quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

CAPAS DE REVISTA QUE MANTÊM MENINAS E MENINOS EM CAMISAS DE FORÇA

Tradução do meu querido Flavio Moreira, que encontrou e traduziu este artigo.

A comediante Amy Schumer
diz não
Há algo muito errado com a diferença entre essas duas capas de revista.
Na imagem acima, que foi compartilhada pela comediante Amy Schumer, a capa da revista Boy’s Life apresenta a seus leitores um futuro com oportunidades aparentemente ilimitadas de carreira, enquanto a capa da revista Girl’s Life limita-se a reduzir os sonhos de suas leitoras a primeiros beijos e parecer bonita.
As duas edições foram lançadas em setembro de 2016, provando que, apesar do quanto a igualdade de gênero tem avançado, ainda há muitos espaços que divulgam essas expectativas de gênero ultrapassadas e estereotípicas.
É bem mais do que simplesmente decepcionante. Isso tem um efeito negativo em um enorme contingente de jovens meninas impressionáveis.
Quando a designer Katherine Young viu as capas lado a lado, decidiu redesenhar a capa da Girls’ Life — com algumas alterações importantes.
Young trocou a foto da atriz da Disney Olivia Holt pela foto de Olivia Hallisey, uma cientista adolescente que ganhou a Feira de Ciências do Google em 2015 com a invenção de um teste de 25 dólares para a detecção do vírus Ebola. Em vez de dicas de cabelo e tendências da moda outono, a capa de Young anuncia carreiras de sonho e maneiras pelas quais as garotas podem ajudar suas comunidades.
Em aproximadamente 10 minutos ela deu à capa da revista a melhor remodelagem possível. Aqui está uma ampliação de seu trabalho. [Clique para ampliar].
Young pôs as fotos lado a lado em seu blog com a legenda “Podemos fazer melhor”, e quando ela postou o trabalho feito no Photoshop no Twitter, ele rapidamente viralizou.
É claro que Young não é a única que já se sentiu pessoalmente vitimizada (para usar uma frase de Garotas Malvadas) por capas de revistas que promovem estereótipos de gênero batidos como esse.
“Eu tive problemas reais de aceitação do meu corpo até os 20 e poucos anos”, explica Young por e-mail. “Eu quase não comia na frente de meus amigos quando era adolescente porque me sentia constrangida com o tamanho muito grande da minha calça jeans. Eu achava que tinha menos valor como indivíduo porque eu não era a “garota bonita” definida pelos padrões sociais e da cultura pop”.
Muitos estudos descobriram que a autoestima de meninas cai dramaticamente durante seus anos de pré-adolescente, bem mais do que a de meninos. Há várias razões para isso, mas um fator gritante é que meninas são muito mais críticas de seus corpos em mudança do que meninos. Não é difícil imaginar por que isso ocorre. 
Antes mesmo que as meninas atinjam a puberdade elas são soterradas com imagens do que a sociedade considera que deve ser o visual da mulher ideal.
Certamente meninos também experimentam esse tipo de mensagens dirigidas a eles, mas há muito mais ídolos masculinos, em variedade muito maior de tipos de corpos, idades e profissões do que as contrapartidas femininas (obrigado, duplo-padrão sexista da mídia).
Após ser constantemente bombardeada com mensagens sobre como vestir, que estilos de cabelo são bacanas e dicas de exercício para adquirir um “bumbum da hora”, não surpreende que meninas adolescentes e pré-adolescentes por vezes tenham uma autoestima tão baixa e que estudos mostrem que a mídia continua a cobrar seu preço enquanto elas crescem.
“Isso importa e tem mais efeitos sobre nós do que nos damos conta”, escreve Young.
Isso posto, há exemplos na mídia que mostram uma melhora.
A revista Teen Vogue tem publicado algumas histórias poderosas recentemente sobre o estado de nosso mundo político. Mulheres de tamanho médio e plus size aparecem em capas de revistas de moda e de estilo de vida. E até mesmo homens começaram a se tornar os porta-vozes de marcas tradicionalmente dirigidas a mulheres. [Dúvida da Lola: isso é bom?]
Modelo "plus size"
Pouco a pouco a paisagem midiática está mudando, mas ainda existe um longo, longo caminho a percorrer.
Será que as revistas femininas precisam se livrar de todas as suas dicas de maquiagem e das seções de “copie o estilo dessa celebridade”? Não. Maquiagem e roupas podem ser coisas divertidas para muitas mulheres. Revistas segmentadas por gênero que continuam a reforçar estereótipos batidos, entretanto, não deveriam ser tão polarizadas.
Por exemplo, muitos homens (héteros e gays) gostam de cuidar do cabelo e usar maquiagem e esmalte também. Se as revistas masculinas falassem para esse público, talvez esses homens não sofreriam tanto julgamento?
Inclusão e confiança deveriam sempre prevalecer sobre o sarcasmo e padrões estereotípicos e superficiais. Temos esperança de que a mídia aceite o desafio e vá mais nessa direção de querer fazer melhor em 2017.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

EU SEI QUEM EU SOU, E SEI QUEM SÃO ELES

Pessoas queridas, ter tantos inimiguinhos me lendo faz com que eu não seja tão transparente quanto gostaria de ser. 
Mas preciso falar, de toda forma, mesmo sabendo que esse comunicado me coloca em risco, porque covardes se aproveitam da minha ausência para fazer novos ataques e falsificações. Amanhã cedo viajo para Santiago e, depois, Buenos Aires. Eu e o maridão ficaremos lá quinze dias, uma viagem planejada (e ansiosamente aguardada) há meses. Vou tirar o dia hoje para preparar alguns posts e deixá-los agendados para serem publicados automaticamente (se alguém tiver um guest post que quer que eu publique, mande pra mim: lolaescreva@gmail.com).
Aliás, aproveitando o post. Eu tive a brilhante ideia de entrar em sites de ofertas coletivas no Chile e Argentina para tentar comprar promoções em restaurantes. Encontrei excelentes promoções em Santiago (em B.A., não). Mas, na hora de pagar com cartão de crédito, a gente não consegue comprar. Alguém já teve esse problema também? (Já avisamos a operadora que faremos uma viagem internacional e desbloqueamos o que precisava ser desbloqueado, mas nada). 
Não sei se terei acesso fácil à internet durante a viagem, e, mais ainda, não sei se vou querer chegar perto de um computador. Preciso descansar, e não quero que nada se coloque entre mim e os inúmeros sorvetes cremosos de chocolate amargo que consumirei durante a viagem. Mas, vocês já sabem: tentem ignorar os trolls o máximo possível. E, se aparecerem sites ou tuítes escandalosos no meu nome ou no do meu marido, não são nossos. É de algum mentecapto tentando me atacar não pelo que eu digo ou faço, mas pelo que eles inventam que eu digo ou faço. Não é triste isso? Deve ser chato não ter nada contra mim. Às vezes fico com pena de quem me escolheu como inimiga, confesso.
(Ah, o bolão do Oscar a gente faz quando eu voltar. Como a cerimônia é no dia 26/2, acho que dá tempo até lá, não dá, Júlio César?).
Bom, gente, o post que publicarei hoje é de uma entrevista que dei ontem por email a Mayara Paixão, repórter da revista Brasil de Fato

- Qual foi a justificativa que o Google Jurídico deu pra você quando disse que restabeleceria a conta e as imagens retiradas?
Ele disse que minha conta foi removida e quase todas as imagens também porque havia imagens de abuso sexual infantil no blog, e que eles eram extremamente severos quanto a isso. Mas que, olhando o contexto, eles viram que a imagem estava coberta e que era uma denúncia (justamente relativo ao mesmo chan que fez script para me denunciar em massa. Eles sim postam pornografia infantil, eu não) e, portanto, iriam restabelecer a conta e as imagens, mas não aquela. Não entendi como, por causa de uma só imagem coberta, de denúncia, no meio de um blog com mais de 60 mil imagens, o Google optou por praticamente deletar o blog inteiro, incluindo o cabeçalho do meu blog, que tem uma foto de quando eu era criança.
- Como foi o processo do contato feito por você com o Google até que eles resolvessem restabelecer tudo?
Assim que eles suspenderam minha conta, enviei uma solicitação explicando a situação (que meu blog estava sendo alvo de denúncias em massa via script vindas de criminosos misóginos). Mas, dois dias depois, eles responderam mantendo a remoção da conta. Só com muita mobilização de tanta gente é que conseguimos que o problema chegasse a humanos do Google, não robôs. Muita gente enviou emails e tuítes pro presidente do Google Brasil, pro vice-presidente internacional do Google. Porém, o Google se manteve em silêncio por muito tempo. Foi uma dor de cabeça que durou quase uma semana e que, se tivesse sido tratada por humanos, e não por robôs, poderia ter sido resolvida rapidamente.
- Além desse recente ataque, nesses nove anos de blog vc recebeu grande quantidade de ofensas e ameaças de morte. Como lida com isso?
Ódio gratuito tentando se
passar por humor
As ameaças de morte, estupro, tortura, atentados, estendidas inclusive a minha família, são diárias. Eu não deveria me acostumar, porque é horrível, mas é inevitável: a gente se acostuma. Afinal, são seis anos. Na realidade eu sei que eles não farão nada, porque são acima de tudo covardes. Só querem aterrorizar mesmo. Eu não tenho medo deles. Tento levar minha vida com bom humor porque, de vida infeliz e medíocre, já basta a deles. E não me abalo, porque eu sei quem eu sou e sei quem eles são e o que eles representam -- o mais puro atraso, preconceito, retrocesso, fracasso.
- Algum dos boletins de ocorrência que vc fez contra os agressores teve desdobramentos?
Não, nunca. O primeiro BO eu fiz em janeiro de 2012 e o mais recente, o nono, em setembro de 2016. Boletim de ocorrência não serve pra nada. É como disse um advogado que de vez em quando me acompanha à delegacia: é um jeito de transferir a responsabilidade para quem tem algum poder de resolver a situação. É dizer "a minha parte eu fiz". As pessoas têm a impressão que fazer BO resolve alguma coisa, tanto que a primeira pergunta que fazem ao saber de uma nova ameaça é "Já fez BO?" E é impossível fazer BO a cada ameaça porque, como eu disse, elas são diárias. Eu tenho mais que fazer do que ficar indo à delegacia cada vez que sou ameaçada. Se tivesse algum efeito, pelo menos...
- Esse ódio destilado contra as feministas é o que a seu ver?
Eles odeiam mulheres, negros, homossexuais. Muitos dos "mascus", abreviação para masculinistas, são neonazistas. São de extrema direita. Eles perseguem pessoas assim cotidianamente. É a missão de vida deles. De ativistas eles têm mais ódio ainda, porque nós os denunciamos, os combatemos. Nós somos as mulheres fortes, empoderadas, aquelas que eles mais detestam. E eles têm medo da gente, porque conhecem o nosso poder. Fecho com Eduardo Galeano: "O machismo é o medo dos homens das mulheres sem medo".
- O que te motivou, lá atrás, a criar um blog pra discutir, especialmente, as pautas das mulheres?
Eu sempre fui feminista, desde os 8 anos de idade. Então a questão de direitos iguais, de gênero, sempre foi importante pra mim e se manifesta em tudo que escrevo. Mas considero meu blog um blog pessoal, tem até o meu nome no título. E nem tudo que tem no blog está ligado a pautas feministas. Porém, eu colaboro com textos pra internet faz tempo, desde 2000, e, quando eu colaborava com sites alheios, pensava que queria ter meu próprio blog, para ter total liberdade editorial. E iniciei meu blog em janeiro de 2008. Desde o início, sempre que tocava em feminismo, o que era frequente, vinha gente querendo conversar, saber mais. Eu tinha acabado de ler o excepcional O Mito da Beleza, da Naomi Wolf, e quando comecei a falar de aceitação do corpo, também apareceu muita gente interessada.
- A gente sabe que a militância feminista está presente nos mais diversos espaços, dentre eles o virtual. Qual a importância que você acredita ter a militância virtual hoje?
A militância virtual não substitui a militância presencial, do dia a dia. Mas seria absurdo um coletivo presencial não se aproveitar da tecnologia ao seu alcance para divulgar e planejar suas ações. Portanto, são complementares. A militância virtual costuma ser mais rápida para responder a questionamentos e para denunciar atos e discursos machistas. E tem o poder de ser mais abrangente, de conseguir chegar a muito mais gente. Porém, precisamos urgentemente realizar ações presenciais enormes aqui no Brasil, como a Ni Una a Menos. Os vários protestos Nenhuma a Menos no Brasil ainda estão longe de atrair a opinião pública, como acontece na Argentina e em outros países.
- A que pé anda a luta feminista no Brasil a seu ver?
Isso é humor? Blog recém iniciado
dos "reaças zueros"
A luta está forte, temos influência. Mas, quanto mais crescem os movimentos feministas, mais cresce também a reação virulenta ao feminismo. Os conservadores reagem com grande ódio a nossa luta. E é um combate desigual, covarde, já que, enquanto nós temos rosto, nome, endereço, eles se escondem por trás de fakes.
- Por último, Lola, na sua percepção, o atual cenário político do nosso país corrobora para a permanência desse ódio destilado às feministas, às mulheres e aos grupos que lutam por reconhecimento em geral?
Sem dúvida. A consolidação da candidatura de Bolsonaro, o golpe reacionário e a derrubada do PT, a eleição de Trump nos EUA, o plebiscito em favor do Brexit, tudo isso deu um enorme ânimo aos conservadores. Imagina que você é um reaça troll que passa o dia atacando feministas, mulheres, negros, gays, e aí você vê que, de repente, tem um candidato a presidente fazendo isso na TV e nos jornais, sem disfarces, sem rodeios, sem vergonha. E o cara ainda por cima é eleito pro cargo mais poderoso do planeta! Claro que esse troll reaça se sente validado. Eles ainda não abandonaram suas máscaras porque são covardes, mas renovaram suas forças. 2016 foi o ano deles
E, mesmo dentro da esquerda, ter um cenário nacional e internacional tão à direita também é penoso pras feministas, porque boa parte dos homens de esquerda costuma ver nossa luta como algo secundário, na linha do "primeiro a revolução, depois vemos a questão das mulheres, negros, LGBT aí". É por isso que precisamos lutar mais do que nunca. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

VENCEMOS! COMO O GOOGLE DEVOLVEU O MEU BLOG

Olá, pessoas lindas e queridas! Como vocês viram, meu blog voltou ontem no início da noite! Estou muito feliz.
Deixa eu contar como foi. Primeiro, pra quem tá chegando agora, um breve resumo: no final de semana passado, mascus do chan do Marcelo começaram a planejar uma ação para derrubar meu bloguinho, que já tem nove anos de muita luta. Usaram script para fazer milhares de denúncias ao Google, que hospeda meu blog no Blogspot.
Na segunda-feira, quando fui acessar meu blog para moderar comentários, como faço sempre, foi pedida a senha para fazer login. Uma das duas contas de email que eu tenho (há mais de dez anos e que hoje só uso pra acessar o blog) havia sido removida. Como eu já sabia da ação dos mascus, concluí que foi por causa das denúncias em massa. 
Escrevi uma solicitação explicando a situação (ou seja, que é um grupo de ódio que me persegue e ameaça há 6 anos e que está sendo investigado pela polícia por, no Natal, enviar um email ao reitor da UFC afirmando que, se eu não fosse exonerada, cometeriam um atentado na universidade que mataria 300 pessoas).
Já no mesmo dia, algumas imagens no blog começaram a sumir, sendo substituídas por pontos de exclamação. Na terça a destruição já era total: praticamente todas as imagens haviam sumido, incluindo o cabeçalho do blog, que tem uma foto minha de quando eu era criança. Publiquei um post na quarta, sem imagens, pedindo ajuda. Muita gente havia notado que o blog estava sem imagens, mas pensava que era um problema de configuração ou algo assim. 
Um dos muitos tuiteiros reaças que
comemoraram a derrubada do meu
blog
Enquanto isso, mascus continuavam atacando, enviando mais e mais denúncias ao Google, porque o objetivo era derrubar a outra conta também (e também meu Twitter), para que eu não pudesse mais acessar o blog (assim, ele ficaria congelado, até ser eliminado). Um idiota que me liga todos os dias, desde novembro, ligou várias vezes, inclusive de madrugada, para rir. Mascus fizeram bolão pra apostar quando o blog efetivamente sairia do ar. Comemoraram como uma gigantesca vitória. Reaças, provando que seguem exatamente a mesma ideologia mascu, também celebraram. Afinal, era um blog de direitos humanos (que eles chamam de nazista) que estava sendo censurado, o que podia afetar outras páginas com a mesma temática. 
O lado bom é que recebi o imenso apoio de vocês. Foram milhares de pessoas fazendo barulho, criando tópicos em fóruns de ajuda do Google, enviando tuítes pro presidente do Google Brasil, enviando muitas ofertas para me auxiliar a transferir o blog pra outra plataforma, ofertas de advogadas para processar o Google, escrevendo emails em outras línguas para o Google e para ativistas de outros países. A gente emplacou a hashtag #GoogleNaoCensureLola e fez uma grande mobilização, o que chamou a atenção da mídia. Dei várias entrevistas (algumas das quais ainda não saíram e não sei se vão sair). 
Muito apoio (clique
para ampliar)
Mas... nada. Silêncio total do Google. Na quarta à noite, recebi um email (claramente automático) dizendo que minha conta não seria restabelecida, que minha solicitação havia sido revisada e que eu violei as regras dos temos de serviço do Google (sem explicar quais eram). 
Na quinta escrevi um outro post contando o que estava havendo, e a mobilização cresceu ainda mais. Mesmo assim, nem uma palavra de algum humano do Google. Um leitor amado me escreveu por DM: "Não quero parecer pessimista, mas os dois únicos casos que me lembro de terem conseguido reverter esse tipo de situação foram o Ministério da Cultura do governo Dilma e o gabinete do primeiro ministro da Noruega".                        
E, como explicou um consultor de Marketing Digital numa ótima matéria publicada hoje no jornal O Povo, as avaliações de denúncias tanto no Google quanto no Facebook são feitas por robôs. É quase impossível que a punição seja revista porque as análises seguintes também são feitas por robôs, não humanos! "Até chegar a mediação de uma pessoa é um longo caminho", diz ele. 
Pois é. Por isso o silêncio sepulcral do Google durante a semana toda. E a gente sabendo que precisava chamar a atenção de algum humano com poder na empresa para que a situação fosse reavaliada e a tremenda injustiça, desfeita.
Ontem já no final da tarde uma humana entrou em contato comigo. Primeiro o Google Jurídico me mandou um email pedindo um telefone para a gente conversar. Eu enviei o número, e uma mulher (cujo nome não captei, e se tivesse captado, também não colocaria aqui) me ligou cerca de 40 minutos depois. Conversamos, e foi uma conversa bastante tensa. Ela disse que era lamentável a demora da empresa em estabelecer contato. Disse que minha conta havia sido suspensa por imagens de abuso sexual infantil (!), e que, quando há denúncias nesse sentido, o Google é "extremamente severo" e "toma passos extras" na averiguação. 
As únicas imagens de pornografia infantil no meu blog que eu conseguia imaginar foram duas que postei num post de denúncia sobre mascus, que sempre põem imagens de pedofilia em seus chans. 
Como este é um dos poucos crimes cibernéticos que a polícia federal costuma investigar com rapidez, quis mostrar que, já que não vão mesmo prender mascus pelas inúmeras ameaças de morte e estupro que dedicam a feministas como eu, que os prendessem por pedófilos que são. Óbvio ululante que cobri as partes genitais e os rostos que apareciam naquelas duas asquerosas imagens que tirei do chan do Marcelo.
De todo modo, esse é um post de 2015, quase um ano e meio atrás. Lógico que a imagem só foi denunciada agora porque mascus usaram script para fazer "um zilhão" de denúncias falsas. Não dá pra entender que, por causa de duas imagens no meio de milhares -- afinal, meu blog tem 4.200 posts, e cada post deve ter umas quinze imagens, em média --, todas as imagens do blog (inclusive fotos pessoais minhas, capas de livros e filmes, enfim, tudo mesmo) foram removidas, e minha conta, eliminada. Não podiam ter eliminado apenas aquelas duas imagens? (Só encontrei uma. E é assim que ela está agora -- print ao lado).
A moça disse que o Google analisou o contexto daquela imagem, viu que era uma denúncia de pedofilia, que a foto estava coberta, e que, por isso, minha conta seria devolvida e todas as imagens também, menos aquelas. 
Eu disse que era um absurdo que o Google não conseguisse diferenciar denúncias sérias de denúncias feitas por script com a única intenção de derrubar páginas de ativistas, e que esse papelão realmente maculava a imagem do Google, que tenta se vender como uma marca de defesa aos direitos humanos mas que, neste episódio em que há dois lados -- uma ativista com nome e rosto, professora universitária, autora de um blog feminista de relevância, e um grupo de ódio cheio de anônimos que passam seus dias ameaçando e buscando novas formas de arruinar a vida de ativistas -- o Google, ao tão rapidamente acatar a denúncia e aplicar a censura, claramente se posicionou ao lado do ódio. 
Ela respondeu que o Google é neutro e imparcial, e que não leva em consideração a ideologia de quem denuncia ou de quem é denunciado. E assegurou que nada disso tinha acontecido com meu blog por ele ser feminista. Que não havia tratamento especial.
Eu disse que esse era um problema -- a falta de tratamento especial. Que o Google sabe muito bem que ativistas em todo o mundo são alvejadas por grupos de ódio. Que é uma luta desigual, já que nós geralmente somos pessoas reais, com nome, rosto, endereço, que somos atacadas diariamente por fakes anônimos. E, mesmo quando sabemos o nome (caso do Marcelo e de vários de seus comparsas) e temos certeza absoluta que é ele, é difícil provar porque o chan é anônimo e fica hospedado na Malásia (ainda assim, tenho fé que Marcelo voltará a ser preso).
Ele não vai parar. Isso é o que ele escreveu hoje em seu chan, além de "Quero focar o meu tempo para f*der a Dolores". Agora que mais um de seus planos infalíveis do Cebolinha para acabar com a minha vida fracassou (ele já admitiu que pagou R$ 80 mil a um ex-policial para vir à Fortaleza e me matar, fazendo parecer um latrocínio), o infeliz deve estar com o orgulho mais ferido ainda. Eu não canso de me impressionar como o sujeito não assume a responsabilidade por nada que faz na vida e dedica toda sua energia a alguém que ele não conhece pessoalmente e que nunca trocou uma palavra com ele. 
Pra mim parece muito óbvio que páginas ativistas merecem sim tratamento especial. Precisamos de um mínimo de proteção, de um mínimo de diálogo, de um mínimo de compreensão de empresas que devem saber que existe uma coisa chamada contexto. 
Nós lutamos legitimamente pelo que é certo. Grupos de ódio lutam para nos destruir. E nisso de "eles" entram também os reaças, cúmplices dos mascus. É só ver como reaças nunca condenaram as ameaças mascus contra ativistas. Muito pelo contrário, ou eles divulgam sites e tuítes falsos criados por mascus no meu nome, ou eles negam que as ameaças existam. Porém, quando meu blog é derrubado por denúncias mascus (ou seja, eles existem, certo?), reaças comemoram junto. Eles têm lado. Todxs nós temos.
É simples: 
se empresas internacionais querem ser vistas como parceiras dos direitos humanos, se querem ser reconhecidas como parte do combate ao sexismo, à homofobia, ao racismo, à violência (e hoje a enorme maioria das empresas quer ter essa imagem), elas devem promover, não perseguir, páginas que lutam por esses mesmos ideais. E, quando uma empresa acata denúncias falsas vindas de mascus, quando demora dias para responder a pedidos de uma cambada de gente ligada a direitos humanos, soa sim como perseguição.
De qualquer jeito, no telefonema a moça garantiu que minha página e conta seriam restabelecidas (só não sabia dizer quando), e pouco tempo depois chegou este email do Google pra mim, também automático, burocrático:
E de repente todas as imagens voltaram! Confesso que senti falta da minha carinha de criança no cabeçalho.
Não haverá pedido público de desculpas do Google, porque isso seria reconhecer um grave erro, e corporações têm dificuldade em fazer isso. Mas considero o resultado uma vitória. Mostramos, mais uma vez, que podemos nos unir, que somos muitas e muitos, que somos multidões, que somos fortes. E que não temos medo dos covardes. Eles que têm medo de nós, por isso se escondem. Não vão nos calar.
Agradeço do fundo do meu coração a cada pessoa que se mexeu e que, apesar de todas as dificuldades, de todos os ataques e ameaças, continua lutando. Juntxs somos mais fortes, não há dúvida. Obrigada!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

#GOOGLENAOCENSURELOLA

Tenho recebido muito, muito apoio, e só posso agradecer imensamente. Muito obrigada a todxs que disseram que este blog é importante e que consegue mudar vidas, a vocês que querem saber como ajudar, a vocês que propuseram alternativas.
Ontem pela manhã, enquanto meu blog era denunciado à exaustão por uma dúzia de misóginos usando script (é tão fácil assim, Google?), eu estava aqui em casa, gravando com uma equipe maravilhosa de estudantes de Cinema da UFC que, meses atrás, tinha decidido fazer um documentário a respeito do blog. Vou por duas fotos que minha mãe tirou ontem. Aproveitem porque o Google deve derrubá-las em dois dias, porque seguramente fotos pessoais violam alguma regra (assim como a minha foto quando criança que eu usava no cabeçalho do blog). 
Ah, provando mais uma vez que a ideologia da direita é sempre a mesma e é uma defesa do ódio, contra os direitos humanos, vários reaças se uniram aos mascus para denunciar o meu blog ou comemorar que ele está caindo. Reaças, que nunca abriram a boca para condenar os inúmeros ataques que eu e tantas outras mulheres recebem de misóginos (quando abrem é pra afirmar que as ameaças não existem ou que é mimimi vitimista), desta vez se posicionaram abertamente do lado de quem ameaça, de quem promete atentados terroristas, de quem defende pedofilia e estupro, de quem cria sites e identidades falsas. 
Várias pessoas sugeriram (e ofereceram ajuda) para que eu leve meu blog pro Wordpress, pro Médium, ou que eu compre um domínio próprio. Eu não quero fazer isso. Eu queria ficar onde estou. Já li muito mascu dizendo que é quase impossível derrubar um blog do Blogspot (pelo jeito não é não, é só fazer denúncias ridículas usando script), que é difícil de hackear. Quando comecei o blog, em 2008, lembro do ótimo blog da Denise Arcoverde, que tinha domínio próprio, e que vivia sendo hackeado e derrubado. Eu não quero isso. 
Mascus estão celebrando a provável queda do bloguinho como se tivessem ganhado na loteria. Ontem várias pessoas bacanas criaram tópicos no fórum de ajuda do Google, e mascus, assim que souberam, foram lá mentir. Chega a ser comovente ver a preocupação de mascus com gente que expõe e difama pessoas! Um dos vários tópicos no chan com tutorial para como denunciar meu blog usando script deles continha uma foto do meu marido e todos os dados de uma das escolas onde ele ensina xadrez. Mascus também fizeram um script de denúncias para difamá-lo na escola. Fora isso, eles prometiam que o próximo passo é derrubar o meu Twitter, seguido, é claro, da minha morte. 
Já no Twitter, vários fakes foram criados simplesmente para ameaçar de morte e estupro as leitoras que me apoiam. São esses mascus que denunciam meu blog. São esses que o Google leva a sério e acata as denúncias. É surreal.
Ontem no início da noite recebi uma resposta do "Removals" à solicitação que fiz na segunda, pedindo que eles devolvessem minha conta e restaurassem as imagens. Vou colocar o print, que deve ficar aqui dois dias e depois sumir, pois print de email também possivelmente viola as regras do Google. Então o email dizia assim: "Agradecemos por sua mensagem. Revisamos sua solicitação relativa à conta lola@lost.art.br e confirmamos que você violou nossos Termos de Serviço. Portanto, não restabeleceremos sua conta. Consulte nossos Termos de Serviço para ver mais informações sobre nossas políticas e as ações que realizamos em resposta a violações da política nos nossos produtos".
Pois é, o Google, que nunca se mexeu pra barrar ataques às suas usuárias, agora tem lado. Está do lado de quem nos ataca impunemente. Se quisessem, bastaria ver que as denúncias vem de script, de gente sem nome, sem IP, que mascara sua identidade. 
Por enquanto, eles venceram. Não sei bem o que fazer. Peço para quem quer ajudar que divulgue bastante os textos, use a hashtag #GoogleNaoCensureLola, crie tópicos no Fórum de Suporte, e escreva para o presidente do Google Brasil, @FabioJCoelho, para saber como o Google pode se aliar a grupos de ódio, quando deveria fazer o possível para criar a internet um lugar mais seguro para ativistas, mulheres, minorias.  
Estou precisando dar um tempo. Vou viajar em breve, férias planejadas há meses, descansar bem, e quando eu voltar, eu vejo o que farei. O problema é que os ataques a mim (ou meu marido) não cessarão só porque eu saio de férias. Pelo contrário, quase sempre mascus e reaças aproveitam que não estou aqui para me atacarem ainda mais, sabendo que não poderei me defender. Talvez eu deixe uns posts programados, ainda não sei. Não sei quanto tempo o blog vai durar, porque continuando nesse ritmo de script, talvez o Google suspenda minha outra conta também (que é minha conta do email e do Twitter). E aí o blog congele mesmo. Eu tenho backup do blog todo, óbvio (com as imagens, só até novembro). 
Lamento que, pela primeira vez em nove anos, não vou organizar meu tradicional bolão do Oscar (se contar minha vida extra blog, será a primeira vez em quase 30 anos). Tem um monte de coisa que não dá pra fazer sem imagens. 
Mas vamos resistindo, lutando. Como muita gente notou, a luta não é só minha. A luta é de todos os ativistas de direitos humanos. A luta é contra grupos de ódio que agem impunemente e, muitas vezes, com grande apoio das corporações.
Resolvido! Leia aqui: Vencemos! Como o Google devolveu meu blog.