios que homossexuais não têm. Tudo que você teve que fazer pra "merecer" essas vantagens foi nascer numa sociedade preconceituosa. Parabéns, campeão!
A cara da elite revoltada
com as cotas raciais
É simples assim: se você acredita nessa mentira chamada meritocracia (de que as pessoas bem-sucedidas mereceram ser bem-sucedidas), você tem que acreditar que as pessoas pobres merecem a miséria. Todas elas, e olha que elas são ampla maioria no mundo. Não dá pra achar que você mereceu um bom emprego, mas que aquela pessoa que nem tem o que comer não merece passar fome. E, pelamor, pare de se guiar pelas exceções: não é porque saiu no jornal que um catador de lixo conseguiu passar no vestibular que isso desmente toda uma flagrante injustiça social. Essa notícia só faz você pensar que, se a pessoa trabalhar duro, ela terá uma vida boa. Mas não é verdade: a maior parte das pessoas trabalha duro e nem por isso é recompensada com uma vida boa. 
Eu estive no Congresso em abril e percebi como a desigualdade salta aos olhos. Não só que havia pouquíssimas mulheres deputadas (menos de 10%), como havia pouquíssimos negros e negras. Aliás, havia sim: os seguranças e faxineiros eram negros. Assim como não é verdade dizer que na USP não tem negros. Tem, é só olhar. Não são os professores (apenas 0,2% dos professores da USP são negros), nem a maior parte dos alunos, mas olhe pros funcionários da limpeza, aqueles terceirizados, praticamente sem direitos trabalhistas, que ganham uma merreca. Grande parte é negra.
Eu fiz mestrado e doutorado na UFSC sem ter um só colega negro ou professor negro durante seis anos. Tudo bem que foi em Santa Catarina, estado com o menor número de negros do Brasil ("apenas" 13%, a mesma porcentagem de negros nos EUA). Lá dei aula de estágio-docência pra turmas de 40 alunos de Letras (não em cursos elitistas como medicina e engenharia, mas em licenciaturas), e não havia alunos negros. Como explicar isso? Como se sentir confortável com essa segregação?
Alunos protestam na Ufes
Não tem como justificar esses números: em 1997, só 2,2% de pardos e 1,8% de negros, entre 18 e 24 anos, cursavam ou tinham concluído um curso de graduação no Brasil. Hoje, com mais de dez anos de cotas raciais implantadas no Brasil, há 11% de pardos fazendo curso superior, e 8,8% de negros. Ainda é um número irrisório se pensamos que a maior parte da população brasileira (ou seja, mais de 50%) é parda ou negra. 
Hoje a realidade é diferente daquela que vivi na UFSC. Sou professora na Federal do Ceará, e no estado em que escolhi viver 64% da população é parda ou negra. Nas turmas de Letras, há alunxs de todas as cores. Ainda assim, quando dou aula para cursos ricos, a grande maioria dos alunos é branca. 
A situação está mudando, sem dúvida. As cotas raciais e sociais são uma grande conquista que enfurece a elite. Não é à toa que o partido mais direitista do Brasil, o DEM, entrou com recurso no Superior Tribunal Federal em 2012 para que as cotas raciais fossem retiradas da UnB. A alegação? Racismo. É muita cara de pau. E não é à toa que o Estado que mais resiste às cotas em suas universidades é SP, governado pelo PSDB há vinte anos. 
As cotas evidentemente são um paliativo. Elas só possibilitam o acesso de (alguns) negros à universidade. E eu fico pasma em ver como reaças não fazem a menor ideia de como cotas funcionam. Não é que um negro passa em frente a uma faculdade e as portas se abrem pra ele. Ele tem que tirar nota boa no Enem. Só que algumas vagas são reservadas pra negros que estudaram em escolas públicas. Aliás, vagas são reservadas para alunos de escolas públicas, ponto. 
Universidades ainda são lugares preconceituosos, assim como toda a sociedade. Eu fico pensando como deve se sentir um negro que consegue a façanha de estudar numa instituição que não foi feita pra ele, só pra elite, ouvir um professor dizer que negros não têm "socialização primária na família"? Como se sente uma aluna negra (vamos supor que exista) de Medicina da USP ao ouvir a música cantada nas festas e comemorações, que fala da "preta imunda / crioula da b*ceta fedorenta / que eu não como nem lavada / em água benta"?
O Dia da Consciência Negra é um dia de luta, como são os outros 364 para as pessoas negras que vivem num país racista. Só posso torcer que, para os racistas, o 20 de novembro seja o seu despertar. O dia em que você começou a encarar a realidade e a fazer um esforço consciente para deixar de ser racista.