terça-feira, 24 de abril de 2018

NO MUNDO DOS IMPOSTORES

No fim de semana vi um documentário impressionante, que recomendo muito: O Impostor, filme de 2012 de Bart Layton.
O doc, que mais parece um ótimo filme de suspense, é sobre um francês, Fréderic Bourdin, que em 1997 fingiu ser um menino desaparecido, Nicholas Barclay. Nicholas tinha 13 anos quando sumiu, em 1994, em San Antonio, Texas. Depois de 3,5 anos, Bourdin, que vivia na Espanha, afirmou ser Nicholas. Ele não tinha nada a ver com o garoto, que era loiro, de olhos azuis. Bourdin tinha então 23 anos (sete a mais do que Nicholas teria em 97), olhos e cabelos castanhos, e falava inglês com sotaque. 
Ainda assim, a família de Nicholas o aceitou como o filho desaparecido. Bourdin ficou cinco meses morando na casa deles, em San Antonio (pra sua decepção, pois imaginava que os EUA era feito de metrópoles, não de cidadezinhas rurais). Chegou a ir à escola!
Bourdin durante o filme
Bourdin enganou todo mundo, incluindo as polícias e serviços de imigração dos EUA e da Espanha. Inventou uma história mirabolante sobre seu sequestro (disse que havia sido raptado por militares americanos, mexicanos e espanhóis, drogado e estuprado durante meses, com dezenas de outros meninos, e que jogaram coisas nos seus olhos para que eles mudassem de cor. Sério: como alguém ouve isso e não vê automaticamente que o cara é um mentiroso compulsivo?).
Enganar a família de Nicholas, eu até entendo. Imagino que ter um filho desaparecido seja pior do que ter um filho morto, pois a morte traz uma espécie de fim, de encerramento. Mas um filho desaparecido você vai procurar pra sempre, e se sentirá culpadx se parar de procurar. E você não sabe o que aconteceu, onde ele está. Então até compreendo que a família de Nicholas quis acreditar a qualquer custo que Bourdin era seu filho. Ela não é pintada com boas tintas no doc, fica sugerido ou que ela foi incrivelmente estúpida, ou criminosa.
A irmã de Nicholas
"Como assim, criminosa?", você pode perguntar. Pois é, Bourdin, quando foi desvendado, disse à polícia que Nicholas havia sido assassinado pela própria família, que o colocou no lugar para que não desconfiassem dela. E não é que os policiais e agentes do FBI acreditaram no que o mentiroso patológico disse sobre a família e passaram a investigá-la?!
Até as únicas pessoas que minimamente desconfiaram de Bourdin desde o começo 
(um detetive particular e uma agente do FBI, se bem que o primeiro a categoricamente afirmar que Bourdin não era Nicholas foi um psicólogo que o entrevistou; ele disse que não era possível que uma criança que cresceu num lar onde só se falava inglês até os 6 ou 7 anos pudesse ter sotaque, mesmo depois de uma década sem falar inglês) suspeitaram da família de Nicholas. Pra eles, havia algo de muito estranho pra família adotar um impostor.
Bourdin foi condenado a seis anos de prisão por fraude e perjúrio. Na cadeia, fazia ligações telefônicas para famílias que tinham filhos desaparecidos, dizendo ser a criança ou jurando ter informações sobre ela. Quando saiu da prisão e foi deposto dos EUA, ele voltou à França e, numa cidadezinha de lá, assumiu a identidade de outro menino desaparecido. Bourdin já tinha quase 30 anos e estava meio careca, mas foi preciso um teste de DNA para determinar que ele não era o garoto de 14 anos que pretendia ser.
Ele já teve cerca de 500 identidades falsas, quase sempre de órfãos ou crianças desaparecidas, em mais de 15 países e 5 línguas. Ele não enganava por dinheiro, mas por razões emocionais (sua mãe tinha 17 anos quando o teve; seu pai, que ele nunca conheceu, era um imigrante argelino que já tinha outra família). 
Com a esposa em 2008
Mesmo assim, casou com uma francesa e têm cinco filhos. Ano passado, segundo o mentiroso, ela fugiu com outro homem e deixou as crianças com Bourdin. Quando perguntaram pra ele, em 2008, se agora que ele era pai e marido ele teria se tornado um novo homem, ele respondeu: "Não, esse é quem eu sou".
Há um outro filme sobre o desajustado, chamado O Camaleão (2011). Ainda não vi. Mas certamente O Impostor é melhor. E melhor ainda é saber que Bourdin detestou o filme.
Não sei se tem muita ligação, mas tudo isso me lembrou um caso recente, bem impressionante também -- o do australiano Christopher John Gott, atropelado no Rio. No dia 18 de janeiro deste ano, um carro desgovernado invadiu o calçadão de Copacabana, atingindo 18 pessoas, incluindo um bebê de 8 meses, que morreu. Parece que o motorista sofreu um ataque epiléptico enquanto dirigia (é o que ele alega).
Um dos feridos, levado ao hospital Miguel Couto, em coma, tinha um passaporte australiano. Os médicos informaram a embaixada, mas o cidadão cujo nome constava no passaporte não existia. O documento era falso. Finalmente, após tirar a digital do homem em coma, a polícia viu que aquele era Gott, um pedófilo que havia fugido de seu país 22 anos atrás.
Até 1994, Gott foi alvo de 17 denúncias de abuso sexual de adolescentes. Foi condenado a 6 anos de prisão mas fugiu dois anos depois, enquanto estava em liberdade condicional. Veio parar no Brasil, onde morou com identidade falsa durante duas décadas. Ele continua em coma com traumatismo craniano e, segundo um médico, não deverá se recuperar.
Sabe-se lá o que Gott fez no Brasil durante esses 20 anos. Cobrava R$ 50 por aula particular de inglês, não tinha conta bancária, tomava caipirinha no calçadão, era amigável. Informalmente adotou três meninos. Um deles disse que nunca sofreu abuso, mas quer descobrir se o seu "pai de criação" durante seis anos fez vítimas no Rio. 
Fico pensando se esses caras que têm identidades falsas são tão diferentes de trolls na internet, com suas dúzias de perfis fake. Eles também fingem ser quem não são. 
Será que são tão diferentes de mascus (também pedófilos) que se escondem por trás de avatares para mascarar a vida miserável que levam? Desse jeito, por trás da tela, certos da sua impunidade, tentam passar a imagem que são pessoas corajosas, com coração e cérebro. No entanto, ao contrário dos impostores que citei, mascus e trolls não conseguem enganar muita gente por muito tempo. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

"PSICÓLOGA" JUSTIFICA AGRESSÃO DE BIEL (E DE TODOS OS HOMENS)

Eu não estava sabendo quase nada sobre a briga entre o cantor Biel e a modelo Duda, mas dei RT em alguns tuítes que chegaram até mim, e redigi uma ou duas mensagens sobre como reaças estavam escandalizados que a moça tinha jogado um copo nele (os mesmos reaças que dizem que mulher que quer se defender deve andar armada). 
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Pouco depois recebi alguns tuítes de uma leitora que se disse psicóloga e parecia justificar a agressão de Biel. 
Logo em seguida ela me enviou um email perguntando se poderia escrever um texto relatando sua experiência. Eu disse que podia. Aí ela me enviou o texto abaixo, que eu só editei um pouquinho, como faço com todos os guest posts. 
O texto abaixo me deixou com muita, muita raiva. Porque parece ter sido escrito por um misógino. De repente é mesmo um mascu asqueroso se passando por uma psicóloga. Mas é também como muita gente ainda pensa -- que a mulher é responsável pela violência que sofre. 
Discordo de cada palavra do post. E preocupa-me que existam psicólogxs que pensem assim (mas há de tudo, inclusive psicólogo que acha que homossexualidade é doença a ser curada). 
Conto com vocês para rebater cada falácia e contradição e ignorância pura e simples do texto. (1o aviso: Pra quem não sabe quem é Biel, tentei contar a história através das imagens. 2o aviso: Trolls, vocês não são bem-vindos. Caiam duro e morram. Obrigada). 

Olá, leitores da Lola, podem de chamar de Desconhecida.
Fui estagiária de psicologia na Delegacia da Mulher, e por tais motivos não posso relevar quem sou. E essa foi uma experiência marcante e reflexiva para mim. Tive um professor que disse que estar verdadeiramente estudando em uma universidade traria momentos em que você mudaria o que era antes, e esse foi um desses momentos.
Como muitos de vocês, vi o vídeo da namorada do Cantor Biel jogando um copo nele enquanto gritava com ele. Como muitos de vocês, isso também me chocou. Mas acho que aquilo que passou na minha cabeça foi diferente do que vocês pensaram. Graças a esse estágio. E gostaria de compartilhar essa minha experiência, para talvez contribuir a ajudar alguns em relação à violência doméstica.
Antes de falar dele, gostaria de mencionar uma aula da qual saí indignada. A professora disse que um casal dividia a responsabilidade em tudo o que envolvia a relação deles. Então eu (que fazia alguns estudos de gênero) perguntei sobre os casos de violência doméstica, e sim, eu tive que ouvir que a mulher era 50% responsável pela violência doméstica. "Que absurdo!", pensei. Claro que ela explicou mais sobre aquilo, mas ouvir da boca de uma de uma senhora de idade que uma mulher tinha responsabilidade na violência que ela sofria foi demais para mim.
Deveria ter prestado atenção. 
Havia só uma vaga para o estágio, e fiquei feliz por ter conseguido.
Vou explicar o que eu fazia. Era um acolhimento psicológico pelo qual as mulheres passavam antes de prestar queixa na Delegacia da Mulher. Não era como um inquérito ou nada assim, nem um incentivo para que elas prosseguissem ou abandonassem a queixa. Como é uma experiência ansiogênica, que deixa “os nervos à flor da pele”, era um momento no qual elas teriam a oportunidade de se expressarem, descarregarem suas angústias, chorar, esclarecer algumas dúvidas sobre a Lei Maria da Penha (já que algumas se sentem intimidadas ao conversar com alguém do setor jurídico e mostram confiança nas psicólogas depois de um tempo). 
Basicamente, elas poderiam contar o que quiserem para mim sem ter consequências. Assim, elas estariam mais cientes e calmas antes de fazerem a queixa. Durante o meu estágio, nenhuma das mulheres que atendi deixou de fazer a queixa (já que depois desse acolhimento, algumas descobrem que não é isso o que querem fazer e desistem).
Logo no primeiro dia, nos meus primeiros atendimentos, saí sentindo uma raiva que não sabia explicar a origem. E isso persistiu. Comecei a ficar com raiva por qualquer coisa, ficar briguenta. Eu, que tinha a fama de ser paciente e quieta! Todos perceberam uma mudança em mim. Pensei por um tempo que devia ser por causa dessa mudança de vida, de sair de um mundo de aulas e começar a atuar no campo.
Depois de algumas leituras e supervisões (caso você não saiba, estudantes de psicologias e até mesmo psicólogos formados têm de discutir os casos atendidos com um psicólogo mais experiente, essa é até uma das bases da prática da psicologia. Mas tudo o que é dito em uma supervisão permanece em sigilo em ambos os lados), descobri o que era. Comecei a ter um olhar mais analítico nos discursos dessas mulheres, pegar alguns detalhes, fazer algumas perguntas, sempre tentando manter o clima mais ameno possível. Acabei fazendo o que o qualquer estágio propõe: aprendi.
O que estava acontecendo comigo? Simples: transferência. É um termo psicanalítico que pode ser entendido por leigos como “os sentimentos do paciente que são implantados no terapeuta”. Aquela raiva, aquela agressividade, aquela pessoa que eu não estava mais aguentando ser, era nada mais nada menos do que a transferência daquelas mulheres. Eu sentia e reagia como elas.
Caiu a ficha: sim, aquelas mulheres vítimas de violência doméstica eram agressivas, diferente da imagem de mulher reprimida que eu persistia em ter delas.
Mas quando elas estavam na minha sala, elas pareciam reprimidas, pareciam sofridas, pareciam pobres coitadas virtuosas que tinham uma vida perfeita até conhecerem aquele homem. Eu poderia até duvidar dessa transferência, atribuir minha irritabilidade por outro fator, até prestar atenção em alguns pontos.
Ingênua e vinda de uma formação voltada para a psicoterapia, ainda mais sabendo que meu trabalho era só de acolhimento, que não poderia prejudicar o processo ou impedir que elas denunciassem, acreditei a princípio que essas mulheres seriam sinceras comigo. Que falariam a verdade. 
Porém, depois de algum tempo de atendimento, descobri que sim, poderia dar a impressão que era uma investigação e que eu fazia o papel de “policial bom”. Depois de conversarmos por algum tempo e deixar claro o que era um acolhimento, quando começavam a mostrar seus sentimentos, a chorar, a desabafar de verdade, algo de vez em quando acabavam escapando. Falavam de algumas coisas que fizeram contra seus companheiros.
Foi aí que aconteceu aquela mudança em mim que aquele professor me alertou.
Eu tinha uma imagem que muitas feministas possuem de uma mulher que sofre violência doméstica. De que aquela mulher era uma pobre coitada, submissa, vítima do patriarcado e que não conseguia reagir porque a sociedade a impede. Me esquecia de olhar para mim e lembrar que eu era uma mulher também, que eu não funcionava assim. Achava que deveriam ser empoderadas, mas aquela era só uma palavra forte e sem um significado específico. 
Eu tinha aquela imagem de uma mulher que estava quieta no seu canto, e do nada apareceria um mostro na forma de um homem para bater nela, e depois disso ela voltaria ao seu canto, com lágrimas nos olhos, incapaz de fazer nada. Nenhuma das mulheres que atendi parecia se encaixar nisso. Não via nenhuma delas sendo insultada e agredida sem ter retaliação!
Aquelas mulheres vítimas de violência doméstica que estavam na delegacia da mulher não me pareciam nem um pouco submissas...
Foi quando entendi o que aquela professora quis dizer sobre a mulher também ser responsável pela violência que sofre, e o verdadeiro significado de empoderamento, que seria aquilo que eu poderia oferecer no meu papel de psicóloga para elas, e o motivo de termos uma lei como a Lei Maria da Penha. Não lidamos com uma relação com uma tamanha diferença de poderes que faz o homem mandar e a mulher obedecer, se não toda a sociedade concordaria que ela deve ser insultada, humilhada e agredida e teríamos uma revolta massiva contra a Lei Maria da Penha.
Estamos falando de uma relação na qual duas pessoas insultam, humilham e agridem, e aceitam isso como deles. Uma relação que é mantida pelo amor, mas também por várias formas de violência. Por mais estranho que possa parecer, em algumas teorias psicológicas, a explicação para que esse casal exista e funcione é justamente essa, ambos sentem atração por essa agressividade do outro... Entende inconscientemente aquela agressão como afeto.
E nisso que entra o empoderamento, a minha descoberta do significado dessa palavra. Se empoderar é tomar consciência. Simples assim, mas algo tão difícil. É saber que você está nessa relação por uma opção sua e se responsabilizar por isso, assim tendo o direito de escolher se quer continuar ou não. É saber que se é insultada, agredida, violentada pelo companheiro, você é responsável pela atitude que terá depois, se aceitará ou tomará uma atitude. É depois de levar a primeira bofetada, lembrar que aquilo que decidiu fazer foi continuar com ele e aceitar as suas desculpas. É saber que também fez o mesmo na segunda bofetada. 
É saber que você sabe que se fizer alguma determinada coisa, o seu companheiro será violento, por já ter vivido algo semelhante com ele antes. É saber que se você for agressiva com ele, ele provavelmente será agressivo com você, da mesma maneira que aconteceu antes. É reconhecer que se você está em uma relação que coloca sua vida em risco, é porque você aceitou, já que houve diversos sinais e atos que mostraram a você como esse companheiro é. Empoderamento é assumir o seu 50% de responsabilidade em tudo o que acontece entre você e o seu companheiro. E ainda mais: é saber que você tem pelo menos um pouco de controle sobre você mesma, e poder tomar atitudes diferentes daqui para frente. Vale tanto para uma mulher quanto para um homem.
Empoderamento é saber que pode agir de maneira diferente da de antigamente.
E a diferença entre os sexos, o que faz com que a Lei Maria da Penha seja uma conquista? Eu diria que é pela corpulência de um homem ser maior que a de uma mulher, alguns antigos aceitarem isso como natural, além da tendência de um homem de exercer a violência física. Assim, as consequências costumam ser piores para uma mulher. Porém, disso se extrai uma outra informação, uma que pode ser chocante para vocês: sim, em todo caso de violência doméstica, não temos uma vítima e um agressor. Temos duas vítimas e dois agressores. Homens não só perpetuam a violência, mas também são vítimas, só que na maioria dos casos com consequências mais “leves”.
É com esses olhos que vejo o vídeo do cantor Biel com sua namorada. Não com “foi só um copo”, “ele batia nela”, “que cara escroto”. Vejo como um minuto gravado de dias de uma relação na qual provavelmente ambos se ofendiam, ambos se humilhavam, ambos se agrediam. Não é uma questão de culpa dele ou dela, é uma demonstração crua de como é um relacionamento desse tipo. Queridas e queridos, essa menina jogando um copo no seu companheiro é a vítima que entra na Delegacia da Mulher. E para aqueles que acreditam que nenhuma mulher tem culpa de nada, nesse episódio, é ELA quem perpetua uma violência verbal e física. A namorada tacou um copo de vidro na direção dele, com intuito sim de ferir ou ameaçar.
E é por isso mesmo que eu tenho o sonho de que essa lei também possa um dia proteger os homens.
Mas... aí que entra minha frustração. O motivo pelo qual mesmo depois de todos esses clarões, eu continuei a voltar para casa com muita raiva. A grande falha nas intenções. Eu estava contribuindo com a última violência perpetrada por essa mulher contra seu companheiro: o processo jurídico.
Afirmo a vocês que de todas das mulheres que atendi, só uma não se encaixa na seguinte afirmação: “Você fez tudo isso comigo e agora quer me largar? Ah, mas essa não vai passar batido! Eu vou acabar com a sua vida!” 
Todas foram para a delegacia no momento em que seu companheiro as deixou ou fez menção de abandoná-las. Pelo menos nos casos que eu acompanhei essa foi uma constante. O relacionamento já terminou ou foi ameaçado de terminar, então é nesse momento que a mulher percebe que é vítima de violência doméstica e decide tomar uma atitude? Creio que a alma dessa lei seja baseada em terminar com esse tipo de relação e, ao menos na minha região, nas minhas mulheres, isso não aconteceu. Por não ser o espaço e momento adequado, eu nunca perguntei a nenhuma delas quando elas souberam que sofriam violência doméstica, mas todas me informaram, sem que eu perguntasse, que tomaram essa atitude de denunciar quando “ele disse que ia embora”.
Por isso mesmo eu me pergunto se a forma da divulgação, da forma como falam de violência doméstica, é eficaz. Porque todas elas sabiam que não eram aquelas pobres coitadas que não faziam nada e do nada aparecia um mostro que batia nelas. No começo do acolhimento, sentia que muitas fingiam se colocar nessa posição, para só depois de se sentirem confortáveis o suficiente e perceberem que eu não iria prejudicá-las de maneira alguma, começavam a ser sinceras comigo e mostravam sua humanidade, disfarçadamente.
Não que isso ocorra em todos os casos, talvez eu seja a premiada de só atender casos assim. Atendia o que aparecia na minha frente... Por exemplo, em uma das conversas com os funcionários, descobri que durante o período do dia que eu não estagiava, uma mulher desistiu de processar depois do acolhimento, e uma semana depois foi hospitalizada em decorrência das agressões do companheiro.
Comentário mascu em site de ódio para combinar com a opinião da "psicóloga"

domingo, 22 de abril de 2018

LONGE DOS BRAÇOS DE LULA

Cartum incrível de Edu, pra combinar com a imagem da semana (abaixo): a foto de Eduardo Matysiak que mostra o teólogo Leonardo Boff, 79 anos, na porta da PF em Curitiba, esperando para visitar o amigo Lula na prisão. O ativista Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz que indicou o ex-presidente para o prêmio, também foi  barrado. Matysiak, que registrou a cena, disse sobre Boff: "Se eu pudesse eu pegava ele pelo braço e levava para os braços do Lula". 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

GENTE É PRA BRILHAR: GLEICI CAMPEÃ!

Não assisti nenhum dia do último BBB (não vejo o programa há anos), mas acompanhei o entusiasmo que muitas mulheres de luta tiveram com a trajetória da Gleici. 
Por isso, ontem pedi as minhas queridas leitoras um guest post. Patricia Daltro (que conheço na blogosfera há uma década), e Marcelle Martins (que é do Acre, terra da Gleici) toparam o desafio. Publico aqui com muita alegria o artigo a quatro mãos de Patricia e Marcelle. 

O que falar sobre a Gleici? Na verdade, a melhor pergunta é: o que não falar sobre a Gleici Damasceno?
Gleici, a acreana que logo na apresentação inicial, eu, Patricia, já classifiquei: ah! Tá lá a cota de negros do BBB e de esquerda. Sai na primeira semana.
Nos primeiros dias na casa, Gleici, quase encolhida, meio sombra de alguns participantes, minha certeza veio crescendo. Sai no primeiro paredão. Ainda mais em uma edição que já trazia um vencedor pré-determinado, o refugiado sírio que estava ali para conseguir tirar a família da guerra.
Mas alguma coisa naquela menina me fez querer ouvir o que ela tinha a dizer. E aí a surpresa foi grande. Como aquela acreana, negra, pobre tinha coisa a dizer! E, quando eu ligava no PPV e a ouvia ficava com mais vontade de saber mais. Para começar, ela não falava da sua vida dura na periferia do Acre. Não tinha o discurso de vitimismo que a gente já espera. Ela falava sobre esperança. Sobre garra. Sobre superar a fome, a miséria, a violência através do estudo e da luta. 
Seus olhos brilhavam quando falava sobre os projetos sociais que fazia parte. De como uma organização de juventude da periferia, que ajudou a fundar, mudará a vida de muitos jovens como ela. Como disse: queria que aqueles jovens, assim como ela, pudessem sonhar.
Defini minha torcida no dia em que ela citou Simone de Beauvoir em uma festa, desconstruindo o discurso involuntariamente machista de um futuro peguete.
Mas Gleici começava a incomodar dentro da casa. Aos poucos, ficou visível que alguns participantes não a enxergavam como igual. Um deles, inclusive, disse em uma conversa com outro, que ela não estava no mesmo nível intelectual deles. Sua etnia, sua origem e principalmente, o fato de Gleici não estar disposta a ocupar o espaço que a maioria ali achava que a ela pertencia, o de coadjuvante calada, começou a construir uma crescente e perceptível exclusão.
Quando a menina despertou os olhares de um dos homens cobiçados da casa, esse preconceito disparou na minha fala (Patricia), em um das cenas mais pesadas: “De onde que um homem como aquele iria se interessar por uma menina assim?!”
Juntou-se a isso o fato da Gleici ter voz. Ela não baixava a cabeça, recusava-se a aceitar os que a diminuíam. Debatia, questionava, tocava no cerne do que estava por baixo -- o preconceito.
Enquanto Gleici lutava pelo seu espaço na casa, construindo laços afetivos, se impondo, sem levantar o tom, do lado de fora sua torcida crescia. Foi muito interessante olhar a torcida da acreana. A voz da participante ecoava para fora dos muros da casa. Mesmo o apresentador pateticamente tentando podar a importância da representatividade, Gleici representava uma multidão de jovens que se enxergava na tela pela primeira vez.
E representatividade, caro Thiago, é muito importante sim e para falar disso, nada melhor do que Marcelle, do Estado da Gleici:
“Rio Branco é uma capital pequena, com jeitinho de interior: todo mundo se conhece, todo mundo é parente de todo mundo. A Gleici, pode se afirmar, mudou tudo por aqui. Não havia outro assunto a se comentar essa semana, em cada esquina, cada sala de aula, qualquer que fosse o lugar, só se falava nela. Olhem bem, para uma população que se alegrava só de ouvir o nome do estado na previsão do tempo do Jornal Nacional, ter uma participante acreana na final do Big Brother significava ter voz. E voz, meus caros, voz a Gleici tem. Podemos dizer que coragem define seu nome, afinal, gritar "Lula livre" pra um país à flor da pele, bom, vocês sabem.
A sensação aqui no Acre é bem simples: união. Gleici lotou o estádio da periferia que mora, lotou o único shopping do estado, fez praticamente todas as lanchonetes e pubs marcarem como um grande evento a transmissão do programa. A vitória dela, ah, o Acre inteirou gritou junto à ela e ecoou por todo o Brasil. Gleici, nossa fada, tudo o que posso dizer é obrigada por nos dar voz, por nos representar tão bem, por marcar o país com a mensagem de que o Acre existe sim! Agora já pode voltar pra sua terrinha com seus louros: o aeroporto vai estar mais do que lotado pra te receber.”
E, em um Brasil que se divide entre pessoas que acham que lutar pela suas causas é mimimi e vozes que gritam pedindo espaço e direitos, Gleici sofreu dentro e fora da casa o preconceito. Aqui fora eu, Patricia, perdi a conta de quantos ataques racistas e misóginos ela sofreu nas redes sociais: “macaca acreana”, “negra fedida”, “humana de estimação” foram alguns dos ataques. Mas a multidão que ouvia a Gleici aprendeu a lutar também. E a cada ataque racista e misógino que ela sofria, sua torcida crescia e se unia em defesa não só da participante, mas também contra essas agressões.
Nunca se falou tanto sobre racismo, misoginia e direitos humanos como nesse BBB.
O próprio romance que ela vivia dentro da casa era sistematicamente questionado do lado de fora. Aqui também se duvidava de que um homem branco, classe média, pudesse se interessar pela negra nortista.
Mas, lá dentro, Gleici falava para e com um Brasil que historicamente não vem sendo escutado. 
Debatendo com uma das participantes que defendeu meritocracia, Gleici simplesmente foi maravilhosa. Destruiu todos os argumentos apresentados, deixando claro que, no Brasil que vivemos, as chances não são iguais para todos e que sem políticas sociais que equiparem essas diferenças, nunca as chances serão iguais.
Para várias pessoas, o ápice desse BBB vai ser a volta da participante de um paredão falso. Para mim, vários momentos merecem ser destacados. A conversa da Gleici com Kaysar, quando ambos se permitiram por alguns minutos falarem sobre suas vidas, fez com que descobrissem semelhanças entre um país em guerra e a vida de guerra na periferia. Ali, ambos choraram a morte de amigos e familiares de forma trágica e aos olhos de um Brasil que tinha facilidade de entender e repudiar uma guerra que acontecia do outro lado do mundo, mas que se fazia cego para a guerra que acontece cotidianamente nas periferias do nosso país.
Gleici entra na história dos BBBs não apenas por ser mulher, negra, pobre, da periferia, acreana, mas porque ultrapassou isso. Costumo dizer que Gleici é maior que o BBB, por que ela foi além. Ali dentro ela nos presenteou com uma postura feminista, de esquerda, mas acima de tudo humana. E essa atitude fez com que ela fizesse um jogo impecável, sendo leal aos seus princípios o tempo inteiro.
A vitória da Gleici tem um gosto a mais. Desde a metade do programa, quando ao que parece, a postura e a fala da participante contrariava aquilo que a emissora defende, seja pela defesa dos direitos humanos, seja por falar abertamente sobre o golpe e pela defesa de cotas e politicas inclusivas do Estado, Gleici começou a ser apagada da edição. 
Sua trajetória se mantinha devido à luta incansável dos apoiadores do lado de fora. Desde terça, quando abriram a votação, a sensação é que Gleici seria derrotada. Mas a voz dela já tinha atingido uma parcela da população que andava acuada e calada após o golpe, e esse povo cansou de ser silenciado e manifestou sua vontade, mais uma vez, através do voto!
De tudo que a Gleici me ensinou, gosto demais de uma conversa dela onde um dos participantes diz que gosta mais de bicho do que gente. E ela, com o sorriso cativante que a marca, diz que por mais que gente seja complicado, ela sempre vai preferir gente: “Eu gosto de gente. A gente precisa de gente pra ser gente".
É isso, Gleici é gente que gosta de gente. E, acho que é isso que o nosso Brasil tá precisando tanto: de gente que goste de gente. Parabéns, Gleici. Vou levar você comigo para sempre!