segunda-feira, 2 de março de 2015

"A PESSOA TEM O DIREITO DE SER HOMOFÓBICA, RACISTA, MACHISTA?"

A D. escreveu sobre o que aconteceu neste último carnaval de Salvador:

Lola, querida, acompanho seu blog há alguns anos, e sou extremamente grata a você pelo seu trabalho e por todo tempo que você dedica a causas tão importantes. Resolvi te escrever porque estou atormentada por algo que aconteceu comigo, mas a violência não foi contra mim especificamente.
Explico: saí com alguns amigos do meu marido (programa que geralmente acho chato), e lá pelas tantas, na mesa do restaurante, um dos amigos dele resolveu iniciar aquele discurso de "eu não quero ter filho gay, eu não suporto ver gay se beijando, se eles querem fazer as coisas deles que façam pra lá, mas não consigo aguentar ver essas coisas, tenho que levantar e ir embora pra casa. Inclusive não vou mais em carnaval em Salvador porque só tem viado se beijando e isso é demais pra mim".
Eu realmente não consigo ficar calada nessas horas e o enfrentei. Disse que ele devia se envergonhar de falar coisas tão idiotas assim em voz alta, no meio do restaurante, para qualquer um ouvir. Que ele deveria fazer o exercício de trocar o alvo do preconceito de "eu não suporto gay" para "eu não suporto negro", se ele estaria repetindo tais absurdos. Falei que se tratava do mesmo preconceito, e ele negou veementemente, que a situação era bem diferente. E aí comecei a dar exemplos diversos, do tipo "se meu marido -- o amigo dele -- assumisse ser gay, se ele deixaria de ser amigo", e ele disse que provavelmente sim, porque não teriam mais assuntos em comum. Olha, foram diversos absurdos ouvidos naquela noite.
Mas o que eu percebi e que me deixou estarrecida, é que dos seis casais que estavam na mesa, ninguém demonstrou empatia com minhas ideias, e disseram que eu teria que respeitar a opinião do homofóbico. Inclusive meu marido (e eu escrevo isso com lágrimas nos olhos porque não esperava essa atitude dele) acha que todos têm direito à opinião e incômodo. Disse que eu estava histérica porque eu falei com o autor das afirmações que ele sim era o tipo de pessoa que eu não gostaria de ter por perto e que me incomodava estar junto.
Lola, o que eu queria saber: é exagerado contra-argumentar e achar que o outro não tem direito a ser homofóbico/ racista/ machista, etc? Ou desde que essas pessoas não "façam mal" à vítima do preconceito íntimo deles, eu devo respeitar tais pessoas? Tenho que respeitar a opinião preconceituosa como se tem que respeitar a opinião religiosa e política? 
Porque essa foi a conclusão das pessoas da mesa, de que se ele não faz mal a ninguém, devo respeitá-lo, assim como se respeita religião e política.
Gostaria mesmo de que você me esclarecesse e fomentasse essa discussão, se você achá-la relevante. Vai me ajudar muito.

Minha resposta: Que droga, hein? Você enfrentar um homofóbico num grupo de amigos, seu marido no meio, e ainda ser chamada de histérica (um adjetivo historicamente machista, já que é sempre associado a mulheres, até porque vem da palavra grega para útero). 
Não, não se tem que respeitar a opinião preconceituosa de alguém. Até porque não é opinião, é preconceito. E preconceitos devem ser combatidos. 
Você pergunta, inclusive, "opiniões preconceituosas devem ser respeitadas, como se tem que respeitar a opinião religiosa e política de alguém?" Devemos respeitar religiões, concordo, desde que elas não se intrometam num estado que deveria ser laico. Religiões devem sim ser criticadas quando fomentam violência e preconceito. 
Por exemplo, esta semana fiquei sabendo de um abaixo-assinado de alguns católicos que não aceitam que a PUC-Rio realize uma semana de celebração ao Dia Internacional da Mulher. A justificativa seria que o movimento "feminista possui bandeiras que são contrárias à fé católica". Querer proibir discussões no Dia Internacional da Mulher deve ser respeitado? 
E vemos a ação nefasta de Eduardo Cunha no congresso, colocando seus dogmas religiosos acima dos interesses de milhões de brasileiras. Se "respeitar" a opinião desses retrógrados é se calar, então não, não devemos respeitá-los.
E "opinião política" também tem limites. Defender o impeachment porque não votei na pessoa é um pouco demais. Nos EUA, existem grupos militaristas que treinam tiro ao alvo com bonecos do Obama e sonham em derrubar um governo democraticamente eleito. É a "opinião política" deles, ué? Deve ser respeitada?
Ou outro caso recente: o ex-ministro da Fazendo Guido Mantega foi ao Albert Einstein com a esposa visitar um amigo que sofrera um infarto. Lá, algumas pessoas gritaram pra ele, "Vai pro Sus" e "Vai pra Cuba". Decerto são opiniões políticas, mas devem ser respeitadas? 
Ou o médico gaúcho que recusou palestra em Pernambuco porque, após a grande votação de Dilma, ele não "pisaria nunca mais na vida nessa terra de m*rda". É uma opinião política. O médico tem todo o direto de recusar uma palestra, mas vai uma distância a escrever em sua rede social um julgamento preconceituoso.
O amigo homofóbico do seu marido não tem um carimbo na testa escrito "Homofóbico". Não existe patrulha de pensamento. Ele se revela homofóbico na hora em que expressa, através de palavras e ações, o seu pensamento. E, no momento em que se expressa, está sujeito a críticas. Racismo é crime no Brasil; homofobia, (ainda) não. 
Há também uma diferença entre preconceito e discriminação. Se o tal amigo se negar a dar uma vaga de trabalho para um gay apenas por ele ser gay, isso é discriminação -- e é proibido por lei, não é uma questão de opinião. Se ele tiver um estabelecimento comercial, um bar, por exemplo, e um casal gay for jantar lá e, no meio do jantar, eles se dão um beijinho (como fazem os casais hétero), e o dono do bar se recusar a atendê-los ou expulsá-los, isso é discriminação, também proibido. Não tem essa de "o bar é meu, faço o que eu quiser". O bar está assentado num lugar chamado mundo.
Homofóbico não é apenas aquele que bate com uma lâmpada na cabeça de alguém que está passando na Av. Paulista. Há várias formas de violência. Quem dá razão a esse tipo de ação também é homofóbico. E não, sua opinião não deve ser respeitada. 
Ninguém está obrigando seu amigo a passar o carnaval em Salvador, a ir numa parada gay, a ver na TV dois homens ou duas mulheres se beijando (vai ter que procurar muito). Uma coisa é "não gostar"; outra, bem diferente, é manifestar esse "desgosto", tão parecido com ódio. Respeito é obrigatório. 
Se ele estivesse numa ilha deserta sem internet e quisesse passar o dia berrando "Morte aos gays! Eu odeio vocês! Nunca mais pisarei em Salvador pra ver viado! Sou homofóbico, com orgulho!", talvez houvesse uma migração em massa dos pássaros para a ilha mais próxima, mas, de resto, ninguém daria a mínima. Como (infelizmente) ele não está numa ilha deserta, tem que se adequar à convivência de uma sociedade que deveria rejeitar o ódio (que não é maléfico apenas aos gays, mas à toda sociedade) e aceitar a diversidade.

domingo, 1 de março de 2015

PALESTRAS EM MARÇO PARA CELEBRAR AS MULHERES

Pessoas queridas, este é um post para anunciar minhas próximas palestras (eu geralmente publico este tipo de post aos domingos).
Dia 5 de março, quinta-feira, estarei na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), às 14 horas, para a palestra "Mulheres na Mídia", na companhia das autoras do zine Gemada. A frente feminista Agnés Varda está promovendo uma semana inteira de oficinas, debates, cineclube e rodas de conversa sobre a mulher em diversas áreas (artes plásticas, cinema, relações internacionais, propaganda). 
Faz um tempão que não entro na FAAP! Pra quem não sabe, eu fiz faculdade de Propaganda lá entre 1986 e 88, ou seja, muito antes da maioria de vocês nascerem. 
No mesmo dia, à noite, às 20 horas, será a vez de eu estar no Sesc Santana, com a escritora e blogueira Clarah Averbuck e a socióloga Maria Lygia Quartim, com a mediação de Inês Castilho, para a mesa redonda "Caminhos e Legados". É imperdível, e é grátis (todos os eventos, tirando o último, são grátis e abertos ao público). 
Aliás, o Sesc está com toda uma agenda incrível para celebrar o Dia Internacional da Mulher, em março, através do De/Generadas. Dê uma olhada na programação
No dia seguinte, 6 de março, sexta-feira, a partir das 9 h da manhã, estarei no Largo São Francisco, na Faculdade de Direito da USP, para ser debatedora no Cinedebate a respeito do documentário O Riso dos Outros. Faz parte da calourada da faculdade, mas também é aberto a todxs.
Às 18 h, ainda no dia 6, darei a palestra "Machismo na Universidade", na Unesp de Botucatu. Fui convidada pelo coletivo feminista Genis e a Faculdade de Medicina da Unesp. Será na Casa da Arte do campus de Botucatu. 
Intervenção do Genis em
escada do campus
Fico muito feliz com esse convite (e com todos os outros também), porque em abril do ano passado publiquei um guest post do coletivo denunciando trotes violentos e estupros em repúblicas. De lá para cá, o Genis cresceu e conseguiu ser ouvido pela diretoria da universidade. Tanto que este evento é justamente para conscientizar calourxs de que não devem aceitar a violência. 
Convites são assim. Alguns se concretizam, outros não. Era pra eu ir dar uma aula magna na Universidade Federal de Rondônia no dia 10, mas acabaram não conseguindo verba, e estou no aguardo de um convite para a Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Vamos ver se sai... 
Mas já está marcado (estou com passagem na mão e tudo) uma palestra minha no dia 15 de março (um domingo!), em Maceió, para o I Seminário Parto e Nascimento: Perspectivas de Humanização. Pois é, ao ser convidada pelo Roda Gestante, eu perguntei: "Vocês sabem que eu não sou mãe, nem nunca engravidei nem pari na vida, né?" Elas sabiam, e ainda assim consideraram minha presença importante. Minha palestra se chamará "Temas que caminham juntos: Ativismo materno e feminismo". 
Como o evento acontecerá num fim de semana (se bem que começa na sexta 13), eu ficarei lá os dois dias para ver as outras palestras e aprender. Minha segunda vez em Maceió! (a primeira foi em janeiro).
Fora isso, aulas e reuniões todos os dias na UFC. E entrevistas, muitas entrevistas. 
Ah, e tem um certo blog também pra atualizar diariamente... Não está fácil. Mas tem tanta atividade acontecendo que só gente muito sem noção poderia dizer que o feminismo está em baixa. 
Sinto-me muito honrada e feliz em fazer parte dessa movimentação toda. Assim que aparecerem outros eventos, eu aviso. E é só me convidar que faço o possível pra ir. 

GORDURA NÃO É SENTIMENTO

A antropóloga Daniela Araújo, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, me pediu para participar desta campanha. Então, vamos lá! Segue o post da Dani:

Banheiro feminino, na pia, em frente ao espelho
A - Nossa, olha o tamanho da minha barriga!
B - Afe, eu comi feito uma porca esse fim de semana. Hoje é só salada.
C - Uma vizinha emagreceu horrores com a nova dieta x. Segunda-feira eu começo, preciso perder pelo menos 5 kg.
Eu não sei se isso acontece também nos banheiros masculinos (algum leitor desse blog, por favor, nos esclareça se os homens fazem algo parecido), mas já cansei de testemunhar essa atitude entre mulheres. 
Por algum motivo insondável, criticar a própria aparência, sobretudo no quesito peso, tornou-se uma forma habitual de puxar conversa, até mesmo com estranhas. Tanto que em inglês inventaram até nomes para isso: “fat talk” (“conversa gorda”) e “body shaming” (algo como “depreciar o corpo”).
E nas redes sociais isso também acontece, tanto que o próprio Facebook criou uma opção de status: se sentindo gorda/o, acompanhada de uma carinha sorridente, ruborizada e meio constrangida, de queixo duplo. Acontece que esse tipo de autodepreciação pública não deveria ser normal. A gente não precisa se autoflagelar em público, como quem pede desculpas por não ter um corpo perfeito, por ter o corpo que tem, por ocupar espaço. A gente tem o direito de andar por aí se sentindo bem na própria pele, independentemente do nosso tamanho ou peso. 
E antes que alguém diga que as gordxs devem se sentir mal mesmo, porque ser gordo não é saudável e essas pessoas precisam ser incentivadas a mudar, vale ressaltar que a baixa autoestima, a vergonha e a imagem corporal negativa causam mais problemas de saúde do que solucionam (até porque se criticar gordura emagrecesse, o problema de obesidade no mundo estaria resolvido).
Essa opção de status do facebook reproduz, reforça e multiplica a ideia de que se autodepreciar publicamente e que a gordofobia internalizada são comportamentos normais, socialmente aceitáveis e mesmo desejáveis. E, o que é pior, novas gerações inteiras de crianças e adolescentes estão aprendendo a se socializar dessa forma.
Como sobrevivente de um transtorno alimentar, pesquisadora da área de Medicina Preventiva e feminista, eu acredito que essa opção de status do Facebook seja prejudicial e deva ser removida. Para que isso aconteça, me juntei a um grupo de mulheres de vários lugares do mundo, ao Endangered Bodies, representado no Brasil pelo Grupo Corpo e Cultura e ao change.org para pedir ao Facebook que retire a opção de status se sentindo gorda/o através de uma petição.
Se você quiser, pode ajudar a campanha das seguintes formas: Assine a petição aqui.
Convoque seus amigos por este link.
Poste o link no seu mural, tagueando seus amigos. (Não apenas os marque nos comentários: quando você tagueia aparece também nas páginas dos amigos deles). 
Publique esta mensagem no Twitter:
Facebook: tire o status 'me sentindo gorda' e 'me sentindo feia' @Facebook #gorduranãoésentimento
Compartilhe as hashtags: #gorduranãoésentimento #fatisnotafeeling
E o mais importante: habite seu corpo, leve-o para passear por aí, sem vergonha nenhuma de ocupar o seu espaço.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

GUEST POST: PERSEGUIÇÃO NA UNIVERSIDADE

Da L.:

Em 2012 fui aluna de Filosofia da PUC Minas.
Como deve ser do seu conhecimento, a academia é composta por um corpo docente sensacional. Fui acolhida por verdadeiros mestres e pude aprender muito com boa parte deles.
No entanto, por ser homossexual assumida, feminista e detentora de um projeto de pesquisa voltado para o existencialismo (Beauvoir), e também pelo meu destaque acadêmico, logo no segundo período passei a ser alvo de toda sorte de moléstia, bullying, agressões morais, psicológicas e até mesmo "esbarrões" por parte do corpo discente, composto por evangélicos, católicos e haters, que não se conformavam com o fato de eu não me calar e jamais me abater, mediante suas posturas mesquinhas e covardes.
Virei saco de pancada -- o que, aliás, foi uma constante na minha vida escolar e acadêmica.
Explico melhor: ao assumir minha luta, minha homossexualidade dentro da academia, pude sentir a opressão na pele. As ameaças realmente eram constantes. E não bastavam ser de cunho verbal. 
Até que um dia fui cercada por um hater no estacionamento da instituição. Ele me deu um esbarrão e saiu rindo. Eu apenas lhe disse: "Caso isso ocorra novamente, darei parte à polícia e você será preso por agressão". 
Anúncio da PUC vestibular 2013
Tive lá dentro uma professora que tentou me ajudar. Um colega de classe muçulmano era um dos meus haters. Avisei a ela que estava sofrendo bullying. Num desses confrontos que não levam a nada, ele me agrediu moral e psicologicamente na frente dela. Ela interviu e ele nunca mais tentou nada, nada mesmo pra cima de mim.
Quanto aos evangélicos, esses eram sem limites. Ecoavam, regozijavam, tripudiavam... Quanta dificuldade em lidar com aqueles que se julgam os donos da verdade. 
Munidos de suas bíblias, gritavam, ofendiam-me moralmente, debochavam das minhas roupas, do meu modo de andar, e recitavam compulsivamente Paulo. Segundo Paulo... Porque Paulo... Paulo disse... Eu mesma nem sabia quem era Paulo. Vim a saber muito tempo depois...
Tenho que ressaltar que a coordenação do curso foi avisada e não tomou nenhuma providência.
Diziam-me que era um tipo de caso muito novo -- eu sabia que eles estavam mentindo -- e, mediante tudo isso, tive que me calar, abater-me, conter meus ânimos e largar tudo.
Mais uma vez, o ódio ganhou. Levou sonhos, um projeto de pesquisa, um bom potencial e, em virtude de tamanha retaliação, perdi a saúde. Entrei num quadro de esgotamento nervoso, de desilusão com a vida, com os estudos, com a Filosofia -- que eu tanto amava. Pedi trancamento do curso, entrei em processo bulímico e anoréxico, e estou seguindo a vida com mais essa marca.

Meus comentários: A instituição parece ter sido omissa as suas queixas. Infelizmente, elas não são tão incomuns. A gente tende a achar (e até a dizer pros adolescentes) que o bullying termina no ensino médio. Nem sempre. Às vezes, ele continua na faculdade. 
E, com a internet, as agressões podem ser constantes.
Mas querida, não desista. Reerga-se. Tente uma outra universidade, talvez um outro curso. Ou insista na Filosofia. Não permita que o ódio vença.