terça-feira, 22 de abril de 2014

REAÇA ATESTA QUE JOVENS DIREITISTAS NÃO PEGAM MULHER

Reaça forever alone

Ai, ai, não acredito que vocês vão me fazer falar do filósofo-reaça Luiz Felipe Pondé. Ontem, em sua coluna na Folha, ele publicou um texto chamado "Por uma direita festiva", que começa assim: "Ser jovem e liberal é péssimo para pegar mulher. Este é o desafio maior para jovens que não são de esquerda". 
Eu até fico com a pulga atrás da orelha se Pondé está sendo irônico ou não (afinal, não pegar mulher deve ser o menor dos problemas de jovens direitistas no Brasil, aqueles que imploram pro Bolsonaro se candidatar a presidente e acabam tendo que votar no Aécio, ou no Eduardo Campos, ou em qualquer um que não seja a Dilma). 
Mas, como o ultrajante músico Roger, com aquele radar perfeito pra detectar ironia, não se manifestou, vou crer que Pondé está falando mais ou menos a sério. Digamos: tanto quanto é possível levar um babacão como ele a sério. 
Mas não é que, pela primeira vez na vida, terei que erguer uma faixa escrito "Pondé was right"? Claro que no seu texto ele coloca mulheres como seres fúteis e despolitizados (basta chegar com uma camiseta do Che e gritar "Abaixo a opressão sobre o corpo da mulher" que todas as alunas de Humanas se jogarão em cima de ti, garanhão da esquerda) que detestam sexo (e só "aceitam" ser levadas pra cama com muita conversa e álcool). Porém, sobre reaças pegarem menos mulher, me alegra dizer que é verdade. 
Alguns meses atrás, a jornalista Cynara Menezes falou sobre um documentário de 2006, Comunistas Transam Melhor?, que conclui que as alemãs e os alemães do lado comunista do muro de Berlim tinham mais liberdade sexual que os do lado capitalista. No lado comunista, havia educação sexual nas escolas, aborto legalizado, uma tolerância maior à nudez, e muito menos interferência da igreja. Além do mais, as mulheres eram mais independentes. 
Se isso tudo se traduz em "melhor sexo"? Pode apostar. A maior parte das religiões nos ensina que sexo é pecado. O machismo fala pras meninas desde muito novas que elas devem "se valorizar" (e não, isso não é um incentivo pra que elas façam mestrado). 
Um monte de rapaz brocha com a ideia de uma mulher tomar a iniciativa. Ignorância sobre sexo é meio caminho andado pra sexo de péssima qualidade. Imagina: como que um cara que não sabe que o clitóris existe, ou, pior, que sabe mas não acredita que mulheres gostem de transar, pode ser um bom amante?

Reaça que passa a vida chamando feminista de mal amada sendo honesto
Que mulheres e homens feministas têm uma vida sexual melhor, também não restam dúvidas. Pessoas que conhecem melhor seus corpos e têm menos inibições vão ter mais prazer. Ou seja, aquela lorota de que feministas são mal amadas é apenas uma lorota (e das antigas: tem mais de 160 anos, já era usada contra as sufragistas). O estereótipo de "mal comida" não podia estar mais distante da verdade. Uma pesquisa da Universidade Rutgers, nos EUA, constatou que pessoas feministas são simplesmente mais felizes no amor, pois brigam menos e têm relacionamentos mais estáveis: 
"Ao contrário do que dita o senso comum, feminismo e romance não são incompatíveis, e o feminismo pode inclusive melhorar a qualidade das relações heterossexuais, de acordo com estudiosas da Universidade Rutgers. O estudo também mostra que estereótipos negativos sobre feministas, que tendem a estigmatizar feministas como não atraentes e sem apelo sexual, são insustentáveis". Chato, né, machistinhas? Onde está seu deus agora?
1o Congresso Mulheres em Luta
Não sei se preciso falar das ligações do feminismo com a esquerda. Preciso? Por mais que existam feministas de direita, são uma minoria. O feminismo é um movimento de esquerda. Eu pessoalmente desconheço coletivos feministas ligados à direita. Já coletivos antifeministas ligados à direita... São todos, né?
Não sei se dá pra chamar isso de coletivo, mas surgiu no final de janeiro uma página no Facebook chamada Musas Olavettes. São todas seguidoras do guru da direita Olavo de Carvalho, que ultimamente (desde que entrou no Facebook, digamos), tem feito declarações não muito ortodoxas sobre romance e relacionamentos, provando que, prum astrólogo, é tão fácil virar sexólogo quanto foi virar filósofo. É só querer. 

Uma das musas olavettes é aquela do Leblon, que faz pouco tempo nos alertou sobre um plano comunista totalitarista prestes a tomar o Brasil (obrigada pelo alerta vermelho, Marta!). 
É certo que todo mundo fica mais bonito com photoshop e posando em estúdio pra fotógrafo profissional, mas olhando essas musas, nada pode me convencer que, se elas fossem descritas como universitárias de Ciências Sociais ligadas ao DCE, ainda seriam vistas como musas. 
Comentário no Musas Olavettes
Como não existem muitas mulheres de direita, e muito menos mulheres assumidamente fãs do astrólogo-filósofo, os homens olavettes ficam ouriçados. Isso que é direita festiva! Natural, já que, segundo Pondé, esses seres não devem ter muito contato com mulher. Então o nível de puxa-saquismo é tão, mas tão alto, que nem meus inimiguinhos mascus (reaças em primeiro lugar) aguentaram, e declararam Olavão uma persona non gratta no masculinismo
Mais ainda: apelidaram os olavettes de consermanginas (mangina é um termo mascu pra homem que elogia mulheres e faz suas vontades), e as musas olavettes de conservadias (é o que eu sempre digo: ser mulher reaça não fará com que demais reaças te respeitem).
E chegamos aos mascus, exemplos típicos de homens de direita revoltados justamente por não fazerem sucesso com as mulheres. 
Eles odeiam o PT, não gostam do Brasil, detestam as pessoas de modo geral, mas, se não fosse pelo total fracasso com o sexo feminino, mascus não existiriam. Mascus sempre foram machistas e conservadores, mas o que os fez virar mascus e ir pro lado misógino da força é ou ter sido ignorado a vida toda ou ter tido o que eles chamam de "bruxa madrinha", uma ex que os traiu ou os abandonou, providenciando aquele empurrão final pra que eles concluíssem que mulher é tudo vadia, nenhuma presta. 
É público e notório que mascu não pega ninguém. E, sabe, não há nada de errado nisso -- exceto se você mede o valor dos homens pelo número de parceiras sexuais que eles têm (como mascus e o senso comum fazem), e o valor das mulheres pelo número de parceiros sexuais que elas não têm (quanto menos, melhor. O ideal é que a moça seja virgem).
Todos os mascus são reaças, mas nem todos os reaças são mascus. Pondé provavelmente nem sabe da existência de mascus, mas sabe, por experiência própria, que em ambientes reaças há poucas mulheres (por exemplo, entre os americanos que se dizem libertários, 68% são homens, 94% são brancos; ah, você vai querer negar que libertários são de direita? Poupe-me). 
E no Twitter tá cheio de reaça. Está sendo divertido vê-los agora fazer a egípcia, fingir que não é com eles. Eles, sempre tão barulhentos nas redes sociais, estão caladinhos. Não querem vestir a carapuça que Pondé lhes serviu. 
No entanto, apesar do artigo do filósofo na Folha chamar os jovens direitistas de pega ninguém, ele é otimista. Porque Pondé pensa que é só a direita ser mais festiva, os caras falarem de liberdade e de documentários e vestirem uma boina e fumarem um charuto cubano, que o problema está resolvido -- eles conseguirão enganar essas universitárias bobinhas, e pegá-las. Depende só deles, não delas.
E é aí que eu trago más notícias, Pondé e demais reaças. Convivo bastante com universitárias de Humanas (sou professora, dou palestras), e posso assegurar que elas estão cada vez mais politizadas, mais organizadas, mais inteligentes, mais livres. Elas sabem muito bem o que querem. E não querem coxinhas. 
Infelizmente, vocês vão ter mesmo que se contentar com a meia dúzia de musas olavettes. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

INSULTOS MENTIROSOS E MEIO BATIDOS

Legenda que mascu fez me comparando com Miss Piggy (que é uma gracinha)

Como hoje é feriado pra homenagear um barbudão que foi enforcado pela sua insubordinação, e ninguém lê blog em feriado mesmo, e eu até agora não fiz 50% do que tinha pra fazer de trabalho, vou aproveitar pra colocar algumas imagens faceiras que fazem sobre mim. 
Não vou incluir as ameaças de morte, estupro e tortura que recebo semanalmente, quase sempre acompanhadas da divulgação do meu endereço residencial. Só vou falar das coisas mais levinhas mesmo. E, óbvio, deve haver muitas outras montagens feitas sobre mim. Essas são apenas algumas que, de uma forma ou outra, eu fiquei sabendo. 
Sabe-se lá por que cargas d'água, mascus, reaças e channers adoram me comparar com outras pessoas. Certo, é para "provar" algum ponto, como o de que travestis são melhores que mulheres (porque, pra eles, eu represento todas as mulheres, a imagem de uma travesti representa todas as travestis, e travestis e mulheres trans não são mulheres). 

Outra comparação campeã de audiência é com a jornalista Rachel Sheherazade. 
Eu gostaria de acreditar que não tenho absolutamente nada em comum com essa senhora reacionária, mas a galera insiste nas comparações. Essa aqui é bem light e nem está tão cheia de mentiras.

Mas esta daqui... A parte que me descreve não tem uma só verdade sobre mim. Ok, eu sou mulher (sem o ponto de interrogação), sou de esquerda, e sou obesa mórbida. O resto... 
Acho que eu deveria ficar radiante que ninguém quer me estuprar, mas, sei lá, as ameaças que recebo não demonstram isso. Além do mais, se ninguém me conhece, qual é o ponto de me comparar com uma jornalista que ganha 90 mil reais por mês pra falar em rede nacional de TV?
O mais bacana foi que, numa das dezenas de páginas no Facebook em que esta imagem foi compartilhada, havia mais mentiras ainda, como afirmar que eu moro com meus pais (meu maridão há 23 anos realmente não existe pra essa gente). Ontem fez 21 anos que meu amado pai morreu. Meio difícil morar com ele.
Eu e Silvio, meu único amor há 23 anos
Tem também o mascu Chris, que "trabalha" na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, numa cidade chamada Anastácio. Chris, que é formado em Direito e já tem 33 ou 34 anos (ou seja, não é um menino brincando na internet), jurou o feminismo de morte desde que foi expulso da uma pós em Gênero e Raça da UFMS. Quer dizer, ele não foi bem expulso. A administração do curso se aproveitou de um dos seus muitos mimimis para dizer: olha, se você está tão infeliz nesse curso a distância, é melhor manter distância.
De lá pra cá, Chris fez de sua missão na Terra acabar com o feminismo. Está indo muito bem. Um abaixo-assinado que ele fez pra criminalizar o feminismo no Brasil já angariou treze assinaturas em um ano. 
Pelo jeito, eu sou a única feminista que Chris conhece, então 70% dos seus muitos posts são pra falar mal de mim. Qualquer tweet, qualquer post meu, qualquer comentário, é pretexto para o mascuchris criar mais um texto com argumentos poderosos como me chamar de balofa.

Chris também faz alguns vídeos pra destruir o feminismo. É até comovente que, quando ele fala em mim, imediatamente se põe a chorar. 
A emoção é forte demais pra ele. É sério mesmo. Eu tirei este print de quando ele me menciona pela primeira vez num de seus vídeos (os outros são iguais). 

O negócio é bastante patológico. Este post recente (clique para ampliá-lo) indica que tudo que ele quer é ser meu amigo. Ele faz todo um emaranhado de adivinhações pra chegar à conclusão que EU é que sou uma psicopata.  
Não chore, Chris. A vida é bela fora da sua redoma de ódio e insanidade. 
O que mais me choca é esses caras acharem que alguém pode querer a vida que eles levam. 
Leitorxs sempre me perguntam: como é que você aguenta? Bom, eu tenho casca grossa. Essas asneiras não me atingem. Elas dizem muito mais sobre quem as fez e divulga do que sobre mim. Sem falar que os insultos não são necessariamente pessoais. Fazem parte de um embate ideológico. Tem gente que só está na internet pra espalhar o estereótipo mentiroso de que feministas são feias gordas lésbicas mal-amadas peludas com inveja do pênis e odiadoras de homens. Exatamente o que se falava das sufragistas há 160 anos. 
Nenhum machista jamais ganhou algum prêmio de criatividade. 

domingo, 20 de abril de 2014

GUEST POST: CRÍTICA DE HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

Vitor tem 21 anos, mora em MG, é graduando em Publicidade e Propaganda, e trabalha em uma agência como redator e social media, além de ser colaborador do blog Weird Fishes, onde escreve sobre o cenário da cultura pop e underground de Belo Horizonte. 
Ele me enviou esta crítica sobre um filme que ainda não vi, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (trailer aqui), baseado no curta que eu (e um montão de gente) vi e recomendo

Hoje eu quero voltar sozinho, que venceu o prêmio da crítica no Festival de Berlim, estreou recentemente em 140 salas de todo o Brasil. 
O longa é um encontro com a tolerância e a descoberta de uma realidade muito próxima a de qualquer um de nós. A história de Leonardo, um adolescente cego que busca pelo seu lugar e descobre sentimentos até então desconhecidos, é a representação de uma fase importantíssima na vida dos jovens, hoje despercebida devido à crença de que a felicidade é um direito e não uma consequência.
A narrativa retratada atualmente nos cinemas está na cabeça das pessoas desde 2010, quando Daniel Ribeiro, já premiado em Berlim pelo curta Café com Leite, resolveu fazer um curta-metragem, devido à dificuldade em financiar um longa, apresentando os seus personagens e contando a história de Eu não quero voltar sozinho, que somou mais de 3 milhões de visualizações no Youtube. A popularidade da história na rede social não é por acaso. 
Ainda que o tema retratado pelo curta fosse categorizado, na época, como representativo para a “minoria”, a internet já contava com mais de 1,97 bilhões de usuários no mundo, sendo 204,7 milhões só na América Latina.
Diferente do curta, o longa não trata apenas da descoberta e construção da sexualidade, mas também de desbravar as relações com a família e com o mundo. De maneira profunda e carismática, nossas certezas e expectativas se misturam com as dos personagens Leonardo (Guilherme Lobo), Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fabio Audi), que permeiam o roteiro como um reflexo de todos nós, tornando o discurso real e palpável, de maneira que se torna essencial tal experimentação para qualquer idade.
Com mais tempo e recurso, era evidente que seria necessário explorar com a mesma sensibilidade presente no curta, todas as nuances que envolvem a sexualidade dos jovens e as dificuldades de uma pessoa cega na luta pela sua independência. E isso, apesar de um detalhe ou outro, é feito. 
Com uma pegada leve, o longa trata sobre bullying e homossexualidade de maneira atual e sem exageros, fazendo com que o telespectador, sem forçar a barra, reflita sobre o seu posicionamento perante as mudanças da própria sociedade.
É através das expressões com intensidade entre Leonardo e Gabriel, que descobrimos que é preciso coragem para ultrapassar a barreira do cinema em busca de uma realidade com mais compreensão, liberdade e amor. Ao olhar atentamente para as pessoas presentes na sala de cinema, percebo o espanto, a felicidade e a aceitação gerados pelo amadurecimento do curta para o longa – não apenas no roteiro e nos personagens – é algo muito mais particular.
Depois do êxtase, quando as luzes se acendem, o contato com o mundo mudou. Percebemos que somos pouco diferentes de Leonardo, que com olhos repletos de curiosidade, soube dar novas cores a um mundo tão cinzento.