domingo, 25 de janeiro de 2015

NOSSA PRIMEIRA VEZ EM ALAGOAS

Nascer do sol em Maceió. Maridão acordou às 5 pra tirar esta foto

Pessoas queridas, quero compartilhar com vocês minha primeira viagem a Alagoas. Ai, ai, domingo passado eu estava na famosa (e belíssima) Praia do Gunga, e agora estou aqui diante de um computador. Pelo menos domingo que vem estaremos em Buenos Aires.
Vale de nuvens pela janela do avião. Eu sempre penso que meu pai mora ali
Dos nove estados do lindo e maravilhoso Nordeste, eu ainda não conhecia três: Alagoas, Piauí e Sergipe. Agora só faltam dois. Silvinho está na minha frente, porque foi à Teresina ano passado para jogar um torneio de xadrez. Será que visitando todos os estados da região ganhamos um brinde?
Parecem os Alpes Suíços, mas maridão jura que é Salvador pela janela do avião
Em agosto chegaremos aos 25 anos juntos e, para comemorar, faremos alguma viagem especial em julho (que é quando dá, quando não estamos dando aula). Quem sabe Aracaju?
Praia do Gunga depois dos coqueiros
Devo dizer que Maceió é tão deslumbrante como todo mundo diz. Não gosto desse negócio de ranquear lugares -- tantos lugares são encantadores, por que ter que decidir qual a praia mais bonita do Brasil? --, mas o mar de Alagoas, com todas aquelas tonalidades de azul e verde, não fica devendo muito aos mares do Caribe. Não que eu já tenha estado no Caribe (mas morro de vontade de conhecer Cuba; não, ninguém ainda me chamou de comunista hoje; sim, já estive em Moscou).
Praia de Jatiúca pertinho da nossa pousada
Em Maceió, ficamos na Praia de Jatiúca, uma das áreas nobres da cidade, e onde tem um monte de restaurantes. 
A pousada que escolhemos, a Eco Maceió, é excelente. Pagamos R$ 1.400 pelos sete dias. Ao todo, com aéreo, excursões, comida e tal, a viagem toda saiu por R$ 2.715. Coloco aqui os valores porque tem gente que pode querer se basear.
Por do sol na Praia do Jatiúca (se bem que o sol se põe do outro lado) 
O melhor sorvete de Maceió é indubitavelmente o da Bali, que só existe lá. 
Ok, não provamos todas as marcas, mas temos bastante experiência com sorvete e pudemos comparar a Bali com a Delícias do Cerrado e a Gelateria Chocolat. Olha, não tem nem comparação. Todas essas marcas são caras pra caramba (entre R$ 54 e 69 o quilo; o da Bali custa 58), mas o "africano", de chocolate meio amargo da Bali, compensa. 
Lolinha na fabulosa Barra de São Miguel
Fizemos apenas uma excursão (as visitas a outras praias não urbanas foram cortesia de amigas; já já falo delas). O preço é razoável (R$ 30 por pessoa, em ônibus com guia), mas fiquei um pouco decepcionada porque esperava conhecer a Praia do Francês, Barra de São Miguel e Gunga. Só que nas primeiras duas a excursão só para quinze minutos em cada, pra tirar fotos. Ah, tinha que ficar pelo menos uma hora e meia em cada, pra dar pra aproveitar mesmo.
Treinamento de salva-vidas na Barra de São Miguel (nunca vi tantos juntos)
Quando chegamos à magnífica Praia do Gunga, eu já estava impaciente. Tinha entrado um pouquinho no mar de São Miguel, mas estava ansiosa pra fazer o que sempre faço nas praias, que é ficar horas na água. Então, enquanto o maridão demorava um tempão pra guardar a câmera fotográfica, tirar a bermuda, arrumar as coisas na areia, eu já fui logo entrando no mar. Por pouco, esta não é minha última foto viva, falando pro maridão vir logo.
Não parece ter ondas fortes, mas afunda rápido e o mar puxa pra baixo
Gunga não tem ondas de afogar Lolinhas, admito. Mas, assim que entrei, levei uma rasteira da corrente, e, quando estava tentando me levantar, uma onda me encobriu. Eu me afoguei, e decidi sair de lá rapidinho. Mas as rasteiras do mar não deixavam. Agora imaginem a cena: Lolinha se arrastando na beira da praia, parecendo uma náufraga, olha pro maridão, que ainda está arrumando as coisas na areia, estica o braço e implora, com a voz fraca: "Me ajudaaa..."
Não tenho imagens da Lolinha náufraga, então vai uma de quando perdoei o maridão 
Agora imaginem o maridão olhando pra Lolinha amada, sua companheira de quase um quarto de século, ela quase desmaiada, deitada, tentando com suas últimas forças sair do mar, só com o braço esticado, e o maridão olha pra ela, vira a cabeça e continua arrumando as coisas na praia. Eu já contei essa história pra outras pessoas, e Silvinho tenta se justificar dizendo "Ela estava com água pelo tornozelo" e "Eu não ia jogar a câmera na areia". Seu único arrependimento foi não ter filmado toda a cena.
Eu me esbaldando no lado bom de Gunga
Felizmente, sobrevivi. E, graças a mim, encontramos o outro lado da praia, onde tem um rio divino. E foi lá que fiquei, foi lá que ninguém mais me tirou, durante horas. Saí pra comer uma tapioca (R$ 10, mas é grandona), depois voltei. Após minha experiência de quase-morte, capotei no ônibus, exausta.
Eu, Aninha e Ceci, com Gunga ao fundo
Um dia ou dois depois, voltamos às praias do sul do Estado, desta vez levadas por duas leitoras queridas que são irmãs e com quem eu já tinha tirado foto junta em São Paulo e Recife, mas óbvio que não iria lembrar. A Ana é médica em Recife e a Cecilia é professora de Direito em Maceió e está grávida de um mês. Foi um dia fantástico na Barra de São Miguel e (de novo) em Gunga. Na parte não perigosa da praia, bem entendido.

E, pra coroar, assim que pisamos nas areias da Barra, eu encontro uma nota de 50 reais, e a Ana, uma de 10. Não tem como devolver. Devolver pra quem? Mais tarde, gastamos tudo em batata e macaxeira frita e bolinhos de queijo. E água.
A espetacular Dunas de Marapé: rio em primeiro plano, areia, mar
No dia seguinte, Aninha nos levou pra conhecer Dunas de Marapé, que fica a uns 20 km de Gunga. Ela também não conhecia. Dunas é dessas minhas praias favoritas, essas duplex, com mar e rio. Mas aqui cabe um adendo pra quem nunca foi a esse paraíso.
Cobram 60 reais para fazer esta travessia. Inclui almoço, mas vale?
As agências de turismo que fazem excursão pra lá cobram 40 por pessoa, só que acrescentam que não vale a pena ir até lá se não for fazer a travessia de barco, que custa mais 50 reais (pelo menos inclui um almoço). Por telefone, alguém na agência disse que, sem eles, corríamos o risco de não poder fazer a travessia. Pura balela.
Mais uma foto do rio pra atravessar. Ao fundo tem até uma ponte
Ao estacionar o carro, perto de Dunas, uma senhora explicou que a travessia custaria 60 por pessoa. Mesmo com o almoço incluso, ainda parece um valor abusivo. Isso é meio privatização de uma praia, né? Algo que odeio. Praia tem que ser um espaço democrático.
Dunas de Marapé, já com a maré cheia 
Aninha e eu em Dunas
Decidimos estacionar um pouco mais à frente (10 reais por carro), e dispensar a travessia, que leva dois minutos de barco. Atravessamos a pé, pelo rio, na maré ainda baixa. Mais pra frente tem uma ponte. Mas a verdade é que não é preciso ir praquele pedaço de areia onde fica o "complexo turístico" (o restaurante, com cadeiras e guarda-sóis) pra amar Dunas de Marapé. Não caiam nessa.
Eu e Silvinho ao chegarmos em Dunas do Marapé
Noutro dia, outra leitora querida, a Nanda, nos levou pra conhecer uma praia ao norte de Alagoas: Tabuba. É incrível e, pra melhorar, tem rio também. 
Tabuba com maré anda bem baixinha (depois a água cobre os arrecifes)
Achei as águas de lá (tanto do mar quanto do rio) mais quentes que nas outras praias. Aliás, não sei se foi impressão minha, mas achei a temperatura do mar e rios de Alagoas mais baixa que nas praias do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Nada que desabone as praias de Alagoas, lógico.
Eu agarrando Benny em Tabuba
Nanda levou pro passeio seu lindo filhinho Benny, de 5 anos, um amor. No começo do dia ele estava um pouco traumatizado porque, em seu último passeio a outra praia, ele havia levado um caldo do mar (conheço a sensação) e sido beliscado por um siri, tudo no mesmo dia, tadinho. Mas, depois de meia hora de praia, ele me pergunta: "Tá gostando daqui?", eu digo "Ô, muito, e você?", e ele responde: "Tô adorando".
Benny também criticou duramente o maridão por ter escolhido salvar a câmera ao invés de mim em Gunga. Um aliado pequeno, porém importante.
Silvinho, Nanda, eu e Benny antes de irmos embora de Tabuba
Antes que perguntem, não conhecemos pontos turísticos primordiais como Maragogi ou o Delta do Rio São Francisco. Vai ficar pra outra vez.
Praia do Gunga, lado bom
Maceió passa a ser uma séria candidata de onde pretendo viver quando nos aposentarmos, daqui a uns oito anos, se tudo der certo. Do Nordeste eu não quero sair nunca mais, mas nesses últimos dias andei pensando se não valeria a pena morar numa cidade pequena de praia perto de alguma capital nordestina. Porque, sério, eu iria pra água todo santo dia.
Por do sol em Maceió

sábado, 24 de janeiro de 2015

GUEST POST: "NÃO HÁ O QUE PROVAR, E SIM O QUE FAZER"

Sempre me perguntam se o Nordeste é uma região mais machista que as outras. 
Eu não sinto essa diferença. Já vivi no Sul e Sudeste, e na Argentina e nos EUA, e vi machismo por todos os cantos. 
Mas o relato da J., que tem 40 anos e é professora e sindicalista, mostra uma realidade muito distante da minha: 

Venho de uma família com mais três irmãos. Hoje posso analisar com tranquilidade como é ser mulher entre homens. Meu pai veio de família muito pobre, sem estudos, a vida na roça afastava da escola. Encontrou no exército o caminho para mudar de vida. 
Minha mãe nos criou em meio a animais de todos os tipos; galinhas, porcas, cabras, patos, e até vacas para vender o leite. Plantava capim para os animais, milho, feijão. Por aí, já dá para perceber que somos do sertão do Seridó, RN. A seca nunca foi empecilho para continuar trabalhando. Meu pai sempre viajando, minha mãe sempre comandando tudo. 
Fomos criados debaixo do chicote, tudo era motivo para apanhar. Foi a forma com que minha mãe foi educada. Meu avô era muito bruto. Foi assassinado pelo genro, e isso gerou na minha mãe uma revolta capaz de fazer com que ela passasse anos e anos seguindo os passos dele. Pelos relatos, ela sempre foi à frente de seu tempo. Vestia calça, sapato, chapéu, e montava cavalo. 
Como foi o namoro dos meus pais, eu não sei. Mas ele diz que ela chegou um dia e perguntou: Quer casar? Se não, vá passando! Quando queria algo, não pedia, fazia. O que eu mais gostava era quando papai chegava depois de uma viagem longa. Era uma tranquilidade, só que ele levava meus três irmãos para passear, e eu ficava com mamãe, pilando pimenta para as buchadas que ela fazia, e que não conheço quem faça tão gostosa. 
Igreja do Rosário hoje, em Caicó,
região do Seridó, RN
Ela sempre nos levou para passear por todos os cantos. Dizia que tínhamos que expandir a ruindade. Ela era pai e mãe; em casa, na escola, na igreja, em todo canto, e ele sempre mais calado, calmo, brincalhão. Mamãe não fazia distinção na forma com que conversava com homens e mulheres. Em casa, todos tinham que fazer suas tarefas.  
Fui crescendo e vendo que a situação para mim era mais difícil que para meus irmãos. Na escola, sempre gostei de conversar com homens, tenho até hoje amizades cativas. Não fui criada com vaidades, a forma dura que minha mãe nos ensinou talvez tenha ficado gravada para sempre. 
Mas me revoltava quando queria sair e não podia. A verdade é que a escola era minha fuga. Nela, eu era dona de mim. Ficava impaciente quando via aquela turma de meninas de um lado e meninos do outro. Coisa mais chata. Não teria como ficar todos juntos, não? Ah, e eu fui. Na mesma hora, percebi como fui olhada por elas. E o que há de errado, pensei. Ali, me dei conta que somos diferentes, não podemos andar e conversar com homens se não for para namorar. Valha! 
Escola em Caicó (sem relação
com o texto)
Meu primeiro beijo foi horrível, o rapaz olhou para mim e disse: Você nem sabe beijar! Rebati: E você sabe? Ele ficou irado por eu enfrentá-lo. E as regras foram aumentando para mim. Não pode ir pra praça, vai virar rapariga. Não quero que você ande com essa menina, ela parece puta. 
Lembro de um dia em que levei um namorado para casa. Quando entrei, recebi uma mãozada na cara. Essa bicha nasceu para ser puta! Não apanhei mais, pois meu pai tomou a frente. Primeira vez que fui para uma festa, minha mãe mandou meu pai ir para a porta do clube. O tempo foi passando, eu não notava que ela definitivamente não queria que eu namorasse. Eu deveria estudar e terminar o segundo grau e ficar em casa. Faculdade? Nem sonhar, era coisa para os meninos. E fui me anulando. 
Mesmo assim, as coisas foram acontecendo. Perdi a virgindade. Nem lembro mais como mamãe soube. Acho que a família do rapaz começou a conversar. E já viu, né? Aqui, quando a moça perde a virgindade, é assunto de muitos anos. Poxa! Todo mundo comenta. Parece que é público. 
Estava trabalhando numa escola particular, mesmo sem que meu pai aceitasse, pois filha dele, ele podia sustentar. Com 18 anos, meu então namorado, atual ex-marido, me convenceu a abortar. Foi o pior dia da minha vida. Parecia que estava sendo enterrada viva. Era como aqueles filmes de terror que nunca amanhece. Ele conseguiu tudo. Parecia o capeta dizendo que agora não. Enfim, fiz. Quase morri, e ele pulando carnaval. Passou. Continuamos juntos, e um tempo depois, outra gravidez. 
Dessa vez ele disse: agora não tem como abortar, você pode morrer. Me senti como gado no pasto sendo levada para onde ele quisesse. O dia do casamento foi tão sem graça, precisava casar? Casei. 
No sexo, nunca fui santa. Levava para a escola as revistas dos meus irmãos. Aprendi oral sem nem fazer. Não entendia porque toda vez que fazíamos meu ex-marido perguntava com quem aprendi. Isso me deixava sem jeito. Depois, ele disse que a filha não era dele, já que era loirinha. Só vivemos bem durante dois anos. Depois disso, comecei a acordar. 
O jeito com que fui criada não batia com a criação que ele recebeu. A mãe não podia conversar com o vizinho que era chamada de rapariga pelo marido. Eu só podia sair de casa se fosse com alguém. Foram anos difíceis, tentei deixá-lo várias vezes. Queria estudar, ele dizia que mulher que queria estudar era pra passar chifre no marido. Se eu conversasse com um homem, estava chifrando. 
Um dia, ele me disse que a certidão de casamento era a posse dele sobre mim. Comecei a me revoltar. Comecei a estudar para concursos. Tentei um de Oficial de Justiça, naquela época bastava segundo grau. Foi um inferno. No dia das provas, só o ouvia dizer: Você não passa! Fiz um para professora do Estado, passei e nunca fui chamada. Tentei para o município, e ele dizia que este era bom, pois eu não receberia mais que ele. 
Fui chamada, fiz faculdade, e ele dizendo que não precisava. Tentei me separar três vezes. Ele dizia que eu queria ser rapariga. E cada dia foi ficando mais possessivo, me sufocando. Houve dias de ameaçar me bater. Reagi com o que tinha mais próximo das mãos, uma faca. Eu disse que se ele me batesse, que fosse para matar, pois se eu me levantasse, não teria médico neste mundo que o costurasse. 
E a revolta fez com que eu tivesse a atitude de dar um basta. Meus pais se separaram depois de trinta anos de casados, e eu tinha que me sujeitar a ser chamada de rapariga dentro da minha própria casa? Enfrentei. Ele me perseguiu. Primeiro disse que não era para eu sair de casa no Carnaval, pois iam dizer que ele era corno. Ainda passei seis meses tendo paciência. No fim, mandei que ele saísse de casa. Quando minha filha pediu para ele sair, ele saiu. 
Praça em Caicó hoje
Meu nome virou conversa de bar para ele e os amigos. Ele disse que se separou porque eu o traí. Que eu tinha virado prostituta, toda essa merda que eles dizem. Aqui em Caicó, na região de Seridó, quando uma mulher se separa, vira alvo dos amigos do ex. Eles apostam entre si quem vai pegar primeiro. 
O fato de dormir em paz era um sonho realizado. Enfrentei o preconceito da família dele. Minha mãe e meu pai estavam mais preocupados em ele como policial não me matar. Eu, estava mais preocupada em ser livre, e levar comigo minhas duas filhas. 
Ele tentou me deixar na rua, levar minhas filhas e minha reputação. Dane-se minha reputação! Uma de minhas filhas, com 18 anos hoje, foi minha maior cúmplice. Ela sabia que o salário que eu recebia como professora não nos sustentaria. Orientei que ela fosse comer na casa da avô materna. E eu me alimentava da merenda da escola. 
Sou uma sobrevivente de uma relação que poderia ter sido diferente, se não fosse o pensamento machista do meu ex-marido. Separei não por não gostar mais dele, mas por escolher respirar.
Tenho orgulho de educar minhas filhas para que não sofram e nem sejam objeto de perpetuação do machismo. Ser sindicalista é mais uma vitória nesse meio tão machista. Não preciso provar nada para ninguém. Não sinto que sou uma mulher, um ser diferente, no meio de muitos homens. Sinto que somos pessoas. Não há o que provar, e sim, o que fazer. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ENTREVISTA SOBRE O STALKER DO BBB

Eu tentei ver uns pedaços do BBB15, mas que programa ruim! Acho que não consigo mais ver TV diariamente, ter que se ater a horários. E também, como competir com quem tem pay-per-view e assiste BBB o tempo inteiro? Lembra muito um grande filme, Truman Show, e a ausência de ter uma vida própria
Enfim. Mas me orgulho de ter sido uma das primeiras a ter noticiado que Adrilles é um stalker. Semana passada publiquei o relato da G., e dois dias depois a história da "Ana", que foi mal contada pelo Extra. De lá pra cá, vários reaças me atacaram para defender o Olavette (que, pelo que vi, ainda não falou de política no programa), e fãs do BBB em geral duvidaram das vítimas. Normal.
Um Tumblr foi inaugurado
Incrível que ainda existam dúvidas, principalmente depois que a mídia tradicional deu destaque a algumas "vítimas" (entre aspas porque não sei se elas se consideram vítimas), como a ex-BBB Analice (que disse que ele é "um pouco mais freak do que eu pensava") a blogueira de moda plus size Maristela, que mostrou algumas conversas em que ela dizia a ele "tá estranha essa conversa" e "vc tá me assustando". Já vi que há gente que só vai acreditar se Adrilles stalkear alguém ao vivo no programa (como se stalkers agissem assim publicamente...).
Mensagens entre Maristela e Adrilles
Vários veículos me enviaram emails pedindo para entrevistar G. e "Ana", mas elas se recusaram. Já vou avisando que, se alguém quiser me processar, eu tenho provas referentes ao que publiquei (mas não posso mostrar, em respeito ao pedido de uma das vítimas). 
Anteontem dei uma entrevista para a Patrícia, do R7, que publico aqui: 

- O que é um stalker?
Resp: Stalker é uma pessoa tão obcecada por outra que a persegue incansavelmente. Na grande parte dos casos o stalker é homem e persegue mulheres que terminaram o relacionamento com ele ou não lhe deram a atenção que ele acha que merecia.

- As pessoas confundem o "romântico em excesso" com o stalker?
Resp: Acho que é o contrário: as pessoas confundem o stalker com o "romântico em excesso". Um exemplo disso é a clássica canção do Police, "Every Breath You Take", que o senso comum vê como uma música romântica, tanto que vez por outra é até usada em casamentos. É o mesmo que muita gente acha de ciúmes, que não ter ciúmes é não amar. Como se ciúmes ou qualquer obsessão fosse algo positivo. Uma pessoa romântica aceita um "não" e respeita os limites da outra. Já o stalker, não.

- Como identificar um stalker? E como agir com ele na hora que ele "ultrapassar os limites"?
Conversa de ex-BBBs
sobre Adrilles
Resp: Geralmente o stalker tem um histórico. Ele não está perseguindo alguém pela primeira vez. Já perseguiu outras pessoas antes. Por isso é importante acreditar nas vítimas. Se uma amiga te diz para tomar cuidado com aquele cara, convém tomar cuidado. O ideal é cortar todo tipo de contato com o stalker assim que ele mostrar os primeiros sinais de obsessão. Por exemplo, alguém que você mal conhece mas que já pesquisou na internet e descobriu toda a sua vida -- isso é um péssimo sinal. Ou alguém que descobre seu telefone e fica ligando insistentemente pra sua casa. Tem que deixar bem claro que você não quer nada com ele, que não adianta insistir. É comum a mulher querer ser educada, polida, cortar gentilmente. Com stalker não funciona. Tem que ser firme e cortar todo tipo de contato, deletá-lo nas redes sociais, bloquear email, não responder. E, se ele insistir, fazer boletim de ocorrência.

- O Adrilles, do BBB, perseguiu várias mulheres. Algumas entraram em contato com você, como foi isso?
Resp: Assim que o nome dele foi anunciado no BBB15, apareceram vários boatos nas redes sociais de mulheres dizendo que foram perseguidas por ele. Saiu também uma matéria mal contada no Extra, narrando a vez em que ele acabou com o casamento marcado de uma moça por quem era obcecado. Uma dessas moças me enviou um email contando sua história, que é bastante leve em comparação a outras. Eu publiquei esse relato com o título que ela me mandou, "Meu stalker entrou pro BBB". Porque imagina só, é muito chocante você ver uma pessoa que te perseguiu, que te aterrorizou, num programa de TV. 
No dia seguinte, uma pessoa diretamente envolvida com a história do casamento também me enviou um email, e então vi que o padrão de stalking era ainda pior. Adrilles perseguiu durante dez anos uma moça que conheceu na faculdade. Ela teve que largar o emprego por causa dele. Ele só parou quando, no Juizado Especial Criminal, assinou um termo se comprometendo a não se aproximar dela por mais de 500 metros, a não ligar mais pra casa dela ou de amigos dela.

- Por que você decidiu contar a história delas?
Resp: Porque costumo acreditar nas vítimas. No meu blog, que está completando sete anos, há inúmeros relatos de mulheres, e de homens também, que sofreram algum tipo de violência. Creio que é menos difícil superar um trauma quando você vê que não está sozinha, que isso que está acontecendo com você já aconteceu com outras pessoas. 
É importante que as pessoas vejam que stalking não é bonito, não é romântico, não é um elogio ou uma prova de amor. É uma obsessão doentia. Como alguém com este perfil pode ter sido chamado para participar de um programa de TV, ainda mais um programa que diz que seus participantes passam por exames psicológicos, é uma incógnita.

- Qual foi o impacto que Adrilles causou na vida destas mulheres?
Mensagens de Adrilles
divulgadas pela ex-
BBB Analice
Resp: No caso da moça que ele perseguiu durante dez anos, ela teve que largar o emprego, pois ele foi trabalhar onde ela trabalhava. E ela teve tanto medo que só ia para o seu carro acompanhada do segurança da empresa. Ela tentou fazer boletim de ocorrência, mas não pôde porque o terror é psicológico, não físico. A sugestão do delegado foi que o noivo desse uma surra em Adrilles. Foi uma década de perseguição, e isso que essa moça nunca mostrou o menor interesse por ele. É um trauma grande ser alvo de um stalker. A vítima passa a temer que isso se repita em outros relacionamentos, passa a desconfiar das pessoas, tem pesadelos. Afinal, um stalker mostra que amor e ódio caminham juntos. O "eu te amo" rapidamente se transforma numa ameaça de morte na primeira negativa. Eu conheço casos em que a mulher teve que fugir, ir morar em outra cidade.

- Você citou, em seu post sobre o Adrilles, o caso de estupro no BBB. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Resp: Eu e muita gente achamos que o caso do estupro no BBB12 nunca foi bem esclarecido. O mais terrível foi ver Pedro Bial dizendo "o amor é lindo" enquanto o Brasil inteiro comentava sobre o que aconteceu embaixo do edredon, com uma participante desacordada.

- O BBB é um programa machista?
Resp: O mundo ainda é um lugar muito machista, e as representações que vemos na mídia costumam ilustrar bem esse machismo, esse racismo, essa homofobia. Eu não diria que o BBB inteiro é machista, depende dos participantes e da edição, do que o programa escolhe mostrar. Mas é sempre lastimável quando o BBB seleciona participantes preconceituosos como Marcelo Dourado, ou stalkers como Adrilles. Certamente o BBB conhece o perfil deles.

- Em seu blog, há textos criticando o programa e alguns participantes, como o Dourado. Do seu ponto de vista, o reality faz com que crimes como estupro, preconceito e perseguição sejam naturais?
Resp: Ainda não sabemos se esta faceta de Adrilles virá à tona na TV. É óbvio que os outros participantes, e o próprio Adrilles, não sabem que há várias mulheres dizendo que ele é um stalker. Se esses traços obsessivos dele aparecerem, não sabemos se a edição irá destacá-los ou escondê-los. Os programas de TV normalmente naturalizam crimes porque são programas superficiais, com pouco ou nenhum espaço para críticas e questionamentos. Não sabemos quanto tempo Adrilles ficará no programa. A torcida das vítimas é que ele saia o quanto antes.

- Tem algo a acrescentar sobre o assunto?
Resp: É incrível como as pessoas são rápidas em desacreditar as vítimas. São muitas mulheres denunciando que Adrilles é stalker -- todas estão mentindo? Outra crítica que ouvi é que elas estariam querendo aparecer. Como, se insistem em permanecer anônimas? 
Gostaria que as pessoas se colocassem no lugar das vítimas. Como se sentiriam ao ver no horário nobre um sujeito que fez de tudo para arruinar a sua vida? Achariam isso romântico? Bonitinho? Divertido?