terça-feira, 28 de março de 2017

CARTAZES FABULOSOS DE MANIFESTAÇÕES COXINHAS

O cartaz acima, visto numa manifestação reaça em Belo Horizonte (pensei que no último domingo, mas parece que o protesto mais recente foi um completo fiasco -- em Brasília, tinha mais policial do que gente pra tirar selfie com eles), é um primor da blasfêmia.
E uma das notícias ressuscitadas hoje, sobre como o prefeito de São Paulo, João Dóriase valeu de transações ilícitas nas Ilhas Virgens para comprar um apartamento em Miami, me lembrou de um cartaz fascinante visto em alguma manifestação do ano passado. 
É aquela lenda de que rico é honesto porque não precisa roubar. De fato, precisar, não precisa...

segunda-feira, 27 de março de 2017

SE VOCÊ CONHECE UM CHAN, VOCÊ CONHECE TODOS

Pessoas queridas, hoje estou sem tempo para escrever um post, mas queria recomendar um longo artigo do escritor e autor de histórias em quadrinhos Dale Beran que a Folha traduziu e publicou e que um monte de gente me recomendou. É sobre a criação e a ideologia do 4chan (e dos chans de maneira geral). 
Como diz Beran: "O mundo real, acima do porão da casa de suas mães, era o lugar onde eles não davam certo -- talvez um lugar que eles não entendiam. [...] Era uma cultura que celebrava o fracasso". 
Para quem nem sabe o que é um chan (um fórum anônimo em que os arquivos são deletados com frequência), vale a pena ler para entender esse fenômeno. 
Para quem, como eu, conhece chans (ou pelo menos o chan que mais me ataca e ameaça) muito mais do que gostaria, é uma oportunidade para conhecer melhor a origem de um dos maiores chans.
Episódio da série The Good Fight
O artigo fala do primeiro protesto desses "anões" (como eles próprios se chamam, derivado de anônimos), contra a cientologia, "pelo lulz" (tudo nos chans é para "gerar risadas", principalmente ameaçar mulheres de estupro), do GamerGate, de como um loser como Milo Yannopoulos (destruído recentemente num episódio da ótima série The Good Fight, uma continuação de The Good Wife, sem Alicia) é a personificação dos chans, e da ligação deles com Trump: 
"Era como se todos esses jovens descontentes estivessem à espera de uma figura que, não tendo realizado nada na vida, fazia de conta que tinha realizado tudo; alguém que, usando as ferramentas da fantasia, podia transformar sua derrota (no jargão do 4chan, 'fail') em uma vitória ('win'). [...] O comportamento incompetente, errático e ridículo de Trump é o pilar em que se apoiam seus partidários mais jovens. [...] A natureza burlesca [de Trump, e vale também para Bolsonaro] não parece ser uma desvantagem; pelo contrário, para seus apoiadores, é um trunfo. [...] 
"Os eleitores de Trump votaram no vigarista, no labirinto sem centro, porque labirinto sem centro é como eles se sentem. Um labirinto sem centro é a descrição perfeita do porão da casa da mãe deles, com um terminal de computador a partir do qual mergulham numa sequência interminável de mundos de fantasia escapista". 
Beran descreve os channers (muitos são mascus) com exatidão: "É preciso entender esse grupo como pessoas que fracassaram no mundo real e se refugiaram no mundo virtual. São homens sem emprego, perspectivas na vida e, por extensão, sem namoradas. [...] Em consequência de seu fracasso, o conceito distante e abstrato de mulheres de carne e osso provoca neles sentimentos de humilhação e rejeição". Incrível como, se você conhece um chan, você conhece todos
É um artigo muito interessante. Diz que a única solução que a direita tem para oferecer a esses homens que moram nos porões de suas mães (e, ao mesmo tempo, chamam as mulheres de vadias, interesseiras e parasitas) é "Continuem a se isolar". Mas também diz que a esquerda não oferece nada pra eles, além de insistir que o problema deles não existe. 
Beran conclui: "A esquerda não deve ficar paralisada e em choque diante dos deploráveis. Deve enxergá-los como sintoma de um problema maior, que só ela pode resolver". 

domingo, 26 de março de 2017

NEGRITUDE DA TERRA DA LUZ EXISTE E RESISTE

Ontem, 25 de março, foi o dia da Data Magna do Ceará, que marca o fim da escravidão no Estado. 
O Ceará foi o primeiro a abolir a escravidão no Brasil, em 25 de março de 1884. 
Reproduzo o lindo texto escrito por Giselle Marçal, professora de História em Acaraú, Ceará, militante do Juntos Negras e Negros. O texto foi publicado no Juntos!

A data magna 25 de março, marco do pioneirismo cearense na abolição da escravidão, é um chamado para que a “terra da luz” não deixe apagar a chama que levou tantos Dragões de nossos mares a se organizar, lutar e a resistir à exploração branca e europeia, que visivelmente legitimadas no passado, ainda permanece através da falta de ações reparatórias contundentes para a população preta e das manifestações de racismo que nosso povo vivencia cotidianamente em vários espaços na sociedade atual.
Por muito tempo a história do Ceará deixou entrever o mito de que no nosso território não havia escravidão. Diante destes discursos, visualizamos o quão importante é esta data para a luta da negritude cearense, de modo a descontruirmos a dita cordialidade branca que toma de assalto há séculos nosso protagonismo e nossas memórias. Estas ideias estão presentes hoje quando o jovem negro morre na favela e é taxado de “meliante” ou “vagabundo”; estas ideias estão presentes hoje quando o corpo da mulher negra continua sendo objetificado, dando margem ao aumento do feminicídio preto. Estas ideias estão presentes hoje, quando não temos representação no governo, em sindicatos, em universidades. 
Estas ideias estão presentes hoje quando Temer nos ataca cotidianamente com politicas públicas antipopulares e que só têm o único propósito de aumentar a desigualdade econômica-racial já existente. Por tudo isso já passamos e já estamos fartos!
É contra estas medidas que nossa geração preta quer ter voz e espaço! Vamos continuar reafirmando nossa história, vamos falar junto a José do Patrocínio e desenhar uma história da “Terra da Luz” preta! Vamos lutar como e por Dragão do Mar contra o conservadorismo, pois a luta anticapitalista é indissociável da luta antirracial.
Pelas nossas vidas pretas e por nenhum direito a menos, seguimos lutando!

quinta-feira, 23 de março de 2017

MAIS UM GOLPE DENTRO DO GOLPE: CÂMARA APROVA TERCEIRIZAÇÃO IRRESTRITA

Ontem, enquanto o país estava preocupado com a carne que come, o governo deu mais um golpe dentro do golpe: 
conseguiu que a Câmara dos Deputados aprovasse a terceirização irrestrita
Foi um placar apertado -- 231 votos a favor, 188 contra e 8 abstenções (uma delas de Jair Bolsonaro, que provou, mais uma vez, não dar a mínima pros trabalhadores; seu filho Eduardo votou a favor). 
Quem é a favor da terceirização tenta
confundir com esta mentira
O texto aprovado, na realidade, é de 1998, da época do nada saudoso FHC, que foi ressuscitado, mas não foi pra frente, em 2015. É um velho sonho dos empresários: acabar com as leis trabalhistas que, segundo eles, emperram o país (leia-se "limitam os lucros", que já são escandalosamente altos. Ou você acredita que são só os impostos que encarecem os produtos?). 
A terceirização irrestrita significa que pode-se contratar alguém para "prestar serviços" (sem carteira de trabalho, sem férias, 13o, hora extra, nada) para qualquer atividade no Brasil. Por exemplo, uma escola e universidade tem como atividade-fim ensinar. Antes, ela podia contratar terceirizados para atividade-meio (como limpeza e segurança). Agora, vai poder até terceirizar professores!
Juízes e auditores não poderão ser terceirizados, mas praticamente todo o resto, pode. Isso quer dizer o quê? Diminuição ou até o fim da maior parte dos concursos públicos, pra começar. 
Além disso, o texto aumenta a duração do trabalho temporário de três meses para nove meses. Na prática, quer dizer que, depois de nove meses, uma empresa (pública ou privada) pode "liberar" seu funcionário e "chamar" outro, sem qualquer direito trabalhista. 
A "empresa-mãe" não deve nada a seu funcionário, já que quem o contrata é uma empresa terceirizada. E claro que pode haver subcontratações. A empresa-mãe pode contratar uma empresa de terceirização, que pode contratar outra, e outra... Cada empresa terá que ter seu lucro. O que sobra para o trabalhador? Cada vez menos
E se a empresa terceirizada que contratou o funcionário falir (ou alegar que faliu) e não pagar o salário, algo que é super comum? O funcionário vai reclamar com quem? Não com a empresa-mãe, que só utiliza a sua força de trabalho, mas não tem qualquer contrato com o trabalhador, só com a empresa que faliu. Vai pra justiça do trabalho? Então, o próximo passo do governo é fazer uma baita reforma trabalhista. 
Apesar da terceirização ser péssima para todos os trabalhadores, adivinhe pra quem ela é pior? 
Pras trabalhadoras, óbvio. Mulheres são as últimas a serem contratadas e as primeiras a serem dispensadas. Grande parte dos terceirizados já é mulher (e negra, e jovem). Pode crer que, onde há total precarização do trabalho, há mulheres sendo exploradas
O trabalho escravo tem grande relação com a terceirização: 82% das pessoas resgatadas do trabalho escravo vêm de empresas terceirizadas. 
Sem falar que a terceirização facilita bastante a corrupção. Um prefeito pode contratar uma empresa de familiares (em nome de laranjas) para fornecer funcionários. No mínimo, a terceirização pode proporcionar um trem da alegria sem freios.
Ser terceirizado é um terror. Qualquer empregado sabe disso. 
Não é montagem: golpistas veem fim
de direitos trabalhistas como vitória
Terceirizado é um trabalhador de segunda categoria. Raramente tem benefícios como vale-transporte, vale-alimentação, acesso à creche, plano de saúde. Seriamente: você conhece algum funcionário terceirizado que não preferisse mil vezes ser contratado com carteira de trabalho? O terceirizado ganha menos que o empregado contratado regularmente, trabalha mais horas, está mais sujeito a assédio moral e sexual e a cometer suicídio, sofre mais acidentes de trabalho. 
Quando manifestantes empunham faixas escrito "Terceirização: Escraviza, mutila e mata", eles não estão exagerando. Mas os números não são ruins pra todos. O dono de uma empresa de terceirização ganha três vezes mais do que paga ao funcionário terceirizado. 
Se você não é empresário, não tem como ser a favor da terceirização. Porque você vai sofrer, em qualquer categoria que você estiver. 
É tanto retrocesso que vai afetar todo mundo durante décadas que tudo que eu posso pensar é: o que o povo está fazendo que não está na rua protestando? Vamos mesmo deixar que nos roubem os direitos sem esboçarmos nenhuma reação?
Se você tem dificuldade para se situar, ou só sabe dizer "Chora mais" (quando em breve quem estará chorando será você também), recomendo dois documentários: Terceirizado, um trabalhador brasileiro e Terceirização: a bomba-relógio. Nunca é tarde para começar a lutar.

quarta-feira, 22 de março de 2017

MINHA SOLIDARIEDADE A EDUARDO GUIMARÃES

Eu não gosto do blogueiro Eduardo Guimarães. Nunca gostei, não gosto do seu estilo, vi o sujeito ser machista algumas vezes. Mesmo que nós dois sejamos de esquerda, ele também não gosta de mim (num dos Encontros de Blogueiros Progressistas, segundo me contaram, ele reclamou por eu ter sido convidada). Mas seu Blog da Cidadania, que existe há mais tempo ainda que o meu, é um blog relevante da esquerda.
Ontem a Polícia Federal, a mando do juiz Sérgio Moro, deu ordens de condução coercitiva e busca e apreensão. Às seis da manhã, bateram na porta de Eduardo, em SP, e o levaram à delegacia. Confiscaram todos os seus equipamentos eletrônicos e também o celular da esposa. Eu não preciso gostar de Eduardo para saber que isso é completamente errado.
Ano passado, Eduardo havia publicado em seu blog a informação de que Lula seria alvo do Lava Jato. A polícia quis saber quem passou essa informação. Eduardo negou-se a revelar a fonte. A sua prisão ontem -- perdão, "condução coercitiva" -- fere o direito constitucional do sigilo à fonte, garantido a todos os jornalistas, com ou sem diploma (Eduardo não tem diploma e é comerciante, além de blogueiro). 
A nota da Justiça Federal do Paraná justificando a ação da PF é impressionante. Ela nega ter violado qualquer direito constitucional do blogueiro porque, segundo o que a Justiça decidiu, o blog de Eduardo não seria um veículo jornalístico, e sim um "veículo de propaganda política". Quando li isso, não acreditei. Pensei: só porque o cara apoia partidos de esquerda, o blog dele é de "propaganda política"? Sob essa ótica, todos os noticiários da grande mídia seriam "veículos de propaganda política", já que eles também têm lado. 
Mas não. A justificativa para negar a Eduardo o rótulo de jornalista e, assim, negar-lhe direitos, é que o blogueiro foi candidato a vereador pelo PCdoB-SP em 2016. Ele ter sido candidato e ter um blog faz de seu blog "veículo de propaganda política". Não é fascinante? Eduardo tem o blog há doze anos. Porém, como ele se candidatou a um cargo eletivo numa fração dessa dúzia de anos, isso invalida qualquer trabalho jornalístico que o blog tenha realizado. 
O que aconteceu é muito sério. Põe em risco a liberdade de todos nós. Afinal, só em ditaduras que as preferências políticas de cada um são levadas em conta para decidir quem tem ou não direitos. 
Portanto, mais importante do que qualquer picuinha ou divergência, é a ameaça que paira sobre todos nós, blogueiros independentes. Minha solidariedade a Eduardo Guimarães. 
UPDATE: É mesquinho, e emblemático, que jornalistas "de verdade" (aqueles com diploma) decidam quem é ou não jornalista
A ação de Sérgio Moro foi considerada tão arbitrária por qualquer pessoa com bom senso e que tenha apreço pela democracia que o juiz recuou: não investigará mais Eduardo.

terça-feira, 21 de março de 2017

MENININHA INDOMÁVEL ENFRENTA TOURO

Ok, de cara quero dizer que este post não tem a menor importância, principalmente se consideramos que estão querendo aprovar a terceirização (você conhece algum trabalhador que defende a terceirização? Eu nunca conheci!), o fim da aposentadoria e de direitos trabalhistas. Aliás, por favor, se alguém quiser escrever guest posts sobre esses temas, é só mandar que eu publico.
Mas a história das estátuas em Wall Street é muito interessante. Quase todo mundo conhece a icônica estátua do touro na frente da bolsa de valores. É uma estátua incrível (vamos admitir), e a segunda mais visitada pelos turistas em Nova York (eu também posei ao lado do touro quando estive em NY em 2008, mas não faço a menor ideia onde o maridão arquiva as fotos). 
Só perde pra Estátua da Liberdade. Eu pensava que o touro estivesse fincado lá há muitas décadas, mas não, é relativamente recente. 
Foi um presente do escultor italiano Arturo Di Modica. Dez dias antes do Natal de 1989 (e dois anos depois de uma das piores quedas financeiras da história), ele deixou a estátua de bronze de 3 toneladas e meia lá, no meio da madrugada. 
Custou 350 mil dólares do seu próprio bolso. Os executivos da Bolsa não acharam tão bacana, e contrataram um caminhão para levar a estátua pra um outro bairro, Queens. Só depois de uma campanha é que a administração da cidade encontrou um lugar pra ela próximo à Bolsa. 
E Di Modica, que já era rico (afinal, você teria 350 mil dólares pra moldar uma estátua e dá-la de presente pra Bolsa? O italiano já tinha um estúdio em Manhattan e uma Ferrari na época), ficou mais rico ainda, reproduzindo sua criação para várias outras cidades e comercializando miniaturas.
É inacreditável o número de pessoas que posam tocando nas bolas do touro
Este ano, na véspera do Dia Internacional da Mulher, Wall Street amanheceu com outra surpresa: a estátua de uma menina corajosa encarando o touro. A estátua da "Fearless Girl" (Garota Destemida) foi automaticamente aprovada por quase todos que viram as fotos. É uma imagem realmente brilhante -- uma menina enfrenta um touro furioso, símbolo do capitalismo. 
Na verdade a imagem (sempre cheia
de turistas) deve estar mais assim
Infelizmente, a estátua da menina, esculpida por Kristen Visbal, também faz parte de uma ação capitalista. É uma campanha publicitária de uma grande empresa de investimentos sediada em Boston. A intenção, claro, é boa: chamar a atenção para a desiguldade de gênero no mundo dos negócios. Nos pés da estátua, uma plaquinha diz: "Conheça o poder das mulheres na liderança. Elas fazem a diferença". A menina tem permissão pra ficar até o dia 2 de abril. Depois disso, vai depender da vontade popular (que, pelo jeito, quer que ela se mantenha lá, firme). 
O escultor do touro não gostou. Pra ele, ter uma garota desafiando sua criação faz do touro um vilão, e não o que ele tinha pensado originalmente (prosperidade e força da América). 
Ele não é o único a não gostar da estátua da menininha. Uma colunista do site mais à esquerda Slate escreveu (minha tradução): 
"A menina supostamente está encarando destemidamente o touro, mas ninguém precisa ser um matador profissional para saber que numa competição entre um touro gigante e um ser humano minúsculo, o touro vai ganhar. (E por que ela está contra o touro, se ele representa capitalismo e sucesso?). 'Vamos só mandar essa menina lutar contra um touro e ver o que acontece' é o que as figuras de Wall Street chamam de investimento de alto risco. Encarar um touro quando você é uma menina de 38 quilos no ensino fundamental não é corajoso; representa um fracasso sistemático da sociedade. Dê a essa menina recursos para combater o touro em vez de mandá-la lá sozinha: uma capa vermelha, um time de assistentes com noções de combate a touros, autonomia corporal e uma chance de salário igual. Caso contrário, o touro vai esmagá-la todas as vezes". 
Um colunista de outro veículo disse o óbvio -- que uma estátua não é suficiente pra acabar com a desigualdade de gênero, e mesmo que todos os líderes homens fossem substituídos por líderes mulheres, a opressão capitalista não iria acabar. E completou: "A imagem de uma criança prestes a ser destruída por uma criatura gigante e descontrolada, que ninguém pode domar, é uma imagem mais verdadeira da relação de Wall Street com o resto de nós do que qualquer outra". 
Tem razão, mas eu gostei do simbolismo. E, pelo menos no meu mundo idealista, eu ainda apostaria na menininha.