sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

130 ANOS DEPOIS: NÃO SOU ESCRAVO DE NENHUM SENHOR

Reproduzo aqui o ótimo texto de Iago Gomes (do Juntos! Bahia) e de Matheus Lisboa (do Juntos! Pará), publicado na quarta no Juntos! 
Todas as fotos usadas para ilustrar o post são referentes ao inesquecível desfile da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do carnaval deste ano. O enredo "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?", fazendo alusões ao golpe e à retirada dos direitos trabalhistas, mexeu com a população.

Muito se estudou e se conhece do período colonial no Brasil. A produção histórica de conhecimento é muito vasta e existe um arsenal enorme de informações sobre todo o período da colonização brasileira desde os livros didáticos, passando pelo desenvolvimento de pesquisas em diferentes áreas e chegando até os debates bancados pelos movimentos sociais e populares. Mas até onde filtramos essas informações ou, sem sermos contraditórios, nos colocamos na tarefa de aprofundar os impactos que mais de 60% de recorte histórico brasileiro deixou de cicatrizes em nossa estrutura? 
Como pensar a plataforma estruturada com a colonização e o regime de escravidão e massacre sob povos tradicionais e negros como base para formação de um país extremamente desigual? Estamos 130 anos após a Abolição da escravidão no Brasil e essas perguntas precisam ser base de debates políticos importantes se almejarmos pensar o país de hoje e onde chegamos. Um grande desafio, mas necessário. Os desfiles carnavalescos deste ano colocaram na ordem do dia o contexto. A Paraíso do Tuiuti deu um show e gritou: Não sou escravo de nenhum senhor!
A COLONIZAÇÃO, A ESCRAVIDÃO E A ABOLIÇÃO
A expansão marítima moderna, como parte de uma articulação sistêmica e muito bem esboçada, foi o início de uma encruzilhada com novos povos, novas culturas e novos tipos de exploração. O interesse por áreas comerciais e a necessidade de fincar-se que o capitalismo tinha o fez recorrer ao método colonizador de dominação, que pode ser analisada sob diversos vieses: territorial, cultural, político e sobretudo econômico. Vieses estes que não são fragmentários, mas se relacionam de forma compactuada. 
O processo de expansão do capital tem, desde muito tempo, ditado a realidade do povo negro. A concretização do sistema mercantil do capitalismo, ainda na sua fase de estruturação, já mostrava que as benesses do capital sempre iriam se contrapor à população mais vulnerável. Em todos esses aspectos, a capacidade de transformação humana da natureza se fazia necessária, como parte elementar do próprio sistema capitalista. Em um período onde as grandes confusões com os novos métodos da classe em ascensão eram difundidas popularmente, cabia aos exploradores europeus voltarem todas as facetas criativas para justificar o plano de dominação. 
Com isso, as ciências e a religião, com grande influência civilizatória, passaram a ser justificativas menores para a dizimação de civilizações nativas e para escravização delas para subserviência de mão-de-obra. O processo de submissão de qualquer tipo de conhecimento que não seja o atrelado ao europeu- branco foi base para a consolidação do sistema escravagista brasileiro. A construção da estrutura do racismo se deu, milimetricamente, de forma institucional, e com o respaldo da ciência e da religião. 
O programa racista que interpela todos os vieses citados estava em vigor de forma muito mais profunda do que versículos bíblicos que justificam e tratados científicos que encorajam. A branquitude europeia incorporava o plano já nascido mesmo antes do próprio capitalismo e colocava suas cartas com muita violência e capacidade destrutiva. 1500 não é fruto de um acidente histórico, é uma trama engendrada globalmente com extrema capacidade dizimativa! Como disse MC Carol na música “Não foi Cabral”: “Ninguém trouxe família/ Muito menos filho/ Porque já sabia/ Que ia matar vários índios/ Treze caravelas/ Trouxe muita morte.”
O conceito de “descoberta” utilizado em livros didáticos é eurocêntrico, porque além de forjado por aqueles que escreveram os livros serve a difusão de uma narrativa que esconde o programa, e só o esconde porque ele ainda está em vigor, não teve fim e alcança seus objetivos de forma a satisfazer os do andar de cima. A escolha por arrancar os povos africanos de seus territórios para utilizarem de mão de obra bebe no fato de exterminarem nativos para facilitar a exploração e tomada de novos mundos. E também porque o racismo foi forjado como arma ideológica de dominação global para servir a isso em ampliação do racismo como justificação de privilégios das elites e dos infortúnios das classes subalternas, como Clóvis Moura descreve bem. 
Com isso, a colonização como programa das novas classes dominantes e o racismo remodelado desenvolve uma combinação histórica que impossibilita a compreensão marxista de luta de classes separada da luta racial, afinal a classe explorada do Brasil tem na base piramidal os povos arrancados das Áfricas e esmagados na “nova terra”.
Na base econômica do Brasil colônia, a produção teve um destaque rotatório que influenciou no desenvolvimento urbano e civilizatório. O primeiro estado criado, a Bahia, tinha no açúcar a sua matéria base no modelo plantation. Recorria obviamente à mão-de-obra escrava. Salvador, capital baiana, é a cidade mais negra fora d’África. 
Na Amazônia, a ocupação desenfreada ditada nos moldes do desenvolvimento, das missões jesuíticas ao advento do ciclo da borracha, demonstrou o caráter desenfreado de exploração de mão de obra escrava, seja indígena ou negra africana. Durante a exploração do ouro nas Minas Gerais, a “corrida do ouro” fez com que a disputa pela exploração e trabalho do ouro se desse por outros grupos não-negros e não-nativos, como por exemplo os tropeiros imigrantes. 
O modelo colonial já começava a sofrer tremores maiores com as lutas internas e a auto-organização do povo escravizado, além de idealistas brancos com outros interesses que raras vezes se encontravam. O surgimento de vários Quilombos e a fortificação de muitos outros, figuras símbolos de resistência como Dandara e Zumbi dos Palmares já eram conhecidas e reivindicadas como exemplos da luta negra organizada no país. 
Muitas revoltas como A Revolta da Cabanagem, protagonizada por negros e indígenas insatisfeitos com o governo regencial e com a intensa exploração na província do Grão-Pará, e a Revolta dos Malês em 1835 em Salvador, foram marcas de um bruto período de resistência diária de um povo vítima da pior exploração possível. 
Todos esses antecedentes preparam a nossa libertação, mas não foram suficientes para impedir que a Lei Áurea de 13 de Maio de 1888 tenha sido o “fim da escravidão”, mas a continuidade de nós na parte de baixo da pirâmide, como aqueles que não tinham direitos ou que precisávamos vender os poucos direitos conquistados para comer e viver.
O PÓS-ABOLIÇÃO: SAÍMOS DAQUI E FOMOS PARA ONDE?
Durante a abolição da escravidão no Brasil, a capital já era o Rio de Janeiro, a mesma cidade que hoje passa por uma situação radical de violência com raiz no racismo proibicionista das drogas e no modelo urbano segregacionista. A Lei Áurea não incluiu o negro no desenvolvimento acelerado e não o orientou a integrar-se no trabalho assalariado, não por simples erro construtivo da Lei, mas por abertura dominante a permitir que o racismo continuasse como justificativa de exploração. Em A integração do negro na sociedade de classes Florestan Fernandes afirma:
“A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. (…) Essas facetas da situação (…) imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.
Este é um dos aspectos mais importantes, mas não devemos desconsiderar a periferização da população negra urbana em contrapartida à aceleração industrial e arquitetônica, à criminalização cultural, à negação de serviços e a direitos básicos, à perseguição violenta com recursos do Estado, à continuidade da difusão ideológica de dominação a partir também das teorias de branqueamento, etc. No Pós-Abolição fomos para uma situação de abolicionados e serviência a uma propaganda da abolição que não era destinada a nós, afinal estávamos muito ocupadas e ocupados tentando sobreviver.
130 ANOS DEPOIS…
No final do ano passado, foi divulgado um levantamento feito pelo Ministério da Justiça do Brasil que apresentava uma informação sobre o sistema carcerário brasileiro: somos a terceira maior população carcerária do mundo. Multiplicamos oito vezes em 26 anos e temos o dobro de presos em relação a vagas reais nas penitenciárias. Um mês antes, levantamento feito pelo Fórum de Segurança Pública trazia o dado de que 71% das vítimas de homicídios no Brasil são negros. 
Em dezembro, o Anuário do Fórum de Segurança Pública também trazia que o número de negros mortos por policiais é o dobro de brancos, e mesmo do lado da polícia, os que mais morrem são negros (223, contra 171 brancos e 179 não identificados). O encarceramento de mulheres brancas caiu, o de mulheres negras cresceu. A taxa de escolarização das mulheres brancas é de mais de 20%, a de mulheres negras é menor que 10%. Por que todas essas estatísticas apontam contra nós? O argumento de proporcionalidade numérica não dá conta, porque nas estatísticas positivas não somos nós que estamos no topo! Não são pessoas negras que ocupam o posto das pessoas mais ricas do país, e sim homens brancos.
Em momentos de intensificação de crises econômicas do capital, os do andar de cima, que não abrem mão de suas parcelas de lucro, acirram a retirada de direitos e a exploração dos de baixo. A base piramidal da sociedade se alarga para sustentar a fatia gorda dos de cima. 
Encaramos medidas como a Reforma Trabalhista, Lei da Terceirização e Reforma da Previdência. Nós que já somos maioria no mercado informal, somos jogados ainda mais para os piores postos de trabalho. Cresce o número de moradores de rua, de adoecimentos da mente, de vendedoras de doces e lanches e até de universitários desempregados, a maioria de regra tem uma cor. 
O Nordeste é a região com maior número de desempregados e o Norte vem logo após. A Bahia em agosto de 2017 foi o estado com estatísticas mais cruéis, apontou o IBGE. No Pará, estado com a maior população autodeclarada negra do Brasil, Belém padece como a capital com maior proporção de pessoas vivendo em periferias no país, e uma das mais perigosas do mundo, reflexo óbvio do quanto a pobreza nesse país tem cor. 
A realidade é mais dura para quem é negro no Brasil, ainda ocupamos os lugares mais ínfimos da sociedade, os espaços políticos ainda são de maioria branca, as universidades –- mesmo com a política de cotas -- são espaços de hegemonia branca, e a permanência do estudante negro e pobre na academia não é amparada pelas tímidas políticas afirmativas. 
A mentalidade escravagista domina a sociedade brasileira. Após a abolição da escravidão os negros brasileiros ainda continuam tendo uma vida muito difícil, sem acesso aos equipamentos da cidade, morando nas periferias, que cada vez mais distantes do centro, se tornam reduto da ausência do Estado. Em 2018, completamos 130 anos da abolição da escravidão no Brasil, mas o racismo ainda é a base programática do capitalismo. Para superá-lo é preciso, portanto, estratégias que revelem e derrubem o racismo junto com os muros econômicos e políticos da ordem.
POR UMA REVOLUÇÃO RACIAL
O Brasil neocolonial revestiu as facetas da palavra colonial. Precisamos derrubar o radical desses dois e fazer do sufixo o nosso motim geracional! Precisamos recuperar a teoria de Florestan Fernandes. Essa proposição foi bem desenvolvida pelo professor Maycon Bezerra em “O marxismo descolonial de Florestan Fernandes e a esquerda socialista do século XXI”, na organização da rebeldia constante e persistente da negritude sob os regimes sem servirmos de sustentação burocrática e passiva para a burguesia nacional e internacional. Sobre Florestan, Bezerra coloca:
“[…] Teoricamente, nunca aceitou o marxismo deformado pela ótica positivista da burocracia stalinista, nunca dissociou materialismo de dialética em sua compreensão do marxismo. Politicamente, nunca teve acordo com a estratégia de colocar os trabalhadores passivamente a reboque do desenvolvimentismo da “burguesia nacional”. Ainda quando julgou que a modernização burguesa da sociedade brasileira tivesse o potencial de levar o processo histórico além dos interesses restritos dos capitalistas […]” 
Florestan Fernandes e muitos outros pensadores e pensadoras como Angela Davis são parte de um arsenal teórico a que precisamos recorrer para pensar estratégias de organização da negritude no Brasil e no mundo. O Black Lives Matter nos EUA segue sendo um grande exemplo no enfrentamento ao racismo no centro do imperialismo, onde a crise também é responsável pelo aumento da desigualdade. O número de moradores de rua nos EUA cresceu enormemente, em Los Angeles aumentou em 23%, chegando a quase 60 mil.
O país da maior população carcerária do mundo é também o país articulador de um programa racista mundial. Como disse Angela Davis, não basta não sermos racistas, é preciso sermos antirracistas. Colocar essa máxima em prática é desenvolver a partir de elementos desiguais e combinados possibilidades de expor as feridas, de nos mantermos vivos e de construir a longo prazo uma saída. 
Parte de nossas tarefas: outra política de drogas, o fim dos antecedentes criminais que impossibilitam novos empregos, a luta contra as medidas de extinção de direitos trabalhistas e a organização de trabalhadores do mercado informal, da manutenção de cotas nas universidades e por uma real permanência estudantil, batendo de frente com os poderosos engravatados que, assim como o reitor da USP, afirmam que a universidade não é para a gente. 
Partem de nós essas tarefas sem perder o horizonte estratégico da fundação do new society, sem nunca perder a intrínseca relação classe, raça e gênero também como método de superação da velha esquerda que separa e acusa. É preciso muita coragem e ousadia e que as multidões sejam contaminadas pelo sangue de nossos ancestrais e pelo sonho de mudar a nossa realidade. Algo que o sambódromo do Rio de Janeiro e o mundo acompanhou no desfile da Paraíso do Tuiuti no Carnaval deste ano e que precisamos colocar como tarefa nossa.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

GRÁVIDAS QUE SAMBAM, SAIAM DO MEU ASSENTO

O enredo do Salgueiro, escola que acabou ficando em terceiro lugar este ano, foi "Senhoras do ventre do mundo" e tratou de homenagear as mulheres negras.
Houve controvérsias: muita gente reclamou do blackface usado por ritmistas da bateria e também pela comissão de frente, formada por homens vestidos de mulheres negras (por que não ter mulheres negras de verdade na comissão?).
Mas não é sobre isso que eu queria falar. 
No desfile da Salgueiro, seis lindas mulheres negras, grávidas (uma delas, Maíra Freitas, filha do compositor Martinho da Vila, declarou: "Minha mãe desfilou grávida de mim, no Salgueiro. É muito bom dar continuidade à história da minha família, ainda mais nesse enredo"), estiveram no abre-alas da escola. Aliás, todo ano há grávidas no carnaval, seja como rainha da bateriapassista ou porta-bandeira.
Rainha da bateria do X9 paulistano
em 2013
Por incrível que pareça, durante esses dias de folia apareceu um ou outro comentário deste tipo aqui no blog: "Temos que repensar esse direito de prioridade para grávidas... é flagrante que elas podem sim dançar e sambar, então podem pegar filas e ficar em pé no ônibus". O comentário não foi aprovado, porque há limites pra estupidez. Mas depois eu vi no tuíte acima que coxinhas realmente discutiram esse "privilégio" das mulheres grávidas de não pegar (tanta) fila e ter prioridade em assentos no transporte público.
Voltando às fotos do desfile do
Salgueiro em 2018
A lógica reaça, se é que se pode chamar ignorância de lógica, é que, se uma grávida pode dançar, sambar, cantar, se divertir, então por que diabos ela deveria ter preferência na fila ou no ônibus?
Serião: eles comparam fazer algo que se faz poucas vezes por ano, por escolha (sambar grávida), com algo que uma mulher grávida de classe baixa ou média baixa tem que fazer montes de vezes, como andar de transporte público, por obrigação.
Essa "Loira Reaça", que tem um bom número de seguidores no Twitter, pelo menos não esconde que é reaça. Diante dos esculachos que recebeu, ela justificou que não estava falando de todas as grávidas, apenas dessas daí do Salgueiro (por coincidência, todas negras que "não representam" a loira). Mas ela também ganhou muito apoio de seus seguidores igualmente reaças. Quer passar mal? Selecionei alguns tuítes:
- "Depois essas grávidas aí dão um jeito de se afastar do emprego por causa da gravidez mas no carnaval tão tudo de boa desfilando sem problemas"
- "Se não sentarem assim que entram no ônibus, morrem. Agora para pular carnaval, aguentam horas em pé"
- "Isso não é mãe, imagina se dá uma complicação, o bebê pode até morrer. Essas não representam mulher alguma"
- "Grávida precisa ter preferência, não por ela, mas pelo bebê"
- "Nunca vou concordar com grávidas dançando, saracoteando. Acho absolutamente inadequado"
- "Era a ala do Bolsa Família?"
- "Tem uma ou duas aí nessa foto que só pode ter sido engravidada por inseminação artificial, porque 'comer' um bicho feio desse, nem com muita cachaça na cabeça".

Olha, não existe gente mais fascista e desumana do que a galera da direita. E por trás dos comentários, como você pode reparar, está a vontade de controlar o corpo da mulher. O bebê, afinal, não pertence a ela (só depois de nascer -- aí os "pró-vida" gritam pra mãe: "Não pôs no mundo?! Vire-se!"). A mulher é apenas um receptáculo, e este útero de duas pernas deve se comportar "adequadamente" -- sem dançar, sem tomar álcool, sem transar. De preferência sem se mexer, para não atrapalhar a gestação. Mas nada de sonhar em deixar de trabalhar antes do parto ou de tirar licença maternidade depois. Isso é prejuízo pros pobres empresários! O melhor é nem contratar mulher, que sempre "corre o risco" de engravidar...
Mesmo com todos esses pensamentos misóginos e racistas, reaças ainda reclamam quando mulheres priorizam a carreira, ou têm filho mais tarde, ou decidem não ter filho. Afinal, como uma mulher pode não querer realizar sua missão na vida (ser mãe) numa sociedade que tem tanto respeito por ela?!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

TER FILHOS PODE SER RUIM PARA O CASAMENTO

Durante o carnaval, comentei o tuíte de uma moça que respondeu a uma médica que disse que é muito comum mulheres com mais de 40 anos se arrependerem por não terem filhos. 
Isso gerou uma thread muito bacana em que várias mulheres compartilharam suas histórias: mulheres que não quiseram filhos e não se arrependeram; mulheres que são jovens, avisaram que não querem filhos, e a sociedade não aceita ("daqui a pouco você muda de ideia"); mulheres que tentaram fazer laqueadura e o médico não aceitou, e por aí vai. 
Um leitor, Ulisses, me enviou um artigo muito interessante escrito por Matthew D. Johnson para o Washington Post, e traduzido por Terezinha Martino. O texto foi publicado pelo Estadão com o título  "Entenda por que ter filhos é ruim para o seu casamento" há um ano e meio, mas é muito interessante. Por isso, vou reproduzi-lo aqui. Obviamente, não quero convencer ninguém a deixar de ter filhos. Só quero oferecer uma contra-narrativa ao bombardeio diário de que "ter filhos traz felicidade" e que "você só é uma mulher completa se tiver filhos".

Muitas mulheres anseiam pela maternidade, a familiaridade com um bebezinho, criar um filho, desenvolver uma relação com os filhos já adultos. Em todo o mundo, as pessoas acreditam que um filho é o que há de mais recompensador na vida. E é tão bom que muitas mães guardam como tesouro esse vínculo com os filhos porque a transição para a paternidade causa profundas mudanças no casamento de uma mulher e em sua felicidade no geral. E não para melhor. 
As famílias normalmente recebem um bebê com grandes expectativas. Mas à medida que a ligação da mãe com seu filho se intensifica, é possível que os outros relacionamentos se deteriorem. Pesquisei décadas de estudos sobre os efeitos psicológicos do nascimento de um filho para escrever meu livro Great Myths of Intimate Relationships: Dating, Sex and Marriage, e eis aqui os resultados da pesquisa.
Quando as pessoas se casam elas estão apaixonadas e felizes com sua união. Mas depois as coisas tendem a mudar. Em média, a satisfação do casal com sua relação declina nos primeiros anos de união, e se o declínio for particularmente agudo, vem o divórcio. O amor verdadeiro esmorece. E isso antes mesmo de você considerar o que ocorreria na hora de comprar fraldas e uma cadeirinha para o carro.
Por cerca de 30 anos, pesquisadores estudaram como a paternidade afeta um casamento e os resultados são conclusivos. A relação entre os cônjuges sofre quando surgem os filhos. Comparando casais com e sem filhos, os pesquisadores concluíram que a taxa de declínio da satisfação com a relação é quase duas vezes mais aguda em casais com filhos do que aqueles sem. No caso de uma gravidez não planejada, os pais sofrem impactos negativos ainda mais fortes na sua relação.
A ironia é que, mesmo com o declínio da satisfação do casal, a probabilidade de um divórcio também diminui. Portanto, ter filhos pode deixá-los deprimidos, mas ficarão deprimidos juntos. 
Pior ainda, a diminuição da satisfação conjugal provavelmente leva a uma mudança no tocante à felicidade em geral, porque o maior indicador da satisfação com a vida em geral é a satisfação de uma pessoa com seu cônjuge.
Embora o impacto negativo sobre o casal quando da chegada dos filhos seja algo familiar, ele é especialmente insidioso porque muitos casais jovens acham que ter filhos irá deixá-los mais unidos, ou pelo menos não provocará uma situação angustiante entre os cônjuges. 
Esta crença é um mito persistente e obstinado entre casais jovens e apaixonados.
É óbvio que um bebê, quando chega, vai alterar essa dinâmica. E realmente a chegada dele muda a maneira como os casais interagem. Os pais com frequência ficam mais distantes e mais formais um com o outro, ao mesmo tempo que passam a se preocupar com outros detalhes da nova vida. Questões mundanas básicas como alimentar, dar banho e trocar uma criança implicam um gasto de energia, tempo e determinação. Num esforço para a vida familiar continuar fluindo, os pais discutem questões como ir ao supermercado, como dividir o carro em vez de conversar sobre a última fofoca ou o que pensam sobre a eleição presidencial. Em vez de conversas sobre como foi o dia da pessoa, o que se discute agora é se a fralda do bebê está suja.
Essas mudanças podem ser profundas. Identidades fundamentais mudam -- de esposa para mãe e mesmo de amantes para esposo. Mesmo no caso de casais do mesmo sexo a chegada de filhos é prognóstico um relacionamento e sexo menos satisfatórios; Além da intimidade sexual, os novos pais tendem a parar de dizer e fazer aquelas pequenas coisas que agradam seu parceiros. 
Com quase metade de todos os nascimentos ocorrendo no caso de casais seu uma união formalizada, alguns pais acham que se beneficiam do sistema sem precisar se casar. Não é bem assim. A responsabilidade de um filho está presente independente de estado civil, gênero ou nível de renda. Além disto, o impacto adverso de se tornar pai é observado em outros países, mesmo aqueles com números maiores de pais não casados e políticas familiares mais generosas.
Não surpreende que são as mães, e não os pais, que arcam com o pesado custo de dar à luz um filho. Mesmo quando ambos trabalham fora ou em uniões em que ambos os cônjuges dividem o trabalho de casa, muitos genitores acabam assumindo o papel estereotipado do gênero. As mulheres estão mais propensas a ficar mais disponíveis; são elas que levantam à noite para cobrir o filho ou que são chamadas pela creche.
Assim, a nova mãe costuma reduzir suas horas de trabalho fora de casa, e isto com frequência leva o pai a sentir mais o peso da responsabilidade financeira. Hoje é comum os pais começarem a gastar mais tempo e energia trabalhando fora e as mães se encarregando cada vez mais do trabalho de casa e dos cuidados com os filhos. O que pode levar a sentimentos de frustração, culpa e angústia para ambos os pais. 
As novas mães com frequência falam do seu isolamento social, acabam se afastando de amigos e colegas e têm a sensação de que seu mundo está cada vez menor. Tudo isto tem efeitos duradouros e fundamentais no novo círculo de apoio das mães, incluindo seu cônjuge.
As consequências podem ser sérias. A tensão conjugal está associada a muitos problemas de saúde física graves como também a sintomas de depressão e problemas mentais. O elo entre problemas conjugais e psicológicos é muito forte e os pesquisadores chegaram à conclusão de que a terapia de casais é um dos meios mais eficazes para tratar a depressão e outras doenças.
Se a chegada de um filho é penosa para um casamento, a saída do filho é boa? Algumas uniões melhoram quando os filhos deixam a casa. Em outros casos ela leva o casal a descobrir que tem poucos interesses em comum e não há nada que mantenha os dois juntos.
Esses aspectos negativos de ter filhos podem explicar em parte porque um número cada vez maior de mulheres nos Estados Unidos e em todo o mundo não querem procriar. De acordo com o Censo nos EUA, o porcentual de mulheres americanas entre 15 e 44 anos sem filhos aumentou enormemente em apenas duas gerações: de 35% em 1976 para 47% em 2010.
Apesar deste quadro sombrio da maternidade pintado por pesquisadores como eu, muitas mães (e pais) consideram os filhos sua maior alegria. Muito similar ao parto, caso em que quase todas as mães acreditam que vale a pena passar pela dor e o sofrimento, muitas acham que a recompensa de ver os filhos crescerem vale o ônus que pode acarretar para o relacionamento com seu parceiro.

UPDATE: A historiadora, professora, mãe e feminista Larissa Lemos fez umas excelentes reflexões sobre o artigo. Recomendo!