segunda-feira, 27 de julho de 2015

A CHINA, SEMPRE A CHINA

Lolinha no Templo do Céu, em Pequim

Tour pela Uuniversidade de Peking com
Pay, Felipe, Luiz, Pablo, Luã, Lucas,
Sarah e Emma (eu meio no meio)
Voltei ontem da China após uma jornada de 40 horas entre aviões e aeroportos, mas ainda quero escrever muito sobre esse país impressionante, se me permitem. Foi realmente uma viagem inesquecível, única. Amei. E acho que sempre que conhecemos um novo país, uma outra cultura, podemos refletir mais sobre a própria realidade em que vivemos.
Chato é ter que ler algum comentarista anônimo dizendo que "estou fazendo propaganda da China". Como se a China, o país mais populoso do mundo (1.4 bilhões de habitantes: 19% da população mundial é chinesa), o terceiro maior país geograficamente, a segunda economia do planeta, que já já vai passar os EUA, precisasse de propaganda (ainda mais vinda de uma blogueira). Como se eu não tivesse o direito de falar de um país que acabei de conhecer e que me conquistou totalmente. 
Luiz, eu e Emma (seu nome ocidental)
em frente ao lago da PKU
Eu não sabia praticamente nada sobre a China, e continuo sabendo bem pouquinho. Mas passei 21 dias de atividades culturais e acadêmicas intensas (patrocinadas pelo Banco Santander no seu excelente programa Top China), conversei com vários chineses (em inglês, óbvio), assisti a ótimas aulas dadas por professorxs de uma das melhores universidades chinesas, a Peking University, e, bem, é todo um mundo novo que se abriu pra mim, e que quero compartilhar com vocês. 
Eu e Vitor no centro
aquático do zoo de Pequim
Sem preconceitos. Leiam com a mente aberta. Sugiro aos reaças esquecerem que a China é um país comunista, porque não é, ou melhor, é, mas apenas politicamente. Economicamente, é capitalista selvagem. Na realidade, me pareceu que os chineses não estão nem aí se o país deles é comunista, capitalista, whatever. Eles (assim como todos nós) só querem ter uma vida melhor. E "melhor", pra muitos deles, significa mais consumo. E lógico que tudo isso interessa muito ao Brasil, pra quem a China já é o maior parceiro comercial.
Todas as chinesas com que conversei foram unânimes em dizer que a situação da mulher na China mudou muito, e que é um erro vê-las como submissas. Elas acham que machismo e discriminação existem, mas muito mais nas províncias afastadas que em metrópoles como Pequim e Shanghai. Todas elas, porém, falam do "glass ceiling", o teto de vidro, um termo feminista designado para mostrar que, apesar de parecer que temos oportunidades sem limites no emprego, há barreiras que nos impedem de "chegar lá". As jovens chinesas com que falei sentem que não têm oportunidades iguais no trabalho.
De resto, elas parecem ter algumas vantagens sobre nós. Tipo: é proibido erotizar mulheres na mídia. Na China não se veem outdoors de jovens nuas ou seminuas posando para vender produtos. E lógico que existe pornografia, mas ela é toda clandestina. 
Eu posando com uma noiva
tradicional no Templo do Céu
Outra coisa: um cara dizer uma grosseria na rua pra uma mulher é raríssimo. Um aluno me contou que, quarenta anos atrás, isso era até crime. Mas a criminalização passou e ficou o costume de que não se deve falar com uma estranha, ainda mais sobre algo sexual. Se isso acontecer, segundo o aluno, é perfeitamente aceitável que a mulher dê um tapa no cara. E nunca que ele vai revidar, porque ele é quem errou em primeiro lugar. 
Pichação típica em SP
Ah, me chamou demais a atenção não ter visto uma só pichação em 21 dias de China. Nenhum prédio ou muro pichado. Alguns muros com arte eu vi, mas nada daqueles rabiscos que tanto enfeiam nossas cidades. Me perdoem os que pensam que pichadores são grandes rebeldes se apropriando de um espaço público que não lhes pertence. Pra mim, são só gente tentando marcar território com sujeira. 
Bom, semana passada fomos à Cidade Proibida, em Pequim, e fiquei maravilhada. É enorme, tem que andar muito, e embaixo do sol, e o lugar é lotado, cheio de turistas (a China é o quarto país mais visitado do mundo; a França é o primeiro; o Brasil, apesar de todos os nossos encantos naturais, é somente o número 40) e excursões de escolas chinesas. Mas amei o passeio. Vale a pena ir com uma boa guia, que vai te explicar tudinho.
Só que decidi fazer uma pergunta na terceira vez que a guia mencionou yin/yang, exemplificou com masculino e feminino, e elogiou a harmonia e o equilíbrio. Disse pra ela que, em alguns lugares, existe uma crítica a essa oposição binária, que de repente feminino e masculino não são opostos, e se essa manutenção da “harmonia” não poderia ser vista como a manutenção do poder, do status quo. Ela respondeu que isso é muito tradicional, e um outro chinês que estava próximo emendou que eles veem homens e mulheres como diferentes, mas sem que um seja superior ao outro. 
Eu na Cidade Proibida. Foto da doce
Fernanda
Como conheço bem essa lenga-lenga aqui no Ocidente (religiosos sempre falam isso!), respondi que, se só um dos sexos pode ser imperador, se só um pode ser presidente, se só um pode ser primeiro-ministro, e se ao outro sexo cabe o título de “mulher oficial do imperador”, então sim, eu acho que eles veem um sexo como superior ao outro. Eles não rebateram. 
A Cidade Proibida foi invenção de um imperador, que transferiu a capital para Pequim, 600 anos atrás. Lá ele vivia com sua esposa oficial, filhos, concubinas, e uma legião de serventes. Há várias casas dentro da cidade, e dá pra perceber quais são as mais luxuosas e importantes devido ao número de pequenas estatuetas no teto. As que têm teto duplo e nove estátuas de animais são as mais dignas do imperador.
O sistema feudal de imperadores na China acabou em 1912, e a primeira vez que a Cidade Proibida foi aberta a visitantes foi em 1925. Esse é um dos períodos que a gente menos conhece sobre a China, imagino -– essa transição entre o fim do feudalismo e o início do comunismo, em 1949. Durante esse breve tempo, a China foi uma democracia, mas o Partido Republicano perdeu força, não avançou nas questões sociais, e o Partido Comunista foi crescendo. Tudo isso ligado ao perigo japonês, que invadiu a China durante a Segunda Guerra. 
Imagem icônica, versão Lego
Conversei com alguns alunos chineses, que me contaram que a história oficial, como ela é narrada na escola, é que a Revolução Cultural foi um equívoco. Mas o “Comandante Mao” segue sendo um herói. A Praça Tiananmen (a maior do mundo, segundo a guia, e terceira maior, segundo a Wikipedia), também conhecida como a Praça da Paz Celestial (o que automaticamente nos remete ao massacre da Paz Celestial, que ano passado marcou 25 anos, e que não é citado nas escolas chinesas), 
onde está o mausoléu de Mao, tem uma cerimônia diária de erguer a bandeira que continua sendo acompanhada por milhares de chineses. Então como eles fazem pra considerar a Revolução Cultural um fracasso e ainda assim reverenciar Mao? Fácil: eles culpam quatro outros caras por traírem Mao. 
Mas talvez seja mais do que isso. Tive a impressão que os chineses não gastam muito tempo criticando personagens de sua longa história de 5 mil anos. Por exemplo, perguntei ao Vitor (seu nome ocidental), um universitário chinês querido e inteligente de 19 anos, por que não há críticas aos imperiadores. Afinal, a maioria dos imperiadores foram cruéis ditadores que mandavam e desmandavam pensando apenas em si. 
Vitor e eu no Templo do Céu
E, no entanto, parece até haver uma idolatria a todo esse passado. Só em Pequim, além da Cidade Proibida, há inúmeros pontos turísticos relacionados a imperadores, como o Palácio de Verão e o Templo do Céu, entre outros. Por isso perguntei ao Vitor: por que vocês não fazem críticas aos imperadores? E adorei a resposta dele, sincera e legítima: “Porque nós ganhamos dinheiro com eles. E porque não adianta criticar: eles se foram. Nós estamos aqui”. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

GUEST POST: DE MENDIGO A SOLDADO

O A. me enviou seu relato (depois de publicado o post, um comentarista avisou que o post é trollagem inspirada na vida de Hitler antes dos 30 anos; a trollagem foi bem feita e não costumo deletar posts):

Acompanho seu blog faz algum tempo, e te admiro muito pelo seu trabalho dentro do feminismo. Eu sinto uma profunda simpatia pela causa feminista. Gostaria de relatar uma faceta do machismo que é despercebida pelas pessoas. Tenho sofrido um bocado por isto, mesmo tendo nascido homem.
Desde de que me entendo por gente, sempre gostei de pintar. Amo pintar paisagens,  como fazendas,  prédios, e cidades. Queria virar pintor, mas meu pai me dizia que isto “era coisa de menina”. Colocou-me em uma escola técnica, pois isso sim era “serviço de homem”. Ele esperava que me tornasse um funcionário público, assim como ele foi.
Meu pai sempre foi um machista ridículo que humilhava minha mãe, a mim e meu irmão. Tratava  todos como capacho, e era um deus nos acuda nos dias que estava de mau humor ou bêbado (ou às vezes, os dois). Minha vida em casa foi uma luta diária, onde meu pai era o inimigo de toda a família.  Meu irmão mais novo brigou feio com meu pai aos 14 anos. Fugiu de casa, e desde então nunca mais o vi.
Minha mãe foi a única que realmente cuidava da gente e me dava a motivação para continuar pintando. Meu pai, no entanto, tentava me impedir de seguir meu sonho de me tornar um artista. Fiz tudo o possível para ir mal na escola técnica que ele me colocou, para que visse que não adiantaria me separar da minha paixão pelas artes.
O começo da minha adolescência foi um inferno nas mãos do meu pai, mas que acabou subitamente quando ele faleceu de uma hemorragia no pulmão. Apesar de me sentir triste pela morte dele na época, entendi que estava livre para conquistar o mundo com minhas pinturas. Saí da escola técnica.
Ao terminar o ensino médio, prestei vestibular em uma faculdade de belas artes. Estava confiante de que iria passar na prova prática, e fiz o melhor que pude no exame. Quando saiu o resultado, fiquei irritadíssimo ao saber que tinha sido reprovado.
Naqueles tempos, o estado de saúde de minha mãe estava cada vez mais grave. Ela sofria de câncer e eu não pude tratar da doença dela, pois os bicos que eu fazia mal conseguiam pagar as contas de casa. Até que, quatro dias antes do Natal, ela faleceu, me deixando sozinho no mundo. Foi o momento mais triste da minha vida.
Sem dinheiro, me mudei para um apartamento com um amigo. Costumava andar pela cidade, e discutir com ele minhas ideias para pinturas, reformas na cidade, política, sobre tudo, até tarde da noite. Eu era tão inspirado naqueles tempos, que sempre quando começava uma ideia, outra melhor tomava forma dentro da minha cabeça. Prestamos vestibular juntos (ele prestou para música, eu prestei para artes visuais mais uma vez), só que só ele conseguiu passar. Foi chato ficar de fora, com meu amigo entrando na faculdade e eu só ficando gradualmente mais pobre.
Tive de me mudar para um quartinho em outra casa, sozinho. Meu amigo foi chamado pelo alistamento militar e acabei perdendo contato com ele. Daí em diante, minha vida desandou de vez, porque não conseguia emprego, até que fiquei sem um tostão no bolso. 
Vendi tudo o que me tinha sobrado, e ainda assim isso não me impediu de acabar dormindo na praça. Virei mendigo. Acho que fiquei pouco menos de um ano nessa vida, e quase morri de fome. Foi horrível, ficar dependendo de esmolas para sobreviver. Você começa a dar valor  de verdade para sua comida, para seu teto, saber que você pode sucumbir a qualquer doença e morrer ali mesmo. De sonhador, me tornei um rapaz rígido e severo demais, por causa daquele tempo vivido nas ruas.
Minha vida só foi melhorar quando fui para um abrigo para sem-tetos na cidade. Costumava comer num convento que havia lá perto, onde tinha umas freiras que me davam o que comer, a troco de nada. Comecei a vender alguns quadros (eu via paisagens em fotos e as copiava), e com os trocados que eu ganhava pude morar numa pequena casa junto com outros como eu. Um homem que morava comigo naquela casa me ajudava a vender os quadros, fazendo a entrega em lojas de decoração. Esse acordo ia bem, até eu descobrir que ele roubava meu dinheiro. Chegamos a brigar feio, chamei a policia por causa dele, e ele até foi preso por alguns dias.
Como eu amo meu país, decidi entrar no exercito. Acho que a melhor forma que eu poderia encontrar para ajudar a Pátria é aqui dentro do exército. Sinto-me acolhido pelas pessoas da instituição. É claro, eu destoo um pouco dos outros soldados, que vivem falando sobre garotas. Eu vivo falando de política, e eu sempre tive muito respeito pelas moças, então não tenho muito o que conversar com eles.
Talvez, quando estiver velho demais para ficar aqui no exército, eu possa virar político,  e aí posso também ajudar a combater o machismo, que tanto atrapalha a vida de tantas pessoas neste mundinho. Ainda quero ser artista, mas meu sonho ainda vai demorar para se realizar.
No final, somos igualmente oprimidos. Eu queria ser um artista, porém, tudo conspirou para que eu não pudesse seguir meu sonho. Se meu pai não fosse tão retrógrado, tão machista, tão bárbaro, quem sabe como minha vida poderia ter sido?

quinta-feira, 23 de julho de 2015

POBRES SÃO MAIS PRECONCEITUOSOS?

A N. me enviou este email:

Gostaria de tirar uma dúvida. Na minha família sempre tenho conflitos com meu irmão, a namorada dele e meus pais, pois todos são contra o feminismo e me consideram ridícula por defendê-lo. Infelizmente, tanto meu irmão quanto sua namorada não tiveram acesso a boas universidades e meus pais vieram de uma origem muito humilde, na qual a mulher é criada para ser dona de casa e o marido deve ser responsável pelo sustento do lar.
Como a vida é muito imprevisível, meu pai foi aposentado por invalidez devido a uma grave doença e por isso minha mãe precisou trabalhar para que nossa família tivesse uma renda razoável. Eu senti muito orgulho dela nesse momento, mas ela não sente orgulho de si mesma e sempre diz: "Queria ser como as mulheres da nossa rua, ficam em casa e cuidam do lar, só eu tenho que ir pra rua e trabalhar para dar sustento nessa casa!" Realmente, todas as mulheres da minha rua são donas de casa, pois eu moro na periferia e isso aqui é bem normal.
Além disso, na minha casa já teve aqueles clássicos conflitos de meu irmão não fazer nada enquanto eu faço várias coisas. Ele deixa louça suja na sala, não limpa a casa, não lava a própria roupa. Quando comecei a reclamar disso por ver a minha mãe chorando por estar sobrecarregada, ela ficou contra mim e o defendeu, dizendo que é ela que manda na casa e que ali faz quem quer. 
Lá em casa é bizarro, pois quando meu irmão começou a trabalhar depois de anos em casa sem fazer nada, meu pai acordava mais cedo só para passar a roupa dele e fazer o pão com manteiga e café e deixar na mesa já pronto, pois de acordo com eles ele acordava muito cedo às 8h da manhã. Detalhe: durante anos eu acordei às 4 da madrugada, saía de casa às 5, demorava 2 horas para ir para a faculdade que era no outro canto da cidade... e todos achavam absolutamente normal. 
Numa época que meu pai adoeceu gravemente de novo, exatamente no dia que precisávamos achar um lugar para ele ser internado porque estava prestes a morrer, meu irmão não quis ajudar porque estava estudando para uma prova. Eu deixei de ir no meu primeiro dia de estágio para achar um hospital para o meu pai, afinal, de que vale um emprego quando se perde um pai? Aí um dia depois da internação do meu pai, a grande pergunta do meu irmão foi: "ué, o pão não tá pronto?".
Quando eu falo sobre isso, meus pais resumem a ciúme, porém eu considero injustiça e machismo apoiar alguém que usa da sua posição de homem para conseguir benefícios na casa. Quando ele levou a namorada para dormir em casa, ninguém se importou, mas quando eu trouxe meu namorado, minha mãe praticamente falou que eu a envergonhava e que eu fazia da nossa casa um bordel.  
Chegou ao ponto de num dia que joguei isso na cara deles meu irmão veio na minha direção e ameaçou de me espancar se eu falasse qualquer outra coisa da sua namorada. Minha mãe, desesperada já que meu pai não tem forças para ajudar, foi escandalosamente na rua pedir ajuda aos vizinhos. Veio um vizinho que é taxista e apartou a briga, mas ficou do lado do meu irmão.
Enquanto meu pai estava internado, minha mãe começou a inventar muitas mentiras sobre mim depois que briguei para o meu irmão ajudar em casa. Ela chegou a ligar para o meu namorado para falar mal de mim! Tudo culpa do feminismo, de acordo com ela. 
E pasmem, reclamei que meu irmão é doente porque mija nos carros em frente a nossa por achar que ninguém deve estacionar ali, afinal ele considera que a rua é dele. Comparei isso a um animal que quer marcar território, e aquele vizinho taxista o defendeu novamente dizendo que ele também faz isso e ainda arranha os carros, porque fica sem ter onde estacionar na rua. Caramba, só eu acho isso meio animalesco? 
Enfim, depois dessa história toda eu queria tirar a minha dúvida que até agora não falei qual era! Acredito que minha família e a namorada do meu irmão são assim por ter pouco acesso à cultura e aos estudos. Porém, tenho medo de cair no preconceito em vê-los assim, mas a conversa com eles me parece muito rasa. A namorada dele só sabe falar de produtos de beleza e alguns filmes de animação e historinhas bobas (ela tem 25 anos), já meu irmão (28 anos) só fala de videogame e livrinhos de dragão. Minha mãe às vezes solta comentários como "preto fede mais!" e meu pai fala que "toda loira é piranha". 
Por sorte da vida eu tive acesso a uma boa faculdade e convivi com pessoas bem diferentes da minha condição financeira, que pensam diferente e acreditam numa sociedade melhor. Infelizmente eu não consigo mais ter um diálogo com a minha família, porque tudo o que reclamo eles falam que sou uma feminista rancorosa e estou com ciúme do meu irmão. Sério, não os visito há meses por não conseguir dialogar. 
O que eu faço? Queria saber se tem algum estudo ou pesquisa que diga que pessoas mais humildes, sem acesso à educação e cultura são assim, machistas e preconceituosas. Porque é realmente isso que parece!

Minha resposta: N., querida, em primeiro lugar, não existe isso de "não tem cultura". Risque essa expressão do seu vocabulário. Cultura todo mundo tem. Só porque não é a cultura valorizada pela elite não quer dizer que não seja cultura.
Todos nascemos numa cultura, crescemos nela, somos socializados dentro dela. Por isso, somos frutos desse meio. E o nosso meio é machista. Nosso meio diz que homens e mulheres são totalmente diferentes, opostos até, têm vocações "naturais" e, por isso, merecem ser tratados de forma distinta, com a maior parte dos privilégios ficando pros homens. Esta ainda é a cultura do Brasil, século 21, independente da classe social. 
Porque tudo isso que você narra -- do seu irmão poder levar a namorada pra casa, e você não; do seu irmão ser tratado a pão de ló, e você não; de você ter que fazer tarefas domésticas, e seu irmão não; dos seus pais darem mais valor às opiniões e experiências do seu irmão do que às suas -- acontece em todo lugar. É o padrão. É visto como normal. Criticar esse sistema é tido como coisa de feminista, de revoltada, de mal-amada, de ciumenta, de comunista, de gente que quer destruir a família (a própria e a instituição familiar como um todo).
Deve existir, mas eu pessoalmente não conheço família que trate seus filhos e filhas da mesma forma. O mundo evidentemente está mudando, e hoje as mulheres já são metade da força de trabalho do país e 37% dos "chefes de família". No entanto, nos afazeres domésticos a situação mudou quase nada na última década. Ainda são considerados uma obrigação feminina, e assim mulheres acarretam jornadas duplas e triplas (e depois ainda vem gente reclamar de mulheres poderem se aposentar cinco anos antes, tendo que trabalhar, em média, dez horas a mais por semana -- juntando trabalho fora e dentro de casa -- que os homens).
Isso não tem nada de natural. É ensinado desde muito cedo. E perversamente construído como se fosse natural. Uma pesquisa recente com 1.771 meninas de 6 a 14 anos, nas cinco regiões do Brasil, revelou que 82% delas fazem a própria cama, e 77% lavam a louça. Entre os meninos, isso cai para 12% e 13%. Se crescemos com essa mentalidade, provavelmente vamos educar nossos filhos para agir e pensar da mesma forma. Por isso é tão importante termos educação de gênero nas escolas -- para questionar esse sistema que se perpetua.
Educação é a chave. Muita gente tende a achar que pessoas pobres, por terem menos educação formal, são mais preconceituosas. Mas isso depende. Qual educação a classe média e alta tem em suas escolas particulares? Se for uma que apenas reitera o status quo, que não questiona, que não transforma, pessoas dessas classes sociais serão tão ignorantes e preconceituosas quanto às de classes menos favorecidas.
Tem uma frase linda do Paulo Freire (hoje visto como comuna de alta periculosidade pelos reaças, os mesmos que acham que "ideologia de gênero" veio para destruir "a família": "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". Seu irmão, mesmo sendo homem, é oprimido pelo sistema capitalista. Mas ele não luta contra o sistema. Ele quer apenas virar opressor. Mesmo as classes privilegiadas no Brasil são oprimidas dentro de um contexto global, que ainda nos vê como quintal sub-desenvolvido de países ricos. Mas as pessoas dessas classes não criticam um modelo imperialista e pós-colonialista. Pelo contrário, seu sonho é ir embora do Brasil para um país rico. 
Que bom que você aprendeu a questionar. Seu sonho não é se tornar opressora. Seu sonho é derrubar o sistema. Enquanto a gente não consegue, não se sinta tão mal por, já adulta, querer manter um pouco de distância da sua família preconceituosa. Você é independente e não precisa deles.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

FEMINICÍDIO: DO DISCURSO AO ATO

Num post sobre feminicídio, alguém deu exemplos do tipo de discurso que tem tudo pra descambar em violência contra as mulheres:

"Nossa, converso com muitos rapazes em razão de um curso que faço, e sempre quando estou conversando observo que a maioria dos homens acreditam sim que a namorada/ esposa/ noiva é propriedade deles.
Admito que alguns tentam mascarar isso, mas em uma conversa informal, começam os comentários do tipo 'Se ela falar isso comigo leva uma na cara', 'Nunca que ela vai sair com determinada roupa perto de mim', 'Hoje se não tiver janta pronta vai levar tapa na cara'.
Sempre falo do quanto sou contra qualquer tipo de violência, inclusive já levei uma pesquisa impressa sobre a taxa de homicídios de mulheres e como vem aumentando com o tempo.
Enfim, não acho que o caso seja simplesmente as mulheres tomarem cuidado com os 'tipos' que se relacionam, mas sim, todxs nós procurarmos educar os rapazes, e os meninos mais jovens, para que não fiquem com essa mentalidade, e para que saibam respeitar as mulheres." (Anon)